sexta-feira, 2 de setembro de 2011

[Tst] Testemunho de Rimont - Segunda parte

Continuação do testemunho de Rimont. Ver começo aqui.


O amor de Deus

A participação na vida da Santa Igreja, abriu diante de mim um mundo novo.

Meus pais começaram, cada um, a trabalhar por sua conversão e isso refletiu em casa mudanças bem sensíveis. Meu pai, que antes era tão distante e resignado, buscava estar presente e com ânimo mais combatente e esperançoso. Minha mãe, que antes vivia brava e angustiada, buscava a paz para sua alma e esforçava-se, então, por manter a confiança em Deus e ser mais mansa. Isso, por si só, já me animava muito.

Na Igreja, por sua vez, eu comecei a fazer catequese para a Primeira Comunhão, participava da Santa Missa aos domingos e ia ao grupo de oração aos sábados e segundas-feiras. Como eu ignorava tudo isso quando era mais novo, muita coisa me fascinava: a Liturgia, os Sacramentos, as Sagradas Escrituras e a oração.  

Sobre oração, era contada uma novidade muito importante para mim: Deus existe e está presente em nossas vidas. Para mim era novo alguém dizer que, pela oração, eu podia me encontrar com Deus. Eu tinha certeza de que eu podia falar com Deus e que Ele me escutava. Sabia disso desde os dez anos. Porém, não sabia que Deus podia falar comigo, na minha consciência, em meu coração, por meio das Sagradas Escrituras e por meio das coisas cotidianas. Deus pode falar no Seu aparente silêncio.

Aquilo me fez abandonar uma prática nada saudável. Nos anos de loucura, habituei-me a criar pessoas imaginárias e isso me levou ao hábito de forjar vozes e de querer ouvir espíritos ou de ouvir sons etérios e sobrenaturais. Essa prática revelou-se nociva, quando, diante das frustrações, essas "vozes" passaram a repetir em minha cabeça que eu era mal e que ninguém me amaria por isso.

Na nova vida, dentro da fé católica, aprendi que Deus é simples e fala conosco na simplicidade. Eu já não precisava forçar nada. Quando rezava, Deus falava na minha consciência pela retidão da verdade; no meu coração, inspirando-me boas intenções; no cotidiano, pela ordem que Ele inscreveu nas coisas por Ele criadas. Como eu comecei a participar dum grupo que faz parte da Renovação Carismática Católica, também pude vivenciar a oração em que Deus inspira palavras para a edificação minha e dos outros.

Uma vez, por exemplo, fui ao grupo e estava profundamente angustiado por sentir atrações pelo mesmo sexo e por achar que eu não tinha saída daquela condição. Fiquei espantado quando, pouco tempo depois, ouvi uma pessoa dizer em oração: "Há alguém aqui que está angustiado por achar que é homossexual. O Senhor diz que você não deve perder a esperança...". Naquele momento Deus me dizia para ter esperança e para não desistir. Isso repercutiu muito em mim, pois vi que o Bom Deus não me abandona e que Ele sempre está ciente do que acontece comigo.

Então descobri a providência de Deus. A providência de Deus foi o que mais me chamou a atenção em tudo o que eu aprendia nesse mundo novo. Quando tudo estava aparentemente perdido, pronto para dar errado, bastava a oração e a confiança n'Ele para ver como, do lugar mais inesperado, vinha a ajuda necessária.

Além disso, no convívio com os meus irmãos na fé, pude ouvir seus testemunhos. Alguns tinham saído do mundo das drogas e da criminalidade, outros tiveram a saúde restabelecida. Todos tiveram suas vidas profundamente transformadas.

Porém, diante de tantas coisas que relatei até agora, houve apenas um acontecimento decisivo, apenas um evento que foi responsável por dividir minha história em antes e depois: conhecer Jesus e, por conseguinte, conhecer o amor de Deus.

