sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

[Esp] Quaresma: tempo de oração, jejum e esmola

Muitas vezes, nós que lutamos pela castidade cristã, combatendo os desejos pelo mesmo sexo, nos desesperamos durante a batalha. Não é raro que as dificuldades se acumulem e que, abatidos pelas exigências deste mundo, julguemos que a castidade é uma fantasia ou, no limite, uma meta alta de mais para ser alcançada. Contudo, no tempo da Quaresma, nós recebemos um grande presente de Deus: temos a oportunidade de recobrar as nossas forças e redescobrir a grandeza da Misericórdia de Deus. 


Palavras do Santo Padre Bento XVI

Para esta Quaresma, o Santo Padre Bento XVI nos convida a meditar sobre o amor e nos convida à praticá-lo fazendo o bem ao nosso próximo. É muito comum que, hoje, as pessoas se escusem de ajudar os outros em nome da "liberdade individual". Pensam: "Cada um vive do jeito que quiser e eu não tenho nada a ver com a vida dos outros". Porém, por trás deste discurso de respeito à liberdade do outro, está um profundo egoísmo que não se importa com o bem do próximo. Sobre isso, nos diz o Santo Padre: 


"[...] o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão" (Discurso de Bento XVI, 3 de novembro de 2011, divulgado pela Agência de notícias Ecclesia aqui)

Tempo de recolhimento

A Quaresma é o tempo litúrgico no qual nós, cristãos, nos recolhemos. É um tempo propício para nos retirarmos, ou diminuirmos o ritmo de nossas atividades, para, no silêncio, meditarmos sobre como nós vivemos. Em geral, corremos tanto com as tarefas da vida cotidiana que, quando nos damos conta, estamos enfraquecidos, abatidos, desorientados! No recolhimento, no silêncio cotidiano, podemos refletir sobre nosso apego a este mundo que passa. 

Jesus, nosso Senhor e Salvador, nos ensina que:
"Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?..." (Mt 16, 24-26) 
O ensinamento do Bom Deus é simples: se nós quisermos salvas as nossas vidas, não podemos pretender segurá-las em nossas mãos, como se pudéssemos controlar a quantidade ou a qualidade do tempo que vivemos. Isso não está em nossas mãos. Se fizermos isso, faremos como aquelas crianças que, ao verem belas flores, arrancam-nas do solo e as seguram entre os dedos, julgando que essa atitude conservará a beleza delas intacta. Todavia, o que acontece é que as flores murcham muito facilmente. Elas passam, assim como tudo neste mundo. Neste mundo, tudo tem um começo e tudo tem um fim. 

De nossa parte, é muito comum nos apegarmos ao dinheiro, ao sucesso no trabalho, ao sucesso pessoal (uma promessa muito presente em nosso tempo), à comida, às roupas, à saúde, às aparências... mas especialmente, ao corpo. 

Valorizamos muito nossa aparência e, tão logo vemos alguém do mesmo sexo, valorizamos também o seu físico. Mas isso tudo passa e não atende o maior desejo do nosso coração: a vida em abundância que só é encontrada em Deus. Aprendemos desde cedo que todo corpo humano nasce, cresce e morre. Quando morre, apodrece. Nascemos do pó e ao pó nós voltamos. Porém, permanece o espírito e nossos pecados e nossos anseios. 

Neste momento, pesando tudo isso, nós devemos nos perguntar: "Vale a pena satisfazer todos os meus desejos se eles me afastam d'Aquele que é o objeto do meu maior desejo e da minha maior necessidade? Compensa trocar um amor divino, eterno e pleno de alegria, por um desejo humano, fugaz e que só me deixará marcas de angústia e de tristeza?".   

