segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

[Esp] Preservar a pureza dos olhos



Verão e férias. Tempo de descanso e de estar com a família e com os amigos. Tempo de sol e de calor para alguns, tempo de chuva para outros. Para os que sentem atrações pelo mesmo sexo, este pode ser um tempo muito difícil. Os meios de comunicação, os outdoors, até mesmo os hábitos comuns das pessoas para combater o calor, tornam-se para aqueles verdadeira provação. Afinal, como não estimular fantasias se, aparentemente, a tentação apresenta-se intensamente em todos os lugares?

Em várias passagens dos Evangelhos, Jesus chama a atenção dos discípulos para que tivessem cuidado com o olhar. O nosso olho é, conforme diz Jesus, a "lâmpada do corpo" (Mt 6, 22). Por meio dele, nós não só vemos cores e figuras das coisas que nos cercam, como, também, pelo olhar expressamos aquilo que se passa em nosso interior. Isso é ainda mais verdadeiro quando consideramos o discurso das bem-aventuranças, quando Jesus diz: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5, 8). Assim, Nosso Senhor nos ensina que as condições de nosso olhar estão intimamente ligadas às condições da parte mais íntima de nosso ser, nosso coração.

Quando puro, nosso coração abre-se à possibilidade de enxergar Deus e a presença dele em toda a criação. Quando impuro, seja por causa dos sentimentos adúlteros e egoístas ou por causa da vaidade, o nosso olhar torna-se cego para Deus e para a ação dele no mundo. Estando obscurecido pelos desejos e pensamantos alheios ao amor e à vontade divina, o nosso coração, incapacitado de constatar a presença de Deus, não só direciona o olhar para os defeitos dos outros ou para suas formas atraentes sexualmente, como também se entristece e se desespera. "Onde está o Senhor?", pergunta-se.

De sua parte, o olhar de Deus nos acompanha em todos os momentos (Sl 138, 2s); de modo especial, o olhar de Deus é o mesmo olhar com que Jesus olhou o povo e dele se compadeceu (Mt 9, 36). O olhar de Deus supera as aparências (I Sm 16, 7) e as nossas faltas (Sl 102, 10) para enxergar nosso mais íntimo e lá Deus constata a nossa completa dependência dele, como também nossa fragilidade.

No fundo, o que nós ansiamos é a mesma alegria sentida por Maria,  que, em seu Magnificat, declara estar alegre porque o Senhor olhou para a sua pequenez e pobreza. Que maravilha esse ensinamento espiritual de Nossa Mãe e grande intercessora! Não só, como diz Jesus, tendo o coração puro, somos felizes por ver Deus, como também somos felizes por, reconhecendo quão pequenos somos, também Deus nos ver. Isso todos nós desejamos: que Deus nos olhe e veja o mais profundo de nosso ser, de nossos sentimentos e de nossos pensamentos. Desejamos que Ele nos conheça por nossas intenções e por nossa fragilidade em concretizá-las, e não pelo estado com que aparecemos aos olhos humanos. Queremos experimentar a mesma alegria de Maria.

Então, se desejamos ser olhados por Deus, também nós estamos obrigados a buscar olhar nosso próximo com olhar semelhante ao dele. Deixar de ver os homens e as mulheres como objetos de nosso prazer egoísta requer deixar de vê-los superficialmente - conforme a desordem dos afetos e desejos de nosso coração.

"Caso o teu olho direito te leve a pecar, arranca-o e lança-o para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado na geena" (Mt 5, 29).

Mas, então, o que pensar dessa mensagem aparentemente tão dura? "Acaso sou eu o responsável por tudo isso? Não é este também o momento de pensar no que os outros estão errando e que se torna tamanha provação para mim?". No momento, o que é relevante pensarmos é que, primeiro, ninguém está responsabilizando ninguém pelos desejos sexuais que possue. Ter tendências e sentir desejos espontâneos é uma coisa, alimentar as tendências e satisfazer os desejos deliberadamente é outra coisa. Neste momento, estamos pensando no que, diante da realidade em que vivemos, pode ser feito para que, os que assim desajarem, vivam a castidade, inclusive pelo olhar lançado ao próximo.

A dica é dada pelo próprio Jesus. Deve-se afastar da "visão" todo tipo de ocasião de pecado, pegar as coisas que nos tentam e lançá-las longe. No começo, especialmente para quem tem desejos pelo mesmo sexo muito intensos e arraigados, as privações são muito grandes, podendo-se extender dos meios de comunicação até certos lugares de convivência social. Contudo, isso não deve ser motivo de desesperança. Nesse tempo de privação, tem-se uma grande oportunidade de preencher o tempo com oração, meditação da Palavra de Deus e recebimento dos sacramentos - de modo especial, da Reconciliação e da Eucaristia.

Nesse tempo, devemos lançar nossos olhos de modo suplicante a Deus, pedindo que Ele nos perdoe os olhares lançados para a superficilidade e para aquilo que passa, e que também nos perdoe olhar tanto para nós mesmos e por lançar nosso olhar nas outras coisas apenas quando satisfazem nosso egoísmo. Assim, pedindo que Deus eduque o olhar  - e, consequentemente, o modo como vemos as pessoas ou nelas pensamos - devemos pedir ao Bom Deus que direcione o nosso olhar às coisas do alto, pondo nosso coração no tesouro celeste.

Peçamos também que olhemos mais para a necessidade dos irmãos que sofrem, preferindo a solução da necessidade deles à satisfação de nossos próprios desejos. Por fim, peçamos que Deus nos ajude - tal como fez com o profeta Samuel - a olhar o nosso próximo com olhar profundo, um olhar capaz de reconhecer os outros por aquilo que são: filhos e filhas de Deus.

Nesse processo, a oração do terço é muito proveitosa. Podemos colocar em intenção nosso olhar e cada uma das pessoas de nossa convivência, pedindo também a Maria, Virgem das virgens, que nos ensine a olhar com pureza nos olhos, enxergando os outros pelo o que são, como filhos e filhas de Deus.

É importante deixar claro que não se trata de ficar reprimindo os sentimentos. Como Jesus ensina aos discipulos, trata-se de afastar as ocasiões que alimentam os sentimentos desordenados e de prazer egoísta. Mais claramente, não se trata de acessar um certo site ou ir para certo lugar e ficar segurando os sentimentos que são estimulados pelas imagens lá presentes. Não. Trata-se de nem sequer entrar nesses espaços e buscar, por outro lado, os espaços onde sejam fomentados os sentimentos ordenados à vivência da castidade e ao amor de Deus.

Com o tempo, alcançando a maturidade que vem de Deus, certas vivências comuns e sadias serão mais tranquilas - como, por exemplo, ir à praia. Outras, por sua vez, por já serem essencialmente erotizadas (contrárias à castidade), serão recuzadas e evitadas com mais facilidade - uma vez tendo conseguido de Deus o dom da fortaleza e tendo aperfeiçoado o dom da sabedoria (melhor discernindo o que é e o que não é condizente com a castidade). Mas a benção maior certemente será poder vivenciar a alegria dos santos, olhando para Deus e Deus olhando para nós, vivendo a comunhão tão desejada pelo nosso Bom Deus.

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