Esse acontecimento me marcou por uma razão muito simples. Apesar de crer em Deus, eu tinha grande dificuldade em reconhecer Jesus como Senhor. Meu coração ainda estava muito fechado. Estava abraçando a fé cristã, mas, ao mesmo tempo, estava relutante em aceitar o Filho de Deus. Dessa maneira, quando eu rezava, eu me dirigia ao Pai, ao Grande Amigo, mas tinha muito receio de me dirigir a Jesus. Paralelo a isso, eu ainda estava profundamente angustiado por guardar segredos dos meus pais. Mesmo nessa idade, de catorze anos, causava-me muito sofrimento as lembranças da infância e sofria mais na medida em que mais eu as acobertava dos meus queridos pai e mãe. Havia carregado tudo aquilo em segredo havia quase dez anos e isso me sufocava. Naqueles últimos anos, em que fui muito tribulado com ideias distorcidas de religião, cheguei a acreditar que eu era incapaz de amar e de ser amado. Eu era um mentiroso, alguém que só tinha rancor e ódio no coração, alguém que não merecia amor nem a amizade de ninguém. Sofria por não ter amigos e por me achar indigno de tê-los. 

Foi nesse momento que fui convidado a participar de um retiro que deu início a uma mudança radical em minha vida. 

O terceiro passo de Deus em direção a mim

Muitos conhecem a maneira como são organizados os retiros da Renovação Carismática Católica e estou ciente da avaliação que alguns fazem deles. Não me deterei nisso. O que importa aqui é simplesmente isto: eu fui em busca de Deus. Creio que Deus, ciente da minha sede, cuidou de saciá-la e, fazendo isso, quis conquistar minha alma. Por isso, cada palestra que eu ouvia, cada música, cada gesto dos irmãos repercutia apenas um nome, o de Jesus. Não pude evitá-Lo. Assim que eu O confrontei e já não pude mais resistir, apenas me rendi a este Rei e, no mesmo instante, apenas uma certeza inundava a minha alma: "Eu sou amado por Jesus... Deus me ama". Naquele momento, de uma só vez, eu aceitava Jesus, como Filho de Deus, como Deus e como meu Senhor e meu Salvador, e Deus saciava minha sede por Ele, amando-me por meio do Seu Filho.

Como diz São Tomás de Aquino, uma só gota do sangue de Jesus era suficiente para pagar meus pecados. Contudo, Jesus sacrificou toda Sua Santa Carne e todo Seu precioso Sangue para pagá-los. Como diz Santa Brígida:


"Do Vosso lado aberto pela lança de um dos soldados, jorraram Sangue e água, de tal modo que não retivestes uma gota sequer. E, enfim, como um ramalhete de mirra elevado na Cruz, Vossa Carne delicada se aniquilou, feneceu o humor de Vossas entranhas e secou a medula dos Vossos ossos." (As Quinze Orações de Santa Brígida)


Que amor é esse? Como pode alguém doar o que lhe é mais caro, sem reservas, a alguém que tantas vezes O ignorou e por tantas ações O ofendeu? As pessoas muitas vezes haviam me humilhado, me deixado de lado, abusado de mim... O que eu podia oferecer a Jesus? Só um coração duro, a raiva, as mentiras, os pecados... mas, ainda assim, Ele quis estar comigo. Pelos meus pecados gravíssimos, a graça do Espírito Santo já não habitava em mim e sei que, por isso, eu merecia o inferno. Porém, mesmo estando eu no fundo do abismo, o conhecimento do sacrifício de Jesus na Cruz só me certificava de que Deus me ama, Ele me resgata e quer que eu viva, com Ele, para sempre.

Enfim, liberdade!

Depois daquele retiro, cheguei em casa, tomei coragem e contei tudo o que eu sentia e sofria para meus pais. Contei tudo. Eu tinha catorze anos e durante quase dez havia trazido toda aquela dor no meu coração, tentando enfrentá-la sozinho, com medo de ser mais rejeitado. Eu temia que meus pais se zangassem e que não mais falassem comigo. Porém, a reação deles me surpreendeu.

Eles sentaram comigo e conversaram longamente sobre sexualidade. Contaram como eles viveram suas sexualidades durante a adolescência, como se conheceram e como foi todo o namoro até se casarem. Os dois foram unânimes em defender a castidade, que viveram quando solteiros pela abstenção e que vivem hoje pela fidelidade conjugal, e disseram que eu não deveria me desesperar com os conflitos no âmbito da sexualidade e que problemas são parte do amadurecimento.