No fundo, quando nos apegamos ao mundo e a esta vida mundana, nós nos tornamos covardes. Como bem disse uma vez um escritor cristão chamado Chesterton, quando nos apegamos às nossas vidas, fazemos como os tripulantes dum navio que está naufragando e que se recusam a cair na água e nadar seguindo o Mestre em busca de terra firme. Eles estão tão apegados à vida do navio, que temem o enfrentamento das tempestades e das feras marinhas. Contudo, se ficarem no navio, morrerão afogados. Apegando-se à vida, perdem-na. Contudo, os que realmente querem salvar suas vidas, lançam-se no mar e enfrentam o sofrimento que for, seguindo Aquele que os conduz à terra firme. Esses, desapegando-se da vida, ganham-na.  
"Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam." (Mt 6, 19-20)
Meditando essas coisas, buscamos pelos atos de penitência nos arrepender de nossos pecados e fazer firmes propósitos de perseverança. 

Tempo de oração 

O recolhimento é feito em oração e muitos julgam que a oração é um fardo. Tão logo pensam em orar, já sentem o cansaço abater-se, o desânimo diminuir a disposição, a inteligência fica obscurecida e a memória falha em relembrar que a oração é mais que um ato de falar e não é uma obrigação. 

A oração é uma necessidade. 

Como nos ensina a Santa Igreja (Compêndio do Catecismo 2566-2567), "a oração é a elevação da alma a Deus ou o pedido a Deus de bens conformes à sua vontade [à vontade de Deus]". Uma das expressões mais profundas para exprimir a oração é esta que nos deixou Santo Agostinho de Hipona, que a oração é o encontro da sede do homem por Deus com a sede de Deus pelo homem. Santa Teresa do Menino Jesus também dizia: "Para mim a oração é um impulso do coração, um simples olhar para o Céu, um grito de gratidão e amor no meio da provação como no meio da alegria".

Sobre oração, temos ainda que considerar que somos mendigos de Deus. Nós, como pecadores e como criaturas, não temos nada a oferecer a Deus, senão um coração contrito e desejoso de viver com Ele. Há os que não entendem isso e julgam, então, que a oração é desnecessária. "Se nada posso oferecer a Deus e se Ele sabe minhas dificuldades, por que devo orar?", pensam. Mas não veem que a oração é o respirar da alma cujo ar é Deus. Não temos que ficar presos a máscaras. Deus não quer que nos apresentemos como alguém que não somos, mas não quer que sejamos arrogantes a ponto de julgarmos que não precisamos d'Ele. Pois precisamos. "Pode alguém acrescentar um dia à sua vida?", nos pergunta Jesus. 

Tempo de jejum

Ademais, é um tempo de jejum.  O jejum é a abstenção de alimentos, em especial de carne. É um ato de religião (como a esmola e a oração), por isso um ato que nos move à união com Deus e, assim, um ato que é direcionado ao "Pai que vê no segredo", em contraste com o desejo "de ser visto pelos homens" (Catecismo 1969). Mais precisamente, a abstenção de alimento material nos permite prestar atenção à fome humana mais profunda, de natureza espiritual, e, por isso, o jejum nos leva a buscar o alimento em Jesus, o Verbo encarnado: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4,4).

A abstenção de carne tem um sentido profundo, pois, dentre os alimentos, a carne é aquele alimento que mais nutre e, também, aquele que é obtido da forma mais elevada de vida entre os seres materiais (os animais). Contudo, quando comemos carne, nos alimentamos com a vida deste mundo, que, apesar de ser boa e de nos nutrir, está sujeita à morte e à corrupção. Assim, quando nos abstemos de comer carne, nos abstemos de nutrir nosso ser com a vida deste mundo que passa, para nutri-lo com a vida de Deus, que é eterna.


