sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

[Tst] Testemunho de Rimont - Primeira parte

"Louvai o Senhor porque Ele é Bom, porque a Sua misericórdia é eterna"

A promessa

Como todas as histórias humanas, a minha começa com o meu nascimento e isso foi há quase vinte e dois anos atrás. Eu nasci em um berço católico e fui batizado numa igreja cujo padroeiro é São José, Operário (hoje, um intercessor e grande modelo para mim). Dos fatos dessa fase da vida, há apenas um que destaco. Minha mãe me contou isso muitos anos depois de eu ter crescido e, desde então, não esqueci mais. Eu ainda estava no ventre da minha mãe e, diz ela, num dia, enquanto estava na varanda da cada dos seus pais, ela disse em oração: "Meu filho será um servo de Deus". Ouvindo essas palavras, agitei-me na barriga. Já naquele tempo meu pequeno coração ansiava imensamente entregar-se a Deus e este Bondoso Deus aceitava a oferta feita ali por minha querida mãe. 

O que vou narrar na sequência, creio que seja apenas a comprovação do seguinte ensinamento bíblico: "Deus é fiel para sempre". Assim, creio que aquele momento nunca foi esquecido por Deus e foi em atenção às palavras de minha mãe que Ele, apesar dos muitos infortúnios que aconteceriam para d'Ele me separar, manteve-se presente em minha vida e resgatou-me do fundo do abismo. Que os pais reaprendam o valor das suas preces! Uma simples oração feita pelo pai ou pela mãe em intenção dos seus filhos alcança graças que nem mil orações feitas pelos filhos em sua própria intenção poderiam alcançar. Basta ver como, no Antigo Testamento, os filhos chegavam a brigar e até tramar sórdidos planos para simplesmente ter a benção dos pais! Hoje, numa fé mais perfeita, os pais (mãe e pai) podem abençoar seus filhos todos com largueza e os filhos podem pedir quantas vezes quiserem essa benção orante ("Que Deus te abençoe"). Porém, como tudo isso é negligenciado em nossos dias! E como os pais, muitas vezes, amaldiçoam os seus filhos ao invés de abençoá-los! Quantas graças desperdiçadas! Quantas vidas arruinadas! Por meu testemunho, espero não só 
mostrar a misericórdia de Deus, mas também mostrar o poder que uma simples oração de uma mãe tem sobre a vida dos filho.

Os obstáculos entre mim e Deus

Pouco tempo depois do meu nascimento, ergueu-se o primeiro obstáculo entre mim e Deus: meus pais abandonaram a fé católica e tornaram-se espíritas. Por causa disso, não fiz catequese durante a infância e não me lembro de ter ouvido palavra sobre Deus. Nos meus primeiros anos de vida isso teve certo impacto pois foi nesta fase da vida que aconteceu o "evento" (o grande obstáculo), que me marcou profundamente e que deu início à minha luta na afetividade e sexualidade.

Cabe dizer que eu crescia como um menino tímido, apegado à minha mãe, com um pai sempre ocupado com o trabalho, um menino mentiroso e bem covarde. No prézinho, eu brincava com as outras crianças normalmente, fazia minhas bagunças, mas gostava mesmo de mexer com macinha, de desenhar e de tentar escrever ou até fingir fazê-lo. Eu gostava muitíssimo de agradar as professoras. Gostava muito de fazer tudo bem feito. Lembro-me de prestar atenção ao que os outros faziam: seu eu achasse o que faziam melhor, eu os imitava. Contudo isso me valeu uma personalidade frágil: como bom mentiroso, aprendi muito cedo que a "melhor" forma de me defender era me fazendo de vítima, alguém frágil e, aparentemente, incapaz de se defender. Má combinação essa!

Eu viva assim quando o "evento" aconteceu, o segundo e maior obstáculo entre mim e Deus. Não entrarei em detalhes aqui, pois não convém. É suficiente saber que eu estava na casa de parentes e que, em certa idade, é comum a curiosidade pelo próprio corpo e também são comuns as chamadas "brincadeiras sexuais". Em suma, um garoto pouco mais velho do que eu fez uma daquelas brincadeiras comigo. Para mim, a cena é nítida. Eu estava indiferente, para ser sincero. Não entendia o que estava acontecendo ali. Aquilo me marcou profundamente por outra razão.

Chegado em casa e trocado de roupa, minha mãe olhou-me como se tivesse adivinhado algo. De fato, tinha. Perguntou-me então se alguém tinha feito "algo" comigo. Eu neguei e isso me doeu imensamente. No fundo, eu aguardava alguma oportunidade de contar para minha mãe, mas, apesar de a ocasião ter sido oferecida, eu a recusei.