Depois daquela conversa, eu senti como se um grande peso tivesse sido tirado das minhas costas. Eu estava livre. Por várias vezes, senti como se algo na minha consciência me torturasse e me chantagiasse com meus segredos. Depois de conversar com meus pais, eu já não era mais refém.


Meus pais me ajudaram muito. Eles conversaram, compraram livros e custearam ajuda psicológica para mim.


O primeiro livro que li sobre homossexualidade foi "A luta pela normalidade sexual", de Gerard Aardweg (sobre esse livro, há um comentário de Dom Estevão Bettencourt, muito elucidativo, presente o Pergunte e Responderemos, n. 467, abril de 2001, a partir da página 177. Disponibilizado pelo site Veritatis Splendor: aqui). A cada página, eu via a minha própria história nas letras escritas por Aardweg. Ele havia tratado de homens com atrações pelo mesmo sexo durante anos e havia notado algo em comum entre esses homens: seu complexo de inferioridade e sua tendência a fazer-se vítima, achando que o resto do mundo está em débito com eles. Com base nisso, Aardweg propunha algo que calou fundo em mim: a auto-ironia.

Durante muito tempo eu me fiz de vítima. De fato, achava que todos estavam em débito comigo. Ignorava que eu mesmo já tinha feito coisas odiosas com os outros. Mas via apenas a minha dor e achava que todos os outros estavam em comum acordo de me fazer sofrer. Ora, naquele livro estava alguém me chamando a atenção para o fato de que eu não sou a pobre vítima. Que, apesar do que eu sofri, eu também havia causado muito sofrimento aos outros. Na verdade, não lembrava se tinha feito bem a alguém. Eu só pensava em mim mesmo. Diante disso, qual era o primeiro passo? Acabar com aquele vitimismo, ironizando-me. Dali para frente, todas as vezes que eu me sentia impelido a começar as cenas de auto-piedade, ria de mim mesmo e da situação. Ninguém me elogiava? "Nossa, pobre criatura! Ninguém reconheceu a augusta beleza e a magistral sapiência de Sua Magnanimidade! Que crime horrível foi cometido contra a humanidade! É verdade que Sua Alteza nem prestou atenção aos outros. Mas, não. Para você, os Céus, a terra, os mares, as constelações e as gentes todas têm que parar, prestar atenção e ainda aplaudir". Com brincadeiras como essa, que eu fazia comigo mesmo, eu acabava me dando conta de muitas verdades e o vitimismo dava lugar a uma postura mais madura em relação ao mundo.

Antes parecia tudo fechado diante de mim. Uma bolha cinza de tristeza e pessimismo me isolava de tudo. Fora das suas membranas, não havia rumor de possibilidades. Porém, os gracejos da auto-ironia junto com a graça de Deus estouraram minha prisão. Pela primeira vez, vi adiante chances. Mais à frente, o Sol da Esperança iluminava meus estudos, minha vocação, minha afetividade, minha família. Pela primeira vez, meus olhos abriam e eu não estava chorando, dormia e não me sentia só.    

Certo é que já havia acabado o tempo de viver no cárcere das mentiras, do coitadismo, do eu e as minhas misérias. Deus havia estendido Sua mão para mim e me tirou de um buraco cavado há muitos anos. Dali para frente, haveria sem dúvida desafios, precisaria sair de outros buracos, apareceriam obstáculos, mas aprenderia muito e, com a graça de Deus, os superaria todos - cada um de uma vez. Todavia, mesmo que a jornada adiante se revelasse a cada dia difícil, eu já não estava mais fugindo do meu passado e não estava mais me escondendo de mim mesmo ou da minha família.

Por todo relatado, creio que Deus me ama e sei que O amo. Creio que Jesus Cristo me fez livre para sempre e, sendo livre, posso e quero ir até Ele. Agora, mais do que nunca, estou persuadido de que o amor de Deus é real e é para sempre. Por isso creio que você, que lê minha história, também é amado, também é amada, por Ele.

Se você está no cárcere, saiba que Jesus está à porta. E Ele bate.

2 comentários:

  1. Transmitir que Deus te ama sobre todas as coisas é muito importante, por ser assim nos sentimos muito indiferentes e acabamos machucados

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  2. Transmitir que Deus te ama sobre todas as coisas é muito importante, por ser assim nos sentimos muito indiferentes e acabamos machucados

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