“Boa coisa é a oração acompanhada de jejum... Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença de Deus”. (Tb. 12,8a; 15)


Por isso, orantes, nós vamos a Jesus assim como foi São Pedro, dizendo “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6, 68). Nesse sentido, o jejum nos permite descobrir na Palavra de Deus verdadeiro alimento. Nós nos alimentamos ao ouvi-la, lê-la, meditá-la e vivê-la. Nós ainda nos alimentamos dela quando recebemos Jesus, a Palavra de Deus encarnada, na Eucaristia. Ali se faz presente verdadeira comida e verdadeira bebida, como o próprio Jesus disse: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos”. (Jo 6, 53).  


Ao nos permitir encontrar em Deus a nossa vida, o jejum nos permite também reconhecer que, recusando-O com nosso pecado, somos lançados à morte. Nesse sentido, o jejum nos favorece a reconhecer nossa condição de pecadores e a ter um coração contrito. Leva-nos, assim, ao arrependimento de nossos pecados e ao compromisso em nos moldar à vontade de Deus.


Nesse sentido, o jejum também nos auxilia a fazer penitência. Sem a satisfação de nossa fome por carne e pelos alimentos deste mundo, damo-nos conta de que não temos vida por nós mesmos, mas que, deixados a nós mesmos, somos terra seca e pó. Humilhamo-nos diante d’Aquele que é a Vida e rogamos para que perdoe a dureza de nosso coração e para que nos irrigue com a Água Viva de seu Santo Espírito. Tal como a samaritana do evangelho segundo São João, pedimos a Jesus: “Senhor, dá-me desta água para eu já não ter sede!”.


Como ensina a Santa Igreja (Catecismo 1430) “como já nos profetas, o apelo de Jesus à conversão e à penitência não visa em primeiro lugar às obras exteriores, ‘ o saco e a cinza’, os jejuns e as mortificações, mas à conversão do coração, à penitência interior. Sem ela, as obras de penitência continuam estéreis e enganadoras: a conversão interior, ao contrário, impele a expressar essa atitude por sinais visíveis, gestos e obras de penitência”.

O jejum ainda nos permite nos aproximar mais dos sentimentos de Cristo em Sua dolorosa Paixão. Sem ter comido nem bebido nada, com o corpo todo ferido e cheio de dores, Jesus clama da Cruz: “Tenho sede”. Essa sede não é sede de água, nem sua fome é fome de alimentos. Como diz Santa Brígida, Jesus tem sede de salvar todo o gênero humano. Como diz a Santa Igreja, Ele tem sede de que tenhamos sede d’Ele.


Assim, o jejum nos ajuda a trabalhar em nós a humildade, lembrando-nos sempre de nossa condição de criaturas e pecadores. Reconhecendo nossa pequenez, nos lembramos que Deus é a nossa vida. Fazendo isso, recusamos a antiga tentação do demônio de ganhar a vida fora de Deus, comendo um fruto que, pela desobediência e recusa de Deus, nos leva à morte. Mas, os efeitos do jejum são ainda mais profundos. Pois, pela desobediência duma vaidade gulosa, nós quisemos ser senhores e acabamos sendo escravos dos nossos desejos. Porém, pela obediência do jejum, nós recusamos a satisfação de nossos desejos para estar à disposição da vontade de Deus. Além de nos alimentarmos com a Vida de Deus, a obediência do jejum fortalece nossa vontade e nos permite recusar com mais facilidade o pecado em situações de tentação.



Ninguém preside com segurança senão aquele que voluntariamente se sujeita.

Ninguém manda com segurança senão aquele que aprendeu bem a obedecer.

(Thomas Kempis. Imitação de Cristo. Amor ao silêncio. § 4 )

Por que o jejum é uma obediência? Porque a Santa Igreja, a quem Jesus confiou Sua Palavra, as Chaves, e a Missão de anunciar a vinda do Reino de Deus, determinou que o jejum seja observado nas seguintes circunstâncias:



(1)   Tempos de ascese e de penitência que nos preparam para festas litúrgicas;

(2)   Adquirir o domínio sobre nossos instintos e a liberdade de coração.
 