As "brincadeiras" repetiram-se noutras ocasiões e, com o tempo, elas ganharam meu gosto, mas também provocaram-me grande sofrimento. Cada vez que eu participava daquilo, eu ajuntava mais uma pedregosa mentira para eu carregar diante dos olhos afetuosos dos meus pais. Aquilo me aniquilava, especialmente quando eu aprendi a detestar a mentira. Não suportando aquilo, parei com aquelas práticas, mas a mentira continuava. 

Esse tormento com meus pais não passou sem agravantes. Lembro-me de, ainda no prézinho, ter conhecido um menino muitíssimo extravagante. Ele ia às aulas com uma mochila de tigre de pelúcia, corria e gritava como uma menina, era inquieto e não me lembro dele brincando com os outros meninos. Ele simpatizei com ele e comecei a imitá-lo. O efeito disso não demorou, os meninos começaram a caçoar de mim e eu comecei a ser violento com eles, mas violento como a Mônica, dos gibis.

Ela tinha o coelho Sansão para bater nos meninos que a insultavam por causa dos seus dentes, eu tinha a minha lancheira. Coitados dos meus pais! Eles tiveram que me comprar muitas e muitas lancheiras, pois as quebrava constantemente batendo nos meninos. Lendo isso, não se enganem meus leitores: eu me fazia de vítima... sempre! Mas ali eu era o Mônico, ou, como eu ia me convencendo, eu era uma Mônica sob aparência do Mônico.

Com o passar dos anos, estando na primeira parte do ensino fundamental, eu adquiri grande ódio pelos homens, o terceiro obstáculo. Ao meu jeito tímido, medroso, "queridinho da professora", somaram-se cada vez mais jeitos  femininos. Comecei a imitar a voz das meninas, comecei a sentar de pernas cruzadas (assim como as mulheres elegantes), gesticulava suavemente e "desmunhecando", como dizem popularmente. Os meninos estranhavam isso e caçoavam de mim. Eu batia neles, ou gritava com eles, ou corria atrás deles. Eu ficava bravo e triste constantemente. Quando não aguentava mais, eu chorava ... escondido. Não contava nada para os meus pais. Aquelas eram pedras que eu colocava no meu saco de ressentimentos, junto com as mentiras e com minha auto-piedade. As condições estavam dadas: os meninos todos eram uns bagunceiros, burros, briguentos, sem educação, grosseiros, fedidos, enfim... era maus. As meninas, pelo contrário, eram boas e eram delicadas, muito delicadas. 

Em casa, minha visão de mundo apenas ganhava mais força. Meu pai estava sempre muito ocupado com o trabalho, via-o pouco. Mas, quando o via, ele pouco falava comigo. Ele era sempre muito quieto, reservado até meio sem graça. Meu pai não me inspirava força, coragem, determinação. Nas brigas com minha mãe (como todo casal, meus pais também tinham seus momentos de desentendimento), meu pai era aquele que ficava quieto, de cabeça baixa, sentado, enquanto minha mãe gritava com ele. Ele não reagia absolutamente. Com o tempo, comecei a ter nojo do meu pai. O modo como ele comia, como se vestia, como andava, seu corpo, seus hábitos, tudo nele me desagradava. Minha mãe, pelo contrário, era para mim um modelo de força, de beleza, de perfeição. Queria ser como minha mãe era. Imitei sua letra, seu modo de comer, seus hábitos, seu modo de falar com as pessoas, tudo. 

Daquele momento em diante, eu decretei secretamente em meu coração: eu não quero ser homem, quero ser uma mulher. Quero ser perfeito.

Essa ideia cresceu perigosamente em meu coração durante muitos anos e, quanto mais o tempo passava, mais o meu corpo ia me revelando sensações que eu desconhecia antes. Próximo dos dez anos, tive minhas primeiras fantasias sexuais. Alguns  podem achar isso normal, até eu acharia, se não houvesse um estranho complicador: os filmes da televisão. Não culpo meus pais por negligência, pois sempre fui muito astuto para despistar a sua atenção. Muitas vezes quando assistiam a filmes (quaisquer uns), eu dava um jeitinho de espiar. Foi nessas minhas aventuras que eu vi as primeiras cenas de sexo da minha vida. Aquelas cenas alimentavam as minhas fantasias. Descobri com o tempo, que podia fazer o mesmo assistindo novelas. Como eu detestava os homens, eu tentava não me imaginar como um deles. Eu era o homem feminino. Vocês já podem supor o estrago que isso fez ... durante anos. Fantasias homoeróticas alimentadas desde a pré-adolescência. Não entrarei em detalhes sobre isso, mas, fundamentalmente, imaginava os galãs e todos os homens submissos a mim e à minha vontade. Nos meus sonhos, eles eram meus escravos e me serviam. 

