sexta-feira, 24 de agosto de 2012

[TdC] A unidade original do homem e da mulher na humanidade


Caríssimos, nesta semana, voltamos à nossa coluna sobre  Teologia do Corpo. Nesta série, queremos apresentar o ensino do Magistério sobre o sentido da sexualidade no plano de Deus. O presente post  tratamos da unidade original entre homem e mulher. Outras postagens que tratam do assunto podem ser lidas aqui  e aqui .

“As palavras do livro do Gênesis “não é conveniente que o homem esteja só(Gn 2,18) são quase um prelúdio da narrativa da criação da mulher. Com esta narrativa, o sentimento da solidão original entra a fazer parte do significado da unidade original, cujo ponto-chave parecem ser precisamente as palavras de Gênesis 2, 24, a que se refere Cristo na sua conversa com os fariseus: “O homem deixará o pai e a mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne” (Mt 19,5). Se Cristo, referindo-se ao ‘princípio’, cita estas palavras, convém-nos precisar o significado dessa unidade original, que mergulha as raízes no fato da criação do homem como macho e fêmea.

A narrativa do capítulo primeiro do Gênesis não conhece o problema da solidão original do homem: o homem, de fato, desde o princípio é “macho e fêmea”. O texto javista do capítulo segundo, pelo contrário, autoriza-nos em certo modo a pensar primeiro, somente no homem enquanto, mediante o corpo, pertence ao mundo visível, mas ultrapassando-o; depois, faz-nos pensar no mesmo homem, mas através da duplicidade do sexo. Corporeidade e sexualidade não se identificam completamente. Embora o corpo humano, na sua constituição normal, traga em si os sinais do sexo e seja, por sua natureza, masculino ou feminino, todavia o fato de o homem ser ‘corpo’ pertence à estrutura do sujeito pessoal mais profundamente que o fato de ele ser na sua constituição somática também macho ou fêmea. Por isso, o significado da solidão original, que pode referir-se simplesmente ao ‘homem’, é substancialmente anterior ao significado da unidade original; esta última, de fato, baseia-se na masculinidade e na feminilidade, quase como sobre duas diferentes ‘encarnações’, isto é, sobre dois modos de ‘ser corpo’ do mesmo ser humano, criado à imagem de Deus (cf. Gn 1,27). [...]

Assim pois, Deus-Javé diz: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele (Gn 2,18). [...]  A seguir lemos: “Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem (Gn 2,21-22). [...]

A mulher é feita “com a costela” que Deus-Javé tirara ao homem. Considerando o modo arcaico, metafórico e imaginoso, de exprimir o pensamento, podemos estabelecer tratar-se aqui de homogeneidade de todo o ser de ambos; tal homogeneidade diz respeito sobretudo ao corpo, à estrutura somática, e é confirmada também pelas primeiras palavras do homem à mulher recém-criada: “Esta é realmente o osso dos meus ossos e a carne da minha carne (Gn 2, 23)[1]. Apesar disso, as palavras citadas referem-se também à humanidade do homem-macho. Devem ler-se no contexto das afirmações feitas antes da criação da mulher, nas quais, embora não existindo ainda a ‘encarnação’ do homem, ela é definida como “auxiliar semelhante a ele” (cf. Gn 2, 18.20). Assim, pois, a mulher foi criada, em certo sentido, sobre a base da mesma humanidade.

A homogeneidade somática, não obstante a diversidade da constituição ligada à diferença sexual, é tão evidente que o homem (macho), despertando do sono genético, a exprime imediatamente, ao dizer: “Esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem (Gn 2,23). Deste modo o homem (macho) manifesta pela primeira vez alegria e até exaltação, de que anteriormente não tinha motivo, por causa da falta dum ser semelhante a si. A alegria para o outro ser humano, para o segundo ‘eu’, domina nas palavras do homem (macho) pronunciadas à vista da mulher (fêmea). Tudo isto ajuda a estabelecer o significado pleno da unidade original”. 

[beato João Paulo II, Alocução L’unità originaria’, 07.XI.1979].



[1] É interessante notar que para os antigos Sumérios o sinal aunei forme para indicar o substantivo ‘costela’ era o mesmo que indicava a palavra ‘vida’. Quanto, portanto, à narrativa javista, segundo certa interpretação de Gn. 2, 21, Deus cobre a costela de carne (em vez de cicatrizar a carne no seu lugar) e deste modo «forma» a mulher, que tem origem da «carne e dos ossos» do primeiro homem (macho). Na linguagem bíblica esta é uma definição de consaguineidade ou incorporação na mesma descendência (por exemplo, cf. Gn. 29, 14): a mulher pertence à mesma espécie do homem, distinguindo-se dos outros seres vivos anteriormente criados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por comentar nosso blog

Abaixo você tem disponível um espaço para partilhar conosco suas impressões sobre os textos do Apostolado Courage. Sinta-se à vontade para expressá-las, sempre com respeito ao próximo e desejando contribuir para o crescimento e edificação de todos.