sábado, 21 de agosto de 2010

[FH] Perdoar, como?

O nosso Senhor, Jesus, ensinou-nos que nós, como seus discípulos, devemos amar nossos irmãos a ponto de perdoar-lhes suas ofensas (quantas vezes for preciso) e amá-los de tal modo que sejamos capazes de dar as nossas vidas pela salvação deles.

Contudo, não é raro nós termos histórias muito amargas, sobre coisas que fizeram conosco, sobre palavras ofensivas que nos disseram, sobre exclusões, humilhações, agressões, entre outros. Nossa história, que deveria ser preenchida pelo amor de Deus que se manifesta em cada detalhe, acaba por ser marcada por lembranças dolorosas que despertam em nós ódio e descrença no próximo e, até mesmo, em Deus.

O que fazer para não ser consumido pela dor que esses atos de desamor causam? Primeiramente, é preciso aproximar-se de Jesus, pela leitura dos Evangelhos, pelo recebimento dos sacramentos, pela vida de oração, e, assim, pouco a pouco, descobrir nele alguém com quem podemos partilhar nossas vidas.

Jesus não é alheio a nossa dor, já que ele mesmo diz: "Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei" (Mt XI, 28) e, ainda, "Eu sou o bom pastor. O bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas... Eu conheço as minhas ovelhas e elas conhecem a mim" (Jo X,11.14). Assim, Ele é o Bom Pastor que nos protege com sua própria vida e que nos conhece profundamente, conduzindo-nos para pastos verdejantes e cuidando de nossas feridas.

Contudo, o conhecimento de Jesus a respeito da dor humana é mais profunda. Não podemos nos esquecer que o próprio Jesus foi alvo de humilhações, de agressões e de uma morte terrível. Ele foi pregado na cruz, tendo sido abandonado por boa parte de seus discípulos. Muitos o insultavam e debochavam dele. Quando ele pediu água, oferecereram-lhe vinagre. A dor no coração de Jesus foi tamanha que ele se sentiu completamente só e bradou, assim como muitos de nós também fazemos, "Pai! Pai! Por que me abandonastes ?" (Mc XV,34). Contudo, a resposta de Cristo na cruz foi "Pai, perdoa-lhes" (Lc XXIII, 34) e "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc XXIII,46).

Desse modo, Jesus nos ensina duas coisas fundamentais a respeito da dor do insulto e do abandono. Em face dos insultos, somos chamados a perdoar os que nos ofendem e a rogar ao Pai, pedindo que Ele também os perdoe. Em face da solidão, mesmo daquele extremo vazio e daquela sensação de abandono, somos chamados a confiar nossas vidas ao Pai. Se confiarmos, faremos a mesma experiência de Cristo, e assim, depois de tudo isso passar, também receberemos nova vida e seremos recebidos na glória pelo Amoroso Pai.

Nos Evangelhos, Jesus nos ensina muito sobre o perdão, como podemos ler no Evangelho segundo São Mateus V, 43-48:

Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.  

Jesus fala com clareza, dispensando comentários. Ele nos chama a viver o perdão. Mais precisamente, Jesus nos compromete a viver o perdão, pois não se trata apenas de um convite, mas de uma condição para nossa salvação (... sede perfeitos!...), tanto que rezamos no Pai-Nosso: "... perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido...". Se desejamos que Deus tenha misericórdia de nós e perdoe os nossos pecados, também nós precisamos ter misericórdia de nossos irmãos e de nossas irmãs e perdoar as ofensas que cometem contra nós.

O caminho do perdão pode ser muito doloroso. Pode ser que os que nos ofenderam recusem nosso perdão e continuem insistindo nos insultos. Nesses casos, temos que ter em mente que não é contrário ao perdão reportar o comportamento ofensivo às autoridades competentes, se isso for necessário. Pois o perdão é acompanhado pelo desejo de que o outro reconheça sua má conduta, que ele se arrependa dela e que busque corrigir seu proceder. Mas, é importante que avaliemos constantemente nossas intenções. Pois se agimos por raiva ou por vingança, por mais que estajamos no direito aos olhos humanos, estaremos longe da perfeição pedida por Jesus.

É de valor, no caso de uma ofensa muito dolorosa, que a pessoa ofendida evite a presença de quem a ofendeu e, assim, deixar que o tempo (preenchido com a oração e com os sacramentos) minimize a dor e, até, a extingua, de modo a permitir que a pessoa ofendida perdoe seu ofensor com o espírito mais livre.

Rezar pelo ofensor também é uma forma de buscar e de viver o perdão. Quando pedimos, na oração, que Deus abençoe a pessoa, concedendo-lhe a graça da conversão, da sabedoria, da paz, dentre outras graças, podemos nos colocar no lugar do outro e, assim, entendê-lo (considerando suas fraquezas, necessidades ou problemas) e, por fim, até mesmo amar esse que é também um filho de Deus.

Muitas vezes nós também temos de pedir perdão; principalmente, quando discutimos e acabamos por revidar as ofensas.  Não é raro que, diante de uma ofensa, também ofendamos. De modo especial, quando se trata de pessoas conhecidas ou com quem se tem grande intimidade (como na família), nesse caso em que conhecemos bem as pessoas com quem discutimos, podemos ser tentados a usar contra elas os pontos fracos que a convivência ou a confiança permitiram que reconhecessemos. Isso pode as destruir por dentro, tanto quanto o que elas disserem pode nos destruir. Por isso, é bom que façamos uma avaliação do mal que podemos ter causado aos outros que nos ofenderam. Trata-se de um exercicio de humildade: ser capaz de admitir para si próprio que, na sua fraqueza, pode ofender e ferir os outros. Pedir perdão também é um ato libertador.

Nesse caso, mesmo que a pessoa vire as costas, temos o coração mais tranquilo, pois reconhecemos nossa falha, nos arrependemos e nos decidimos a corrigir o erro e agir doutra maneira. O Pai Eterno não fica alheio ao coração arrependido e decidido a fazer o certo.   

Seja qual for a condição do leitor deste texto, se magoado com alguém, se precisando pedir perdão, o chamado de Jesus é o mesmo: "Sede perfeitos!" Perdoai e pedi perdão! Em busca de viver esse chamado, podemos, certamente, contar sempre com Jesus, pois, como vimos, ele nos entende em nossa dor melhor do que ninguém. Ademais, estando à direita do Pai Eterno e, mais, sendo um com Ele e o Espírito Santo, Jesus sempre nos acompanha em todos os momentos de nossa vida, assim como ele próprio diz: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo" (Mt XXVIII, 20).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por comentar nosso blog

Abaixo você tem disponível um espaço para partilhar conosco suas impressões sobre os textos do Apostolado Courage. Sinta-se à vontade para expressá-las, sempre com respeito ao próximo e desejando contribuir para o crescimento e edificação de todos.