domingo, 22 de novembro de 2009

[Esp] Coragem e a cruz: o problema da atração pelo mesmo sexo

[Gostaríamos de agradecer nosso irmão F. por nos ajudar com a tradução. Que Deus o abençoe.]

Por Pe. Paul N. Check*

O ano paulino tem dado à Igreja a oportunidade de meditar sobre a vida e o trabalho de um de seus grandes santos. Os frutos do trabalho apostólico de São Paulo são bastante evidentes. Mas o que tornou esse homem um instrumento tão útil nas mãos de Deus? Qual foi a razão de sua santidade? Para responder essas perguntas, posso indicar um episódio registrado pelo próprio São Paulo quase no final da Segunda Carta aos Coríntios. Ele conta que ele era atormentado por um espinho e que ele tinha implorado três vezes ao Senhor para removê-lo. Nós não sabemos que espinho era - e isso realmente não importa -, mas podemos inferir a partir da urgência de sua prece que esse espinho estava atormentando São Paulo gravemente. Talvez ele acreditasse que ele seria um apóstolo melhor sem aquilo. “Nem os meus caminhos são os teus caminhos” disse o Senhor ao profeta Isaías (Is 55, 8). No presente caso, Jesus aprofunda essas palavras do antigo testamento para Paulo: “Basta-te a minha graça, pois é na tua fraqueza que a minha força se manifesta plenamente” (II Cor 12, 9). Aqui, nesta passagem, creio que encontramos o segredo da santidade de São Paulo. No meio do seu sofrimento, mais descobre São Paulo sobre a sabedoria e a providência de Deus. Abraçando a advertência de Cristo, São Paulo escreve, então, breves palavras de força e consolação: “Pois quando sou fraco, então é que sou forte” (II Cor 12, 10). Não houve outra trilha que levasse à santidade para o apóstolo, nem haverá outra para nenhum de nós. O Cardial Newman disse uma vez que nós sempre aprendemos mais sobre a Cruz de Cristo quando a carregamos logo atrás d’Ele, e não quando fazemos considerações a seu respeito. A noiva de Jesus, a Igreja, bem sabe disso em seu próprio ser, como também através das experiências vividas por seus membros. Assim como a Cruz uniu o céu e a terra, também ela une o coração humano ao transpassado, chagado e Sagrado Coração. Com amor de mãe, a Igreja oferece, para um mundo caído e tribulado, a graça, o perdão e a paz de seu crucificado e ressurreto Salvador, através dos sacramentos, do seu ensinamento e do seu apostolado. Um exemplo é o Apostolado Coragem.

Coragem foi fundada na cidade de Nova Iorque há quase trinta anos atrás para dar assistência a homens e mulheres que são afligidos pelo espinho da atração sexual pelo mesmo sexo (ASMS). Encorajar é um ministério para suas famílias. Hoje esses ministérios são internacionais e são endossados pela Santa Sé. Os membros de Coragem lutam por alcançar não só a castidade exterior, conforme os ensinamentos da Igreja Católica, mas, também, a castidade interior ou “castidade de coração” – assim como frenquentemente diz o fundador de Coragem, Pe. John Harvey, OSFS. Oração, Missa e Confissão, Companheirismo Cristão e serviço aos outros são os meios de alcançar a meta. Ademais, a paternidade espiritual do sacerdote responsável pelo capítulo local de Coragem pode ajudar a lidar com alguma “ferida paterna”, principalmente no coração de um homem. O apostolado procura fomentar castas amizades entre seus membros. Acima de tudo, Coragem deseja ajudar homens e mulheres com ASMS a tornarem-se santos, ajudando-os a encontrar a graça de Deus em e através da fraqueza deles, que é humana. Claro que boa parte do mundo não vê a condição da homossexualidade como uma fraqueza, muito menos como cruz ou meio de santificação. Emoções e confusão tornam a conversa sobre este assunto algo difícil e, até mesmo, doloroso. Devemos dizer também que julgamento apressado e severidade não são tons do Evangelho. A atitude esperada de todos os discípulos do Mestre, quando abordando esta questão, pode ser encontrada no exemplo de São Paulo, na II Carta aos Coríntios, 12. Humildade, um espírito dócil e uma sincera disposição a confiar na providência de Deus dispõem o coração a encontrar força na fraqueza e a lidar, com caridade, com aqueles sobrecarregados pela fraqueza. Ao tentar seguir o exemplo do Senhor, Coragem deseja sempre pensar em termos de pessoas individuais e as necessidades delas, em oposição à ideia de homossexualidade como uma questão cultural. São Paulo chama isto de “ter o pensamento em Cristo” (I Cor 2, 16).

