sexta-feira, 23 de setembro de 2011

[Tst] Um conto demasiado real

Em atenção à nossa irmã Erminea

À beira da cama, prestes a dormir, ajoelhou-se e esforçou-se para rezar. A princípio, sua mente estava como um redemoinho. As imagens do dia - pessoas, conversas, desejos... ah, os desejos pelos do mesmo sexo... a recusa de satisfazê-los para viver a castidade, mas a tristeza da solidão - repassavam diante de si, sem que se fixassem. Aconteceu de ainda se lembrar de fatos passados. Eram muito dolorosos e de boa parte ninguém tinha conhecimento. Em certo momento, sentiu o aperto na garganta - seu sofrimento estava tentando escorrer pelos olhos. Mas, segurou. 

Não sabe quanto tempo ficou ali, apenas rememorando tudo aquilo. Então, respirou e tentou recobrar o controle dos seus pensamentos, apenas o bastante para fazer uma oração:

- Senhor, se você está aí, peço que me ajude. Não aguento mais. - dito isso, deitou-se.  

Os olhos ficaram abertos ainda alguns instantes. No fundo, esperava uma resposta imediata. Na melhor das vias, Deus viria como uma visão e falaria com voz grave e paterna aquilo que, ali suplicante, queria ouvir. Mas, se não fosse assim, Deus poderia enviar um sinal qualquer. Pelo menos um sentimento de paz. Todavia, havia apenas silêncio. Pesando o sono sobre os olhos, dormiu.

Aconteceu que, em sonho, viu que estava de volta à infância. Os cheiros e os sons eram familiares, mas o lugar não. As formas e as cores eram confusas e tudo parecia grande. Uma vez que cresceu, tinha se esquecido de como era difícil alcançar as coisas no alto. Por mais que esticasse seus pequenos braços e suas curtas pernas, não conseguia. Foi olhando em volta que percebeu um lindo vaso, ornado de ouro. Nele, estava um buquê de lírios. O perfume daquelas flores era doce e envolvia todo o lugar. A brancura das pétalas era tanta que chegava a brilhar. Toda aquela lindeza cativou seu olhar. Por aquela flor, dispunha-se desde aquele momento a não querer mais nada. Mas, tentando pegá-la, não conseguia. O vaso estava muito alto. 

Então, entristeceu-se. Pensou por um momento que a flor não queria estar consigo. Foi então que olhando para baixo, viu um outro vaso. Podia dizer, sem medo de errar, que era idêntico ao lá de cima. Tinha o mesmo perfume e a mesma brancura. Alegrou-se subitamente. Adiante estava um vaso que podia alcançar sem problema. Aliás, bastava que se abaixasse. Porém, havia algo de estranho. 

Notou que, a cada movimento em direção àquele vaso, o perfume mudava e assim, também, a brancura. Era muito confuso. Se não tivesse certeza das suas impressões iniciais, poderia jurar que estava se aproximando da flor errada. Era angustiante andar até àquela criatura. Uma sucessão de miragens e desapontamentos. Uma hora parecia brilhante, mas, aproximando-se, todo o brilho sumia. Pensava em voltar atrás, mas subitamente o brilho voltava - como se advinhasse estar perdendo seu admirador.  Por fim, chegando bem perto, assustou-se. Não havia flor, nem perfume, nem brancura. Havia uma planta seca, cravada numa terra estéril, dentro de uma lata amassada. 

Tentou se afastar daquela feiúra, mas, sempre que dava um passo para trás, a planta voltava a ter bom aspecto e, novamente, sentia-se tentado a ir em direção a ela e, indo, decepciona-se de novo e de novo. Não aguentando mais, sentiu raiva. Não conseguia alcançar a flor bonita, porque estava no alto, e a que estava ao seu alcance, parecia bonita, encantava, mas sempre frustrava. Achou, então, que não havia mais alternativa, quando apareceu sua Mãe.

