sexta-feira, 30 de outubro de 2009

[Esp] "Foi-me dado um espinho na carne" (II Cor XII, 7)

Homilia para o XIV Domingo do Tempo Comum.
5 de julho de 2009.
C. P. Jones, OP.
Da segunda leitura do dia, II Cor XII, 7-10:
...foi-me dado um espinho na carne ... Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.
Ninguém sabe o que era a este “espinho na carne” que “foi dado a” São Paulo. É uma questão de opinião. Alguns dizem que São Paulo, tal como Moisés, era afligido por alguma limitação da fala que o fazia menos que impressionante como pregador. Esses se referem à primeira epístola de Paulo aos coríntios, onde ele escreve: “Eu me apresentei em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor.” (I Cor II,3). Alguns especulam que “o espinho em [sua] carne” era alguma deficiência física ou doença, apesar de não existir nenhuma evidência disso. Outros, com ainda menor evidência, imaginam que Paulo sofria alguma aflição psicológica, como depressão maníaca ou alguma desordem obsessiva compulsiva.
Ninguém sabe e, na verdade, isso não é importante, pois a questão de Paulo é clara: existia alguma coisa nele que ele queria desesperadamente que fosse mudado. Ele rezou a Deus para que Ele mudasse isso, mas Deus disse “não”, por uma razão que ensinou a São Paulo uma grande e salutar lição: que é pela nossa fraqueza – não pelas nossas forças – que nós recebemos a graça de Deus. Assim, Paulo declara: “Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.”.
Agora, vou tomar o restante da homilia de hoje para aplicar a ideia de Paulo a um caso singular e posto em discussão: o controverso assunto da homossexualidade. O mundo nos diz por toda sua mídia que “ser gay é bom” – implicando que qualquer um ao questionar isso, especialmente de um ponto de vista cristão, está colaborando com a injustiça e a opressão. Mas isso não é justo, tanto com a Igreja, como com aqueles dentre nós que o mundo chama de “gays”.
Há muitos anos, pouco antes da Rebelião de Stonewall que deu início ao movimento gay, um calouro de Yale me confidenciou que era homossexual. Ele me disse que dormir em um quarto com outro homem era para ele como um homem heterossexual vivendo no quarto de uma garota: suas tentações eram tão intensas que, se ele pudesse apertar um botão que o livrasse de sua atração pelo mesmo sexo, ele o faria instantaneamente.
Este jovem rapaz, pouco mais que um garoto, estava me implorando ajuda e eu estava incerto sobre isso. Então, aconselhei-me com um padre mais velho que tinha um trabalho misterial especial com homossexuais. Seu conselho era claro e simples, ele disse: ajude esse jovem rapaz a não “sair do armário” e a se declarar ao mundo, ajude-o a aceitar sua condição como, tão só, uma dentre muitas fraquezas que existem e ajude-o a prevenir isso controlando o próprio comportamento.
Eu não sei o que veio a ser dele. Espero que ele esteja agora vivendo em paz consigo mesmo e, não, entre aqueles que marcham na Parada do Orgulho Gay, no último mês, ou que tentam se casar com outro homem.
Penso também no caso de outro rapaz que conheci recentemente e que me contou que sua vida foi transformada num dia de confissão, quando o padre prometeu que, quando ele finalmente encontrar Deus face à face, ele quererá agradecê-Lo por o deixar com sua aflição da homossexualidade. Esse padre evidentemente o ajudou a compreender que sua luta pela pureza, que envolvia tantos fracassos, estava o fortalecendo de maneira que ele não tinha imaginado ser importante. Ela estava lhe dando auto-conhecimento conduzindo-o à sabedoria, dando humildade conduzindo-o à dependência da graça de Deus, dando compaixão pela fraqueza de outras pessoas. O pensamento que esse homem me comunicou teve o maravilhoso efeito de tê-lo feito menos propenso a dar consentimento às suas tentações.
O caso da homossexualidade ilustra a verdade do paradoxo de São Paulo: “quando eu sou fraco, então é que sou forte”. Contudo, para entender isso, deve-se tentar ver além, para desmascarar a estratégia larga e recorrentemente recomendada às pessoas que lidam com atrações pelo mesmo sexo. Essa estratégia consiste em afirmar que a atração pelo mesmo sexo é um ponto forte, ao invés de uma fraqueza, tornando isso um elemento definidor das identidades pessoais e, até mesmo, um título.
Deve-se ver essa estratégia por aquilo que ela é: uma estratégia que resolve um conflito interno, tão comoventemente expresso pelo jovem calouro de Yale, pela pura força do desejo, mudando a realidade pelo falso expediente de lhe dar um nome diferente, acreditando, tanto contra a evidência, quanto contra o senso comum, que os seres humanos vieram de nosso Criador, não só sob dois, mas sob outros quatro sexos: “LGBT” – lésbica, gay, bissexual e transgênero.
Os cristãos são guiados pela verdade de que os seres humanos são criados sob dois sexos, um masculino e outro feminino; de que sua atração sexual natural, um pelo outro, é vital para a totalidade e continuação da família humana; e de que, então, quando essa atração natural é interrompida por qualquer razão, ela é um tipo de sofrimento, um dentre muitos tipos de sofrimento que o homem enfrenta num mundo decaído. A questão posta por um cristão frente a esse ou outro sofrimento é sempre este: como isso pode ser redimido? Não explicado, nem eliminado, mas redimido.
No caso da homossexualidade, o primeiro passo para remissão deve ser o de ter conhecimento do que a homossexualidade é: um tipo de sofrimento. Nem coisa natural, nem boa. Não se deve encorajar as pessoas a resolver sua situação redefinindo-a, nem definindo a si mesmos nesses termos. Como São Paulo, uma pessoa pode muito bem rezar pela sua libertação do “espinho na carne”, mas ela, mais que certo, receberá a resposta que Deus deu a São Paulo: “Não. Basta-te a minha graça”.
Então, o que a pessoa faz? Assim como o segundo homem que me confidenciou, ela deve continuar por longo tempo tentando resistir às tentações que surgirem durante suas aflições. A pessoa pode cair com freqüência e ter que voltar a se confessar, de novo e de novo. Mas, pela graça de Deus, ela descobrirá que seus sofrimentos e lutas produziram uma colheita sem limites de virtudes, verdadeiras fortalecedoras do caráter, tal como a sabedoria, a humildade e a compaixão, que, de outro modo, não poderiam se desenvolver nela. Nesse sentido, sua aflição pode ser redimida e, deste doloroso espinho na carne, ela pode, algum dia, tal como São Paulo, ser capaz de dizer que “prefere se gloriar das suas fraquezas, para que, em si, habite a força de Cristo”.
(Livre tradução de texto em inglês, presente em: aqui)

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