segunda-feira, 7 de novembro de 2011

[Esp] Por que Deus deixou isso acontecer comigo?


Uma das questões mais comuns que o cristão põe a si mesmo, quando perturbado pelo sofrimento, é: "Por que Deus deixou isso acontecer comigo?". Sob o impulso da revolta, pensa ainda consigo: "Se Deus fosse bom, não permitiria isso". Dali pouco tempo, conclui: "Ou Deus não existe, ou Ele não é tão bom quanto dizem". Subitamente, todas as razões para crer e confiar em Deus são perdidas de vista, largadas em algum canto distante e empoeirado da consciência. No seu lugar estão a revolta e a tristeza, abrasadas à medida em que as tribulações são vividas ou recordadas. Os que estão de fora podem ver o silêncio deprimido ou as inflamadas palavras dirigidas aos outros. Porém, não vêem as lágrimas que acompanham o sono, nem a chama da dor que, ardendo oculta, consome por dentro aquele que padece.

Nós que sentimos atrações pelo mesmo sexo sofremos pela incompreensão dos outros e pelas injustas humilhações (feitas por piadas, brincadeiras maliciosas, xingamentos), porém o mais doloroso é  não compreender porque Deus permitiu que esses sentimentos se desenvolvessem em nós, tornando atraente e desejável para nós um comportamento que Lhe desagrada muitíssimo.

Também, dentre nós, há os que foram molestados ou alvos de assédio. Estes sofrem por seus desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo e sofrem pelas dolorosas recordações. Perguntam-se duplamente: "Por que Deus deixou que eu fosse abusado? E por que, apesar do meu sofrimento, Ele deixou que estes sentimentos aparecessem em mim? Já não sofri o bastante?".

Contudo, por mais intenso que seja o sofrimento e por mais injusta e incompreensível que seja sua causa, isso não é razão para desacreditar de Deus, nem para ofendê-Lo, pois Ele é bom e não é a causa do mal.

"Deus é bom! Como o Bom Deus é bom!" 

Esta frase era constantemente repetida por Santa Teresinha. Ela havia sofrido muitas vezes com perdas e separações, mas, em seu coração, permanecia a confiança de que Deus estava ao seu lado e confortava seu pequenino coração. 

A bondade de Deus é manifestada em toda criação, mas, quando estamos tristes, damos muita atenção ao lado "ruim" da vida. Doenças, tragédias,  separação, perda, morte, destruição... o mal. Prendendo-nos a essas coisas, acabamos nos convencendo de que o mundo é caótico e gera apenas sofrimento. Porém,  depois de tirar dos olhos as lacrimosas escamas, começamos a notar a bondade e a ordem da criação. A renovação das estações, o florescimento dos campos, o nascer e o pôr-do-sol, o crescimento dos seres viventes, a distribuição e o movimento das coisas como se formassem uma complexa e belíssima sinfonia, entoando louvores ao seu Criador.

"Louvai ao Senhor porque Ele é bom, porque eterna é a Sua misericórdia"

Deus fez tudo por um ato de livre vontade. Não precisava nos criar e poderia viver a eternidade sendo Aquele que é, Pai amando o Filho, Filho amando o Pai, Espírito Santo celando e transbordando o amor do Pai e do Filho. Porém, Deus nos contemplou na Sua sabedoria e, da Sua eternidade, amou-nos tanto que não se contentou em apenas nos pensar, mas quis partilhar conosco os dons da existência e da vida. Por isso, São Tomás de Aquino ensina que Deus nos criou para nos comunicar Sua bondade. Deus nos amou e já nos conhecia desde a eternidade, mas, devido esse amor, quis que nós também tivéssemos a chance de conhecê-Lo e de amá-Lo. O Pai criou filhinhos e quis apresentar-se a eles para que O conhecessem e soubessem do Seu amor por eles. Ele os fez livres, de modo que, por um ato da vontade deles, escolham ou não conhecer e amar o Criador. 

Deus não é a causa do mal

O mal e suas consequências não são obra de Deus. Deus é o criador e, como vimos, o mundo é efeito do amor divino. Tudo o que existe está impregnado e envolvido por esse amor. Mas, o mal é obra das criaturas que, por atos livres das suas vontades, decidiram deixar de seguir Aquele que é a Verdade, a Vida, a Justiça e o Amor, para concretizar suas intenções de mentira, morte, injustiça e ódio.  

