domingo, 16 de junho de 2013

[Tst] David Morrison: fora do armário e dentro da castidade... [II]

Eu fui fisgado. Era como se aquelas linhas tivessem sido escritas apenas para mim naquele exato momento. Buscando os trocados em meu bolso, eu comprei o livro, trouxe-o para casa, e o devorei. Aqui, deste homem martirizado por ordem de Adolf Hitler, ouvi uma mensagem que tanto me dominou como me aterrorizou. Será que eu, eu poderia, dar a minha vida por Cristo? Onde eu tinha me comprometido? Será que ser um cristão realmente significa seguir o que o meu mundo diz, ou será que ser cristão significa ser diferente, sendo totalmente de Cristo?

Rapidamente comecei a ler tudo sobre Bonhoeffer que eu conseguia por em minhas mãos. Com Bonhoeffer vieram outros autores cristãos comprometidos, alguns deles Católicos. As "Confissões" de Agostinho me convenceu do meu próprio acanhamento espiritual e me encorajou de que Deus nunca desiste de nós. O Castelo Interior de Teresa d’Avila me impressionou com a profundidade possível de comunhão na oração, e a vida e os escritos de Madre Teresa me mostrou o fruto potencial de uma vida tão devota.

Estes tomaram lugar na minha estante ao lado de livros de Richard Foster, que escreve poderosamente da tradição Quaker. Sua ‘Celebration of Discipline' and 'The Challenge of the Disciplined Life’ (“Celebração da Disciplina”  e “O desafio da vida disciplinada”) me fizeram querer voltar a analisar o papel do cristianismo desempenhado na minha vida ‘tão moderna’, especificamente na área da minha identidade e sexualidade. Aos poucos, comecei a entender que a minha sexualidade não era algo que eu tinha, mas algo que Deus possuía em mim, e que o testemunho claro das Escrituras era uma dupla finalidade para a sexualidade. Sexo, na intenção de Deus, destina-se a fazer duas coisas: prover a procriação dos filhos e construir maridos e esposas no amor, respeito e vida em comum. Como isto conciliaria com o tipo de sexo com o qual eu estava familiarizado, particularmente à luz da sua natureza inevitavelmente transitória? Afinal, o sexo homossexual é completamente e inalteravelmente divorciado da responsabilidade da procriação. Isso é realmente como Deus pretendia que usássemos nossa sexualidade?

Depois de muitos meses de indecisão, eu não poderia permanecer na desonestidade. A vida que eu estava vivendo por tanto tempo foi uma vida de “graça barata” e eu sabia disso. À luz da Escritura, Tradição e reflexão eu só poderia concluir que Deus exigiu de mim a mesma coisa que Ele exige de todos os cristãos solteiros: uma vida casta. E foi assim que eu abracei a fé e abandonei quase tudo o que eu pensava ser mais importante e querido para mim. Se Cristo queria castidade, eu seria casto. Então, eu coloquei tudo e todos em Suas mãos.

A partir daí a minha viagem para a fé católica foi rápida, eu fui seguindo nessa direção guiado pelas três realidades que fazem a Igreja Católica tão atraente para os homossexuais que buscam viver na pureza sexual e fidelidade.

Em primeiro lugar, a Igreja Católica é a única instituição cristã que não só prega a verdade sobre a castidade para as pessoas homossexuais, mas também oferece ajuda prática e tangível para alcançá-la.
Em segundo lugar, a Igreja Católica é a única grande instituição Cristã que reconhece que nós realmente não sabemos o que causa a homossexualidade. A Igreja não vai exigir conversão heterossexual como condição de comunhão, nem vai decidir, de antemão, que as pessoas homossexuais não sejam capazes de serem responsáveis por suas próprias decisões e ações. Esta posição inclui, como corolário, a dramática noção contra-cultural de que as pessoas homossexuais têm tanta dignidade humana quanto qualquer outra pessoa e não merecem ser apadrinhadas (serem tratadas de forma amigável, mas por pessoas que acreditam que elas não são muito inteligentes ou experientes) - algo que a minha Igreja Episcopal mais liberal de espírito fez (e ainda faz) com deprimente regularidade.

Finalmente, a Igreja Católica possui a verdade, e não apenas neste dogma, mas em todos os seus dogmas. Buscar ajuda para viver uma vida casta pode ter sido a “grande estrada que viajei para Roma”, mas uma vez que isto estava em minha visão, eu podia ver muito mais. A Igreja Católica, eu vim a compreender, exprimia em si mesma um meio de graça no meu desejo de levar uma vida mais próxima de Deus. Em seus sacramentos, particularmente no da Reconciliação e da Eucaristia, oferece um caminho extremamente importante para aproximar-se mais de Jesus, e os ofereceria a mim, seja qual fosse a minha orientação sexual.

Sim, eu tive dúvidas. Ninguém na minha família nunca tinha sido católico. Muitos deles eram e continuam a ser anti-católicos. No entanto, a verdade que havia me atraído até aqui não me deixava demorar mais tempo do que o absolutamente necessário, e eu entrei na Igreja Católica na Páscoa de 1993.

Como tem sido? Difícil, mas maravilhoso. Nada poderia ter me preparado para a força que eu alcancei de uma relação católica com Cristo e ninguém poderia ter me preparado para o quão difícil seria perder amigos e tensas relações familiares por causa dessa escolha. Quem pensa que existe uma lacuna entre o Catolicismo e o evangelismo ou não é Católico ou não está vivendo uma vida Católica de uma forma aberta. Simplesmente confessar a crença em uma visão católica de Cristo é tomar uma posição contra as ideias aceitas pela maioria da sociedade, o que exige apologética e explicação. Fiéis católicos que são homossexuais fazem isso todos os dias e encontram em ambos o testemunho exterior e o diálogo interior para um caminho notável para uma fé mais profunda.

[continua...]

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