Por isso, posso dizer que, desde a origem dessas atrações em mim, elas sempre estiveram ligadas a isto: abusar dos outros ou ser abusado por eles.   

Pais, se vocês lêem isso, uma dica eu tenho para dar: cuidem dos seus filhos e daquilo que eles assistem, mesmo os desenhos animados! É melhor vocês sacrificarem o seu momento da novela, do que lidar com os terríveis efeitos que aquelas cenas terão no imaginário dos seus filhos. Cuidado! Escutem também isto: não comprem a ideia de "sucesso profissional", pois isso custará sua vida familiar. Quanto menos estiverem em casa, mais os seus filhos estarão reféns do mundo, o mesmo mundo que, depois, por meio das várias vozes de psicólogos e pedagogos, vão culpá-los pelos problemas dos seus filhos. Valorizem a família! Não há riqueza que esse mundo possa oferecer que compense a miséria espiritual e afetiva da família.

O primeiro passo

Aos dez anos, eu estava em crise. A mentira do "evento" que eu carregava diante dos meus pais, as ofensas que eu sofria na escola, meu ódio contra os homens, minhas fantasias, minhas dúvidas... de repente, tudo se juntou e ficou tão pesado, que eu não suportei. Lembro-me que, numa tarde, estando sozinho em casa, eu fui até a sala e me pus de joelhos olhando para o céu através da janela aberta. Eu comecei a chorar desesperadamente e eu disse: "Deus, se você está aí, peço que me ajude, porque eu não aguento mais". Eu conhecia muito pouco sobre Deus e o pouco que eu sabia era graças, principalmente, à minha professora da segunda série. Ela nos falava de Jesus e, com ela, eu aprendi a primeira música sobre Deus.

Papaizinho amigo nosso, Pai Nosso que estais no Céu. Ficai sempre aqui conosco, amigo bom e fiel...

Eu comecei a rezar todos os dias. Basicamente, eu conversava com Deus. Contava sobre o meu dia e, se eu estava chateado, eu chorava na presença d'Ele e pedia que ficasse comigo e que me ajudasse. A misericórdia de Deus começou a me alcançar ali, porém o inimigo de Deus tinha a seu favor minha ignorância e muitos obstáculos que eu tinha colocado entre mim e o meu Senhor. Não tardou que ele tentasse estragar minha relação com Deus.

Anos de loucura

Como contei, meus pais eram espíritas. Lembro-me que eu os acompanhava na sua ida aos centros, recebia o que chamam de passe, mas, durante o resto do tempo, eu ficava com as crianças brincando. Depois dos dez anos, minha relação com Deus começa a reflorescer e, estranhamente, comecei a me considerar uma criança espiritualizada. Para quem sonhava com perfeição (uma perfeição distorcida cabe dizer: aquela uma que é vaidosa e que, por isso, deseja ser melhor que os outros), ter uma relação com Deus (achando que os outros não tinham) significava uma espécie de promoção. Para piorar, eu não tinha catequese, não tinha referências seguras sobre religião e, por isso, comecei a fazer meu coquetel religioso: uma mistura instável de espiritismo, bruxaria, cristianismo, desenhos animados e tudo o que mais que aparecesse. 

Quem me conhecesse nessa época me teria por doido, facilmente. Sob a face do rapaz educado, comportado e estudioso, havia alguém preguiçoso, vaidoso e cheio de rancor: uma criança mimada. Ainda conversava com Deus, mas minha vida seguia um roteiro estranhíssimo. 

Na segunda metade do ensino fundamental, eu ainda era razão de deboche dos rapazes e das meninas. Aliás, desse período, ficaram as piores memórias de humilhação. 

Por exemplo, um dia eu estava saindo da aula de Educação Física. Eu e meus colegas saíamos da quadra em direção da sala onde aconteceria a próxima aula. Aconteceu que um colega xingou uma menina e esta, não sei por que razão, achou que eu a tinha ofendido. Seja o que for que tenha acontecido com ela, ela começou a puxar um coro que gritava: "Viado!". Ela e todos os outros foram me xingando da porta da quadra até a porta da sala (que ficava do outro lado da escola), entrei na sala com uma bolha altamente inflamável presa na garganta. Mas eu segurei. Contudo, no intervalo, conversando com colegas e zoando com eles (queria me distrair), acabei (sem querer) derrubando um colega (que eu considerava um grande amigo) e ele, em troca, me xingou: "Bicha!". Para mim, foi a gota d'água. Eu suportava ouvir aquilo de pessoas que eu estava acostumado a desprezar, contudo não podia ouvir aquilo dum amigo. Comecei a chorar descontroladamente, andava e gritava como um doido, como um histérico, afastava todos de mim, meus sentimentos agitavam-se dentro de mim como se formassem uma tempestade e estava cego por causa das lágrimas. É a pior lembrança que tenho sobre isso. 