Segundo o Código de Direito Canônico (Codex Iuris Canonici, CIC):


Cânon 919: “Quem receber a santíssima Eucaristia se absterá, durante ao menos uma hora antes da santa comunhão, de ingerir qualquer alimento ou bebida, exceto somente água e medicamentos”.

Cânon 1249: “Todos os fiéis de Cristo estão obrigados, pela lei divina, a fazer penitência cada um a seu modo, mas, para que todos estejam unidos numa observância comum da penitência, são prescritos os dias de penitência durante os quais os fiéis se aplicarão de modo especial à oração, praticarão obras de piedade e de caridade, renunciarão a si mesmos cumprindo mais fielmente suas obrigações, e, sobretudo, observando o jejum e a abstinência segundo os cânons que se seguem”


Cânon 1250: “Os dias e tempos de penitência para toda a Igreja são todas as sextas-feiras do ano e o tempo da Quaresma”.


Cânon 1251: “A abstinência de carne e de outro alimento, segundo as disposições da Conferência Episcopal, será observada toda sexta-feira do ano, a menos que nela caia um dos dias marcados como solenidade. A abstinência e o jejum serão observados na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”.


Cânon 1252: “Estão obrigados pela lei da abstinência os fiéis que têm catorze anos completos e estão obrigados à lei do jejum todos os fiéis adultos até a idade de sessenta anos começados. Os pastores das almas e os pais devem, porém, se certificar que sejam formados para o verdadeiro sentido da penitência os jovens dispensados da lei do jejum e da abstinência em razão de sua idade”.    



Sobre a importância do jejum, fala também São João Clímaco (um eremita do século VII), em Escada para o Paraíso, "Um bom fundamento é formado por três bases e por três colunas: inocência, jejum e castidade. Todos os recém-nascidos em Cristo (cf. 1 Cor 3, 1) comecem a partir destas coisas, a exemplo daqueles que são recém-nascidos fisicamente" (1, 20; 636). [Sobre isso veja aqui]

Tempo de esmola

A esmola é mais do que dar moedas ou pães para alguém, ela é um ato de caridade, por isso ela implica um ato de renúncia de si para o bem e salvação do outro.  Assim, sobre a esmola, é preciso considerar sua intenção, sua ação e os bens que visa.

A intenção de quem dá esmola é a de fazer bem àquele irmão que está sofrendo na adversidade. Existe uma real preocupação com o outro, o que já exclui daqui aquelas ações "solidárias" que são feitas apenas para desencargo de consciência ou feitas sem atenção ou sem preocupação com o outro.

A ação de quem dá esmola é feita longe dos olhos dos outros e a própria pessoa que dá a esmola o faz de modo a ela mesma não vangloriar-se. Isso porque o próprio Jesus nos ordenou o seguinte "Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á." (Mt 6, 3-4).

Os bens visados por quem dá esmola são o bem material e o bem espiritual da pessoa ajudada. Como deseja o bem do outro, renuncia o desejo de um bem para si. Além disso, quando dá algo para alguém necessitado, não dá apenas o bem necessitado naquele momento (que geralmente é um bem material), mas dá também o bem necessitado sempre, que é o bem do espírito, que é a Palavra de Deus. Afinal de contas, do que adiantaria ajudarmos o outro com os bens deste mundo que passam sem ajudá-lo a alcançar os bens do Reino vindouro que são para sempre?

Por isso, a esmola é propícia para nos ajudar a renunciarmos a nós mesmos e vivermos o amor de Deus.

Considerando o que foi dito até aqui, é possível ver como a Quaresma é um tempo favorável para nós, pois ela nos convida a avaliar nossas vidas e oferece os recursos adequados para o enfrentamento das nossas lutas cotidianas. No fundo, a oração, o jejum e a esmola nos ajudam a entender que a luta mais interior que temos não é contra as atrações pelo mesmo sexo, mas é contra o nosso apego a este mundo e a nós mesmos.  

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