O Catecismo da Igreja Católica afirma apropriadamente que a atração pelo mesmo sexo é “objetivamente desordenada” (parágrafo 2358). Essas palavras podem ser incômodas, mas também libertadoras. Elas são incômodas porque elas podem ser entendidas como um julgamento moral acerca da pessoa – o que não são -, o contrário de um assentimento da inclinação como medida contra a natureza humana. O desejo de mentir é objetivamente desordenado e assim também são os desejos de roubar, fraudar ou fornicar. Quando satisfeitas, essas inclinações serão sempre contrárias ao bem da pessoa, como é compreensível pela prima gratia, a lei moral natural, que está impressa na mente e no coração de todos (cf. Rm 2, 15). As palavras vindas do Catecismo são libertadoras por essa razão. Alguma coisa dentro da pessoa com atração pelo mesmo sexo diz para ela que esse desejo não está de acordo com a natureza, e a voz da Igreja confirma o instinto dela.

Desse modo, nós voltamos para a questão da origem e matéria do problema. A atração pelo mesmo sexo é uma desordem que se desenvolve e que pode tanto ser tratada, como prevenida. Ela indica um desenvolvimento incompleto do caráter, provavelmente baseada na convergência de uma série de fatores: temperamento, ambiente, experiência e livre vontade. Dito de outro modo, nós somos nascidos homens e mulheres, mas nós aprendemos e crescemos em nossa masculinidade e feminilidade por meio da família e amigos, conhecimentos e outros aspectos de nossa história pessoal e social. O que importa em todo caso é como a pessoa responde a esses fatores.

Algumas circunstâncias tornam-se recorrentes quando se estudam muitos perfis de pessoas com ASMS: um lar dividido ou turbulento, crianças alienadas do progenitor de mesmo sexo (por exemplo, um garoto alienado de seu pai), a percepção de um estranhamento ou a dificuldade da criança em se integrar com outras crianças de seu sexo (verdadeiro, de modo especial, para os garotos) e, até mesmo, um trauma sexual. Isso significa que a ASMS não é, a princípio, um problema sexual, mas um sintoma ou parte de um problema anterior, isto é, um déficit quanto à identidade de gênero, possível de ser rastreado, em grande parte, no modo como alguém reage às situações precedentes. Alguma coisa que deveria ter acontecido no desenvolvimento da criança não aconteceu. De modo particular o desejo natural por saudáveis relacionamentos com pessoas do mesmo sexo é frustrado ou não satisfeito. Quando isto se soma a outros fatores, particularmente a um temperamento sensível, esse desejo pode tornar-se erotizado. Desse modo, não importa quão antes sua existência seja percebida, os sentimentos de ASMS ou de “ser diferente” não constituem prova de que alguém “nasça assim”. Algum conhecimento dessas coisas nos ajuda a identificar a criança que estaria “em risco” e vulnerável à ferida emocional. Por causa de a incidência de homens com atrações pelo mesmo sexo ser, provavelmente, duas vezes maior que a incidência de mulheres com ASMS, o relacionamento entre pais e filhos sempre requererá especial atenção. Dr. Joseph Nicolosi, de Researsh & Therapy of Homosexuality (Pesquisa e Terapia da Homossexualidade), fala da falta do “deleite partilhado” na infância e na adolescência dos homens com ASMS, daquele contentamento mútuo e regular presente em alguma atividade ou experiência entre o menino e o seu pai, que não é outra coisa senão parte de uma infância normal. Por exemplo, muitos homens com ASMS carecem de coordenação motora e, como resultado, eles são desprezados ou, então, são alvo de piadas feitas pelos próprios pais ou pelos garotos da vizinhança, porque eles não conseguem jogar certos esportes tão facilmente. A questão é simples, se um garoto não tem condições de jogar tão bem uma bola de futebol, existem muitas outras coisas que ele e o pai dele podem fazer e aproveitar juntos... porém, a iniciativa deve ser dos pais.