O demônio foi o primeiro a trilhar esse caminho, por isso dizemos que foi o inventor do pecado. Ele era um anjo e alguns dizem que era a criatura que estava mais perto de Deus. Porém, ele foi invejoso, querendo roubar para si a adoração que é devida apenas a Deus. Sobre isso, aludem as Sagradas Escrituras: "Vou subir acima das nuvens, tornando-me igual ao Altíssimo" (Is XIV, 14). Em vista disso, tentou enganar os outros, mentindo que era Deus. Porém, dos coros celestiais mais inferiores, houve um anjo que bradou contra a mentira daquele impostor: "Quem é como Deus?". Esse anjo, conhecido por nós como São Miguel, liderou legiões de anjos para combater o mentiroso. Sobre isso, Nosso Senhor testemunha: "Eu vi satanás cair do Céu como um relâmpago" (Lc X, 18).

Derrotado, o demônio e os anjos que caíram com ele perderam a graça divina, apesar de conservar o que é próprio de um ser espiritual. Como ser puramente espiritual, ele não age como nós. Nós podemos mudar nossas resoluções. Mas, não os anjos. O que fazem uma vez, fazem sempre. Por isso, quando o homem foi criado, o demônio sentiu inveja do amor de Deus pelo ser humano e quis roubar do homem a graça divina. Movido por sua inveja, mentiu para Eva e para Adão, tentando-os a desconfiar de Deus e desobedecê-Lo. O demônio sabia que o homem sendo espiritual e material poderia morrer. Em estado de graça, gozaria de vida eterna com Deus. Mas, se o homem pecasse, sofreria com a morte eterna no inferno. Por isso, Nosso Senhor disse aos fariseus: "Ele, o diabo, era assassino desde o começo e não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala mentira, fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira" (Jo VIII, 44).

Quando aqueles primeiros homens pecaram, o pecado entrou no mundo em que vivemos e, com ele, a morte e todos os males que sofremos. Depois do primeiro pecado, o da vaidade e da desobediência, aconteceu o fratricídio: Caim matou seu irmão, Abel, por inveja. Esta é a realidade do pecado. Ele espalha sua corrupção e leva sofrimento e morte a tudo o que o aceita.    

Com isso em mente, perguntamo-nos: se Deus nos criou por amor e quis nos comunicar Sua bondade, por que Ele permitiu que o mal existisse e nos causasse tanto dano e sofrimento?  A Santa Igreja ensina que a permissão divina de o mal existir no mundo é um mistério (Catecismo da Igreja 309-310;324;400). Quando diz mistério, ela quer dizer que isso está além da compreensão humana, porém, ainda é racional, mas sua complexidade é tão grande que é acessível apenas à sabedoria de Deus. 

Todavia, mesmo que não entendamos porque Deus permitiu que o mal existisse no mundo, sabemos que isto está conforme à Sua sabedoria e que, também, está sob o controle da Sua onipotência. Ademais, a Santa Igreja diz com Santo Agostinho que Deus, permitindo o mal, sempre tira dele um bem superior.

Alguns, mesmo depois de escutar o ensinamento da Santa Igreja, ainda têm dúvidas. Trata-se, no fundo, da mistura entre raiva e desconhecimento. As lembranças nos acompanham. Ás vezes, isolamo-nos dos outros. Evitamos as pessoas que nos maltrataram, que nos xingaram, que foram injustas conosco. Sentimo-nos impotentes, pois não temos acesso aos detalhes do plano de Deus, não temos controle sobre os acontecimentos e não podemos prever as ações uns dos outros. "Será que mais alguém vai me ferir? Acaso algo pior vai acontecer ainda?". Achamos, por algum tempo, que o Senhor está numa situação privilegiada, vendo-nos de longe, sem ser afetado pelos nossos problemas terrenos. Pensando assim, porém, cometemos um grande erro.


Por sua onisciência, Deus sabe de tudo o que passamos. Ele nos conhece mais intimamente do que nós mesmos, dizia Santa Agostinho. O Senhor está ciente de sofrimentos interiores que, muitas vezes, tentamos abafar por meio das distrações e dos vícios. Mas, principalmente, Deus se importa conosco e está presente em nossas vidas.