Eu reagia às agressões da maneira mais razoável: rogava pragas nos agressores. Lembro-me, sem hoje conseguir conter meus risos, que, certa vez, diante da provocação de um menino, eu o encarei longamente, espremendo bem os olhos. Eu estava "jogando um feitiço" nele. Queria que ele sofresse. Eu parecia um doido, mesmo, e sei que eu estava enlouquecendo. A febre de Harry Potter chegou até mim nesses anos e você, leitor, já pode imaginar o estrago que isso fez. Eu sonhava com mundos paralelos, com feitiços, com poder. Isso me valeu nos meus anos de maturidade a seguinte reflexão: as pessoas gostam de bruxaria porque é seu desejo mais profundo fazer com que tudo ceda diante da vontade delas. Elas querem satisfazer seus desejos e querem controlar o mundo para que se comporte de modo a satisfazê-los. Era isso, pelo menos, o que eu queria.

O segundo passo, a grande Misericórdia de Deus em minha vida

Creio que Deus não ficou alheio ao que me acontecia e, desde que os obstáculos foram surgindo em minha vida para d'Ele me afastar, Ele já desenhava um plano de resgate para me tirar do fundo do abismo. 

Naqueles anos de loucura, eu falava com Deus, mas ainda estava cego. Meu coração estava cheio de rancor, cheio de dúvidas, cheio de fantasias e de mentiras. Aconteceu que minha avó paterna morreu, meu pai estava com problemas no serviço e minha mãe estava desorientada, apelando para horóscopo, bruxaria, misticismo, budismo, esoterismo e tudo o que aparecesse e que a ajudasse a resolver os problemas de casa. Por causa da morte da minha avó, minhas tias paternas quiseram reunir a família para que todos orassem e recebessem oração duma senhora, que era conhecida por sua profunda devoção à Virgem Maria e que, diziam, tinha revelações e, com base nelas, rezava pela cura das pessoas. Havia muitos testemunhos que corroboravam isso. Para meus pais, aquela era a última tentativa de sair daquela vida desestruturada. Eu ainda era indiferente.

Foi uma experiência muito marcante. A mulher era muito simples e sua oração também era. Ela rezava quase em silêncio e, de tempos em tempos, conversava com meus pais, revelando o que Deus tinha inspirado em seu coração e, ao mesmo tempo, ouvindo a história dos meus pais. Isso os fez rever muitas coisas de suas vidas. Meu pai mesmo curou-se de muitas  feridas suas. Minha mãe também. O melhor efeito disso é que eles largaram definitivamente o espiritismo, fizeram sua confissão com um padre de figura humilde e impressionante e, assim, voltaram radicalmente para a fé católica.  
     
No começo, eu estava relutante. Tinha uma imagem terrível dos católicos. Achava-os todos uns mentirosos, tal como toda a mídia e todos os não-católicos costumam pintar. Porém, aconteceu que uma colega da escola, que se tornaria uma grande amiga minha, convidou-me um dia para ir a um grupo de oração, do qual participavam jovens. Eu não aceitei no começo, mas, certo dia, aceitei e fui ver como era. 

Eu já tinha catorze anos e eu começava a questionar minhas loucuras. Deixei de rogar pragas nos outros, deixei de desejar poder, deixei de acreditar naquela maluquice toda de antes. Tinha me apegado mais a Deus, conversava com Ele com mais frequência e, de alguma maneira, Deus me correspondia, semeando em meu coração algumas desejos, como o de perdoar os que me ofendiam, de viver de acordo com a verdade e de cultivar uma relação pessoal e verdadeira com Ele. Esses desejos tomaram conta do meu coração nessa idade e eu estava à procura de alguém que compartilhasse desses desejos. 

Imagine qual não foi minha grande alegria quando, ao entrar naquele grupo de oração, ver outros jovens cantando, rezando e alegrando-se na presença de Deus. Eles tinham o mesmo desejo que eu tinha: estar com Deus e ser mais íntimo d'Ele. Aquilo pesou em minha decisão: "Eu quero ser católico". Desde aquele momento até hoje, depois de quase oito anos, essa decisão está firme. Esse foi o segundo passo que Deus deu em minha direção, para me resgatar e para cumprir o pedido de minha mãe, que eu fosse servo d'Ele. Mas aquilo era apenas o começo da história entre eu, pobre pecador, e o meu Senhor, o meu Salvador.    

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