domingo, 29 de abril de 2012

[Esp] A misericórdia de Deus não tem fim

Aconteceu, no segundo domingo da Páscoa, a festa da Divina Misericórdia, que o Beato João Paulo II institui, em atenção ao pedido de Santa Faustina em seus escritos.

"O amor de Deus é a flor e a misericórdia o fruto" (Santa Faustina)

Essa magnífica festa nos faz refletir sobre a Misericórdia e sua relação íntima com o Amor e com a Justiça Divinas. Pois os discursos do nosso tempo nos conduzem a dois extremos viciosos: o primeiro, crendo na Misericórdia, desacredita na Justiça; o segundo, crendo na Justiça, esquece da Misericórdia. A tal ponto esses extremos são vividos, que acontece ou de as pessoas relaxarem suas consciências e considerarem sem valor a atenção ao cumprimento da lei divina, ou de elas se desesperarem frente às exigências da lei divina e considerarem a si mesmas condenadas. 
       
Dizemos que a justiça é o cumprimento da lei, enquanto que a lei é o que dirige a ação ao que é certo. Assim, quando falamos em Justiça Divina, falamos do Juiz que é Deus, que julga nossas ações segundo a Lei Eterna, a fim de separar os cumpridores da lei dos não-cumpridores, aqueles que agem certo daqueles que agem errado. Por outro lado, dizemos que a misericórdia é sentir em si mesmo a miséria do outro, sentimento que impulsiona a ir ao que sofre e socorrê-lo. Assim, quando falamos em Misericórdia Divina, falamos do Compassivo que é Deus, que conhece profundamente a miséria humana, tanto por Sua onisciência, quanto pela Paixão do Filho, e, por isso, move-se em direção ao ser humano sofredor para socorrê-lo.    

Não é possível haver contradição entre a Justiça e a Misericórdia Divina, porque é um e o mesmo Aquele que é juiz e que é misericordioso. É Ele quem julga os homens, separando os justos dos injustos. Mas, é também Ele quem perdoa os homens de coração arrependido, tirando-os do pecado e elevando-os à santidade. É Ele quem pune os injustos, lançando-os ao inferno. Mas, é também Ele quem oferece, até o último segundo, a chance de os homens se arrependerem. É Ele quem considera cada ação para julgar os homens. Mas, é também Ele quem perdoa uma multidão de pecados bastando um único ato de contrição, mesmo que feito no último instante desta vida. Por fim, é Ele quem expulsa o ser humano do Paraíso, depois do pecado da desobediência; mas é Ele quem envia e sacrifica Seu Filho Unigênito para salvar os homens da morte eterna e reintroduzi-los no Reino dos Céus.

O que concilia a justiça e a misericórdia é o amor. A Sagrada Escritura diz que aquele que ama cumpre toda a lei. Pois aquele que ama age querendo fazer o bem ao outro, pois quer o bem do outro, mas quem ama também odeia o mal, isto é, odeia aquilo que destrói e mata a coisa amada. Assim, toda a lei se resume em amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo, mas também detestar aquilo que afronta a Deus e destrói o próximo. Também, aquele que ama, sente em si mesmo os padecimentos do amado e abre mãos de si mesmo para socorrer e consolar o amado. Aquele que ama quer a salvação do amado. Pois, nesta vida, somos todos constantemente ameaçados pela morte e pelo pecado (que nos lança à morte eterna). Vendo  alguém que amamos ameaçado de morte, somos tomados de grande tristeza, porque não queremos perder quem amamos e porque seus sofrimentos geram em nós sofrimentos. Quando, da sua miséria, a pessoa amada nos faz uma súplica, somos constrangidos pelo desejo de consolá-la.

Assim a Justiça Divina promove aquilo que edifica o homem e recompensa os homens que agem para o bem dos outros, mas também pune alguns porque detesta aquilo que destrói o homem e detesta os homens que, apesar de toda advertência e todas as chances, persistem em agir para afrontar a Deus e para destruir outros homens. Porém, a Misericórdia Divina conhece profundamente a miséria humana. Sabe que o homem é fraco e que, muitas vezes, apesar dos seus firmes propósitos de agir bem, acaba falhando e fazendo o mal, para si ou para os outros. Sabe que, muitas vezes, o ser humano faz por ignorância o que não faria se tivesse ciência. Sabe que, muitas vezes, o sofrimento leva os homens à falta de fé e à falta de esperança, que os erros do passado lançam os homens à vergonha, que o mal feito contra eles deixa feridas e que essas feridas, muitas vezes, os impedem de avançar, tal como as doenças que debilitam as forças do corpo e o forçam a ficar de repouso. Sabendo disso e amando sua criatura humana além de toda medida, Deus vem até ela, que sofre, e oferece-lhe força, socorro, perdão, companhia, fé, esperança, amor. O mesmo desejo de que o homem esteja à salvo, leva Deus a corrigi-lo por Sua justiça e a socorrê-lo pela Sua misericórdia.

Mas, como já foi dito, muitos vivem infelizes, pensando que Deus está a observá-los à procura de um erro ou de um desvio para lançá-los à perdição. Desses há ainda os que deixam de rezar e de receber os sacramentos, pois veem sua miséria e seus pecados e julgam-se indignos de Deus, sem mais.