Ela aproximou-se sorridente. Agachou-se e passou suas delicadas mãos da face da criança. Levantou-lhe o queixo e olhou diretamente nos olhos. Naquele momento, o infanto coração encheu-se de grande conforto e, sem saber como, sentia que a esperança devolvia-lhe o vigor.

A mãe segurou aquelas pequenas e infantis mãos, levantou-se e fez sinal para que a acompanhasse. Ela apontou a flor que estava no alto. Aquele era o destino. 

Foi difícil caminhar. A lembrança da flor bonita, que não era bonita, e do perfume, que não era perfume, causava muito sofrimento ao pequenino coração. Como aquilo era possível? Por um lado, sabia que aquela flor era enganadora e rejeitava-a. Mas, por outro, sentia-se ainda tentado a voltar para ela. 

Depois de algum tempo, já tinha perdido a conta das vezes que largou da mão materna e voltou à flor moribunda. Também das vezes que ela voltou para lhe resgatar. Parecia que aquilo não teria fim. Quando se afastava da flor enganadora, sentia-se só. Abandonava o que era certo na sua vida. Por mais que a companhia materna lhe consolasse, não conseguia avançar. A flor de cima era muito difícil de ser alcançada. E se também fosse falsa? O que que faria? Foi, então, que a Mãe fez sinal para outra pessoa. Foi estranho. Viu que, dum canto, saia um homem, muito sorridente, mas ferido em suas mãos e em seus pés. Quanto mais ele se aproximava, menor ficava. Estava encolhendo e, uma vez chegado, era uma criança. Ele ofereceu a pequena mão chagada e disse:

- Venha comigo. Minha mãe e eu vamos levar você até a flor bonita. Ela é minha preferida e quero que ela seja sua também. 

Começaram a andar. Avançavam lentamente. Nossa pessoa sofreu muito. Mas, todas as vezes que sentia vontade de olhar para trás, olhava, ao invés disso, para seu amigo. Suas mãos estavam dadas e aquilo era sua segurança. Aquilo dava a certeza de que, não importava a dor, não estava sozinho. Teve a impressão, em certo momento, que os pés de seu companheiro deixavam marcas de sangue para trás. Mas, a maior impressão foi que, aproximando-se da flor de cima - docemente perfumada -, deixava para trás um grande fedor. Não havia notado que a flor mentirosa fedia, na verdade. 

Já estava bem perto quando seu pequeno amigo cresceu. Lembrava alguém muito especial. Era como se o conhecesse desde sempre. Ele lhe tomou nos braços e ergueu até que alcançasse a flor. A Mãe estava que não se continha de alegria. 

Nossa pessoa, enquanto acariciava as lindas pétalas dos lírios, olhava sorridente para o Homem e para Sua Mãe. De repente, não temia mais voltar à flor de baixo. Não se sentia só. Estava feliz. 

Amanhecendo o dia, acordou. Tudo estava como antes, silencioso. Porém, diferente. De alguma forma misteriosa, sabia que não estava só. Que a luta do dia-a-dia seria como aquela busca pelos lírios, lá de cima. Devia buscar ser humilde. Afinal, é verdade que não pode alcançar tudo por si só. Precisa de ajuda. É óbvio que, pequenino, podia alcançar por si apenas o que está em baixo. Ademais, sabia que, mesmo não pedindo, a Santíssima Mãe de Deus sempre estaria cuidando e que, mesmo sem perceber, ao seu lado está Nosso Senhor, segurando suas mãos. Fazendo-lhe companhia. Antes daquela noite, estaria com raiva da dor que sofria e do silêncio de Deus. Mas, pensando bem, o mundo lhe oferecia conforto e fazia muito barulho, mas para lhe ofertar apenas miragens e falsas alegrias. Deus era diferente. Seu silêncio era daquele que escuta, daquele que prefere a realidade, daquele que, ao invés de falar, fica junto e acompanha na alegria e na dor, ajudando a alcançar as coisas do alto. Os lírios do paraíso.

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