terça-feira, 26 de março de 2013

[FH] Castidade e teoria psicanalítica [II]


Continuação, que conclui o texto da postagem iniciada aqui
 
Hoje é extensa a bibliografia que aponta as raízes nietzschianas da psicanálise de Freud. Os conceitos de “pulsão”, “inconsciente”, “repressão”, “sublimação”, “caráter patológico da moral ocidental (e da religião)” e outras idéias centrais do pensamento freudiano se encontram presentes, de modo evidentíssimo, na obra de Nietzsche, como nos aponta Martín Echavarría, no livro “La práxis de la psicologia y sus fundamentos epistemológicos según Tomás de Aquino”. Num trecho dessa obra luminosa, Echavarría acertadamente nos lembra que:

“(…) la técnica terapéutica misma de hacer conciente lo inconciente se inserta en una concepción cercana a la idea de Nietzsche según la cual la curación consiste (…) en la superación del bien y del mal”.

Echavarría nos aponta, pela voz de alguns testemunhos que privaram da intimidade do pai da psicanálise, a grande esperança que tinha Freud no “super-homem” nietzschiano. Ele confessara ao Dr. G. C. Viereck que “Nietsche foi um dos primeiros psicanalistas. É surpreendente até que ponto sua intuição antecipou as nossas descobertas”.

Não admira que, com tais fundamentos e com esse afã prometéico de ir além do bem e do mal, a psicanálise estivesse condenada a permanecer eternamente como uma teoria — sem jamais lograr uma demonstração empírica dos seus conceitos-chave. Uma teoria feita de idéias auto-referentes com fumos de ciência, como demonstrou um dos mais importantes psicólogos do século XX: Rudolph Allers (mestre de Viktor Frankl, mas em certo sentido muitíssimo superior ao discípulo, dada a perspectiva metafísica de sua psicologia), em seus livros “Estudo crítico da psicanálise” (uma grande obra-prima de demonstração dos sofismas da ciência inventada pelo Dr. Vienense) e “Freud – o problema da psicanálise”.

Diz Allers no primeiro desses dois livros: “Não será difícil provar que a psicanálise pertence a um grupo de sistemas nascidos do espírito do naturalismo e do materialismo. E não é difícil também ver que o ponto de vista moral radical da mesma psicanálise é caracterizado por um puro hedonismo. Estas atitudes têm uma influência definida e de vasto alcance sobre a maneira de conceber a natureza humana. (...) A psicanálise não é, e nem pode ser, uma ciência, no mesmo sentido em que a física o é”.

Depois desse preâmbulo, Allers escolhe seis axiomas da psicanálise e os põe a todos por terra, juntamente com os seus corolários e conseqüências — como num dominó.

São eles:

1º. Todos os processos mentais se desenvolvem de acordo com o padrão do mecanismo do reflexo;
2º. Todos os processos mentais são de uma natureza energética;
3º. Todos os processos mentais são estritamente determinados pela lei da causalidade.
4º. Todo fenômeno mental deriva, em última análise, de um instinto. Os instintos são o material primário dos estudos mentais;
. O princípio da evolução aplica-se ao desenvolvimento do espírito humano na história;
. A cadeia das associações livres reconduz-nos à causa real dos fenômenos mentais.

Para o católico culto — que hoje se vê compelido a defender a doutrina tradicional em sua integridade (tanto intra como extra ecclesiam) —, as obras de Allers críticas à psicanálise são obrigatórias. Tanto pela profundidade filosófica, como pela contundente defesa da fé, que indiretamente acabam realizando.

Tais prescrições nada têm a ver com algum tipo de misoginia, de aversão às mulheres. Pelo contrário: a grande apetecibilidade da beleza feminina, aos olhos do homem cristão em permanente e titânica luta contra o pecado, é que traz, para a sã doutrina, um grande risco de queda. Ou seja: no atual estado de natureza caída, a contemplação da beleza traz consigo o risco de queda em pecados os mais variados, pois não temos — como tivéramos no estado de justiça original — a capacidade de ordenar o apetite sensitivo às potências superiores da alma racional, senão com o auxílio da Graça. A propósito, isto serve também para as mulheres, na contemplação da beleza masculina: da deleitação morosa ao ato pecaminoso, muitas vezes basta um instante. Ah, se Santo Tomás, com santa inocência, dizia para evitarmos olhar as mocinhas belas (que no seu tempo se vestiam castamente), que diria a nós, homens contemporâneos, de um mundo hiperssexualizado e, ao mesmo tempo, infantilizado a mais não poder?

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