Ao mesmo tempo, a mãe que é extremamente envolvida na vida de seu filho, especialmente se ela busca o pai nos olhos do filho ou tenta tornar seu filho um esposo substituto, ela irá provavelmente atrapalhará o desenvolvimento da masculinidade do menino.

Que a Igreja Católica ensina que a atividade homossexual (por oposição à inclinação) é gravemente imoral é um fato vastamente conhecido, mas talvez não tão vastamente compreendido. Talvez o possamos explicar da seguinte forma. O filósofo da moral J. Budziszewski escreve que, como indivíduos, nós somos “abençoadamente incompletos”, o que é outra forma de dizer que somos feitos para os outros. No caso do amor conjugal ou esponsal, a união do homem e da mulher “numa só carne” começa com a complementaridade dos sexos, nomeadamente, que o homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem. Esta complementaridade é física, claro, mas é também emocional, psicológica e espiritual. Através da sua união, caracterizada pela autodoação de mentes, corações, almas e corpos, os esposos primeiro transcendem-se a si mesmos e depois o seu amor faz-se encarnado – ou transcendente – numa criança. Este é o plano da natureza para o matrimônio e o amor sexual.

Há apenas um pequeno passo entre separar a procriação do matrimônio e separar a atividade sexual do casamento, e ainda outro pequeno passo entre separar a atividade sexual do desígnio da natureza. A vasta rejeição do ensinamento da Humanae Vitae, que simplesmente exprime a ordem natural do amor sexual, explica a ambivalência de muitos católicos em relação ao ensinamento da Igreja sobre a atividade homossexual ou as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Nem os nossos genes nem o nosso ambiente nos obrigam a fazer o que quer que seja, e nisso reside uma razão para a esperança. Uma tentação frequente para a ira, por exemplo, não implica que alguém deva ceder ou condescender com esse instinto. S. Paulo assegura-nos de que “onde aumentou o pecado, superabundou a graça” (Rom 5, 20). A graça, a perseverança, o amor e a ajuda de um terapeuta com um são antropólogo cristão podem transformar os corações daqueles que padecem de atrações pelo mesmo sexo. Quando Jesus diz que “a verdade libertar-vos-á” (Jo 8,31), Ele não está apenas a comunicar um princípio teológico, mas, sobretudo, a lembrar-nos daquilo que significa ser humano. Nós precisamos de humildade para reconhecer a verdade, e precisamos da virtude da coragem para vivê-la. A liberdade, fortalecida e purificada pela graça, torna possível a cada um de nós transformar as feridas e os espinhos da vida num caminho para a alegria.

Infelizmente, muitas pessoas pensam que tudo o que a Igreja Católica oferece aos homens e mulheres com atrações pelo mesmo sexo é a palavra “não”. Tal como todas as boas mães, a Igreja diz de fato “não” ao prazer destrutivo e contrafeito do pecado, unicamente por amor aos seus filhos. Porém, esse “não” está embebido num “sim” maior, um sim a Ele que é Amor, e que Se deu a Si mesmo ao Pai e a nós na Cruz. O Senhor pediu a S. Paulo para encontrar força na sua fraqueza através do poder da Cruz. O apostolado Coragem exprime esse mesmo paradoxo redentor aos homens e mulheres com atrações pelo mesmo sexo e convida-os a confiar naquilo que vêem na vida do Mestre e do Seu apóstolo.

* O Reverendo Pe. Paul N. Check é um padre da Diocese de Bridgeport, Connecticut, e foi nomeado como futuro Diretor Executivo de Coragem, Internacional. Completou o seu bacharelato em Sagrada Teologia na Universidade Gregoriana e licenciou-se também em Sagrada Teologia no Pontifício Ateneu da Santa Cruz, ambos em Roma. O endereço da página de Coragem na internet é www.couragerc.net.

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