terça-feira, 12 de março de 2013

[FH] Castidade e teoria psicanalítica [I]

Sidney Silveira

O ataque frontal e decisivo ao sacramento do Matrimônio cristão estava desferido: para justificar toda a sorte de incontinências e fetiches, passou-se a ter o apoio de uma nova “ciência”. A teoria psicanalítica de Freud se transformaria, na prática, numa espécie de sucedâneo da Religião: sobretudo nas classes médias, ao longo do século XX o divã tomaria o lugar do Confessionário. Uma teoria feita de idéias auto-referentes com fumos de ciência, como demonstrou um dos mais importantes psicólogos do século XX — Rudolph Allers.

Como se dizia antigamente, por uma espécie de analogia, “a castidade faz dos homens anjos” (castitas angelum de homine facit). Dizia-se também: “Com as mulheres, usemos de palavras breves e austeras” (cum feminis, sermo brevis et rigidus). E mais: “É impossível aproximar-se do fogo e não arder” (impossibile est flammis circumdari, et non ardere). Estas e muitas outras máximas e advertências dos Santos Doutores e do Magistério da Igreja com relação à castidade e aos meios (naturais e sobrenaturais) de mantê-la pertencem hoje a bolorentos manuais de Teologia Moral, relegados ao esquecimento, mesmo em Seminários.

Num mundo lúbrico, feito de encomenda para todos os tipos de gozo psicofísico, verdadeira fábrica de sexo das mais inimagináveis formas, a castidade transformou-se definitivamente em signo de algum tipo de doença psicológica. Mas isto não é de hoje. Algumas pseudofilosofias, secundadas pela teoria psicanalítica, há mais de cem anos vêm repetindo esse bordão. Nietzsche, por exemplo, dizia-nos em sua tola (porém daninha) Genealogia da Moral que o tipo mais acabado de neurótico é o santo. Freud foi além, ao afirmar em diferentes obras que uma das principais fontes de neuroses no Ocidente era a repressão dos movimentos da sexualidade por parte da moral cultural cristã.

Na prática, o homem sadio, na opinião dessas “autoridades”, seria o que conseguisse dar vazão a todos os movimentos libidinosos de sua psique; caso contrário, não lhe restaria senão a queda em estados os mais mórbidos e nervosos que se possam imaginar. O problema, segundo Freud, residia na moral ocidental (também vigente na católica Viena de então) que proibia não apenas a perversão sexual — como era chamada a homossexualidade —, mas até mesmo o exercício da heterossexualidade fora do matrimônio (oh, sacrifício terrível, o da monogamia!). Nesta visão, uma sociedade de adúlteros plenamente saciados e de sodomitas habitualmente in actu exercito de suas taras geraria um mundo muitíssimo melhor. Um mundo livre dos conflitos pulsionais mais agressivos provenientes das interdições do Superego.

O ataque frontal e decisivo ao sacramento do Matrimônio cristão estava desferido — pois, para justificar toda a sorte de incontinências e fetiches, passou-se a ter o apoio de uma nova “ciência” que se transformaria, na prática, numa espécie de sucedâneo da Religião: sobretudo nas classes médias, ao longo do século XX o divã tomaria o lugar do Confessionário. Mas se este último apagava uma culpa objetiva por meio do perdão divino subministrado sacramentalmente pelo padre (in persona Christi), aquele contribuiria para, em primeiro lugar, tornar a idéia de culpa algo subjetivo em toda a linha (e com raízes no elástico conceito de “inconsciente”, sobre o qual os psicanalistas das mais diferentes linhas divergem), e, depois, enterrar de vez a noção de culpa — lançando profanamente (in persona “Freudi”) a pá de cal sobre toda e qualquer idéia de moral. Era o prelúdio do vale-tudo.

Em síntese, para o Dr. Freud, a moral sexual vigente em sua época e nos séculos anteriores (ou seja: a cristã) seria a causa direta da neurose coletiva de todo o Ocidente, dada a impossibilidade de ser cumprida pela maioria das pessoas. De acordo com o seu psicanalítico parecer, as tendências perversas seriam justamente as que fariam a cultura progredir. Na prática, a religião (o Totem) já havia perdido a preeminência, mas ainda restava por derrubar a moral (o Tabu), e todas as suas proibições que não faziam outra coisa senão produzir patologias em progressão geométrica.

[continua...]

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