Ora, por que duvidam tanto do amor de Deus? No coração de Deus não há outro desejo que este: que nós sejamos salvos. Enquanto o demônio, nosso acusador, busca razões para que sejamos condenados, Deus vale-se de todo Seu amor e de toda Sua onipotência, pondo as multidões dos anjos e dos santos para interceder por nós, dando infinidade de graças pela oração e pelos Sacramentos, perdoando uma, duas e sem número de vezes e, assim, oferecer e encontrar nem que seja uma simples razão para que sejamos salvos. E vejam! Deus mesmo nos deu a razão de nossa salvação: a fé no seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, Nosso Senhor!  Deus sonda nosso coração, não em busca dos maus pensamentos, mas da nossa contrição e dos nossos bons propósitos de conversão. Deus está atento às nossas ações, não para encontrar erros, mas para estar à nossa disposição em todos os momentos que precisamos Dele. Deus nos repreende quando agimos mal, não para que Sua onipotência esmague nossa pequenez, mas para que Sua sabedoria nos ilumine e nos guie à grandeza a qual fomos destinados.

Olhar para nossos pecados e prender nossa atenção neles, produz em nós desânimo. Sobre isso, alerta-nos Santa Teresa de Ávila em "Castelo Interior". Esta santa mulher, de intensa vida interior, nos ensina que alma deve ser como as abelhas, ora indo às flores, ora voltando à colmeia. Assim, a alma precisa olhar para si mesma, para que conheça sua miséria, mas também precisa olhar para Deus, para que conheça a grandeza do Senhor e todas as graças que Ele dá, por Seu amor, às almas. Se a alma olha apenas para sua miséria, fica desanimada, pois julga que não é digna ou que, sendo muito fraca, jamais conseguirá avançar. Chega até a abandonar a jornada espiritual. Por outro lado, a alma que apenas olha para Deus, descuida-se de si mesma e pode chegar, inclusive, a envaidecer-se. Quando tentada, pode cair em pecado, pois não cuidou  de conhecer e sanar por Deus suas fraquezas e, assim, não se  fortificou. Desse modo, a alma precisa ser laboriosa como as abelhas, ora olhando para si mesma, a fim de conhecer sua miséria, ora olhando para Deus, a fim de conhecer-Lhe a grandeza e o amor que a socorre.

Crer que Deus nos vira as costas por causa de uma ação e de um longo passado de pecados, como se nunca viesse a dar atenção às nossas súplicas é perder a confiança na Misericórdia Divina e é desesperar-se.

Ora, a misericórdia, assim como tudo em Deus, é infinita. Quando dizemos que é infinita, não dizemos simplesmente porque ela está acima de nossa compreensão, nem dizemos porque ela é de uma quantidade sem fim, porém dizemos porque Deus está além de toda medida. Isso responde à pergunta que muitas vezes nos fazemos: "Como Deus consegue me perdoar uma, duas ou sem número de vezes?". Ora, repetimos, porque Deus está além de toda medida. Quando Santa Faustina fala do oceano da Misericórdia Divina, ela não o faz sem razão. Uma gota de água chega a ser menor que a unha do dedo mindinho, mas os oceanos cobrem a terra. Assim o tamanho de nossas faltas nada é perto da imensidão da Misericórdia Divina. Ademais, quando uma gota de água cai no oceano, não é a gota que dilui o oceano, mas é o oceano que a envolve, dá sal e torna parte da sua imensidão. Assim, quando mergulhamos na Misericórdia Divina, nossas fraquezas e nossas misérias não afetam a Misericórdia Divina, porém é esta Bendita Virtude de Deus que nos envolve, devolve a sanidade e restitui a comunhão com o Senhor.    


É verdade que somos indignos por nós mesmos, mas também é verdade que o amor e o sacrifício de Deus por nós nos dignificam. 


Nós, que sentimos atração pelo mesmo sexo, acabamos às vezes deixando de acreditar nessas palavras, porque julgamos que nossos pecados, contra a castidade, possuem uma gravidade superior, a ponto de acharmos que é imperdoável. É verdade que os pecados contra a castidade são graves. Porém, como foi dito, Deus não está à procura dos erros humanos, mas dos corações arrependidos, com firmes propósitos de conversão. Mesmo se, no passado, já confessamos e tornamos a cair, de novo e de novo, precisamos continuar firmes na luta, buscando abandonar o homem velho e viver como o homem novo, nascido da Cruz e da Ressurreição de Jesus Cristo. A repetição dos erros do passado trazem desânimo para a alma, mas isso deve ser combatido pelo exame da consciência (em que identificamos e retificamos nossas intenções) e pela oração, com confiança inabalável na Misericórdia Divina.

Encerramos esta postagem apresentando o testemunho de Mauro, que recentemente falou na rede Canção Nova sobre sua conversão. Ele viveu um estilo de vida gay por muitos anos, mas não foi feliz naquela vida. Foi quando viu a imagem da Divina Misericórdia que Mauro se sentiu chamado a voltar-se para Deus. Ali, na Misericórdia Divina, Mauro reencontrou o amor de Deus e isso transformou sua vida completamente. Mauro abraçou o caminho da castidade e esta é sua alegria e sua liberdade até os dias de hoje. Leiam este lindo testemunho e vejam como, mesmo em relação aos que já pecaram contra a castidade, Deus é bom e infinitamente misericordioso.


  Misericórdia Divina, que desperta a confiança onde não há esperança, eu confio em Vós.

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