Como diz São Paulo, nossos corpos são templo do Espírito Santo. Como Igreja, dizemos que o Espírito Santo é o divino hóspede que em nós habita e que nos consola. Santa Teresa de Ávila diz que, em nosso interior, há um castelo espiritual e, no centro deste castelo, está o Rei dos reis. Para encontrá-Lo, basta a oração. Recebendo a Eucaristia, tornamo-nos o sacrário do Deus Vivo, trono do Rei do universo, tábua da Verdade encarnada, habitação do Criador, liberto do Salvador, procissão do Santíssimo, amado do Amor. Unimo-nos mais intimamente a Jesus e Ele se une mais intimamente a nós.

Como batizados, fazemos parte do corpo místico de Jesus. Quando São Paulo era ainda Saulo, perseguidor dos cristãos, Jesus lhe dirigiu estas palavras: "Saulo, Saulo, por que me persegues?". Assim, quando somos alvo das injúrias e das injustiças, não sofremos sós, mas Cristo sofre conosco e nós sofremos com Cristo.

Além disso, mesmo sendo justo nos abandonar em razão dos inúmeros pecados cometidos, Deus quis, escolheu e tomou para si nos salvar. Ele foi o ofendido, porém Ele mesmo se fez como os réus, tomou sobre si mesmo os castigos que deveriam ser infligidos sobre nós. "Foi transpassado por causa de nossas rebeldias e esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos de pagar caiu sobre ele, pelas suas chagas nós fomos curados" (Is LIII, 5). Sacrificou não uma gota mas todo seu sangue, não parte mas toda sua carne, para pagar a dívida humana contra Ele. Deus abraçou nosso sofrimento por inteiro. Sofreu nossa pobreza, nossas fatigas, nossa fome e nossa sede. Foi traído por um escolhido seu (em troca de algumas moedas!), entregue como criminoso aos que O odiavam, abandonado pelos amigos, humilhado e cuspido, castigado por um crime que não cometeu, despido como indigente, xingado e tido como mal-feitor, crucificado entre ladrões... porém Ele morreu amando-nos até o fim e, como diz a Santa Igreja, consumido pelo fogo da caridade. "Eu sou o Bom Pastor... eu dou minha vida por minhas ovelhas" (Jo X)




Diante disso, não podemos dizer que Deus é indiferente à nossa dor. Podemos não saber porque Deus permite o mal e o sofrimento, mas sabemos que Ele não nos abandonou a essas coisas, mas passou por elas junto de nós, até o fim.

Mas, isso não é tudo. É preciso considerar a obra maravilhosa que o Senhor faz pela redenção. Do acontecimento mais macabro e hediondo (feito por suas criaturas), Deus soube extrair o bem mais belo e glorioso: a salvação da humanidade. Assim, por Jesus, nossa vida é redimida. Tudo o que deveria nos destruir, por Jesus, nos salva. Se estávamos caindo no abismo, por Jesus, somos levados ao Céu. Assim, as atrações pelo mesmo sexo e as tristes memórias do passado que deveriam nos fazer afundar na depressão e na morte, por Jesus, podem forjar em nós corações mais virtuosos e, assim, nos levar à felicidade e à vida eterna.

Se você, que lê este artigo, está na situação que descrevemos, queremos que saiba que não está sozinho. Além de nós que estamos aqui, Deus conhece a sua dor e está com você. Como dissemos, você é fruto do amor divino e redimido por um ato de extrema entrega e amor. Não deixe que o mal conclua suas intenções assassinas e invejosas em você, mas busque o refúgio no Senhor de nossas vidas. Ele pode redirecionar toda sua vida. Aquilo que hoje está te levando para baixo, Ele pode fazer com que te conduza para o Céu. Nós, do Juventude Coragem, como católicos e membros do Apostolado Coragem, cremos que Jesus é o nosso Salvador. As atrações pelo mesmo sexo não são mais causa de queda e de condenação para nós, pois abraçamos voluntariamente a castidade e unimos nossas cruzes à Santa Cruz de Nosso Senhor. Nossas lágrimas já não caem no chão, mas deixamos que o Senhor as enxugue. Deixamos que as feridas de Jesus curem as nossas feridas. Deixe também que Ele cure as suas. 





Um comentário:

  1. Como sempre... Maravilhoso!
    Bendito seja Deus por esta iniciativa que me tem ajudado muito.
    A esta obra, minha gratidão e oração.
    Paz!

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