terça-feira, 10 de setembro de 2013

[FH] O processo de autoidentificação homossexual [II]

[Continuamos com a série de textos do Dr. Aquilino Polaino-Lorente, sobre o processo de autoidentificação homossexual.Muitos irmãos e irmãs que lutam contra a atração pelo mesmo sexo  (AMS) encontrarão aqui elementos que conectarão com a própria experiência de vida. Os que não enfrentam tal batalha, terão oportunidade para conhecer melhor um pouco do drama que enfrenta uma pessoa que luta contra AMS e como ajudá-la. O primeiro texto foi públicado aqui]. 

Primeira etapa: a sensibilização a respeito da conduta homossexual.

Na aprendizagem da homossexualidade, há quase sempre uma primeira etapa de sensibilização. Os interesses que, na idade mais precoce, o menino e a menina, como pessoas, não costumam coincidir com os interesses que a sociedade os atribui, diferencialmente, a cada um deles, em função de seus respectivos gêneros.

Suponhamos que uma menina forte, com poderosa estrutura óssea e muito esportista que gosta de correr com a bola entre as pernas, driblar e, sobretudo, fazer gols na trave contrária. Contudo, essa atividade é atribuída social e culturalmente aos meninos; daí que o comportamento da menina é mal interpretado em seu contexto sociocultural. Essa dissonância no modo em que a conduta da menina é interpretada por seu contexto é possível que coloque em marcha ou ative uma complexa e lamentável aventura biográfica de funestas conseqüências para ela no futuro.

A identidade de gênero, quer dizer, o gênero masculino e o feminino, tal e como se entendem hoje em nossa sociedade, não parecem estar demasiadamente fundamentados em critérios rigorosos, estáveis e consistentes, em que todos ou a maioria estejamos de acordo. É por esta razão que numerosos autores falam hoje de “flexibilidade de gênero”. Com este conceito não quer significar que o gênero seja tão plástico ou que o conceito de gênero seja tão apagado e opaco que possa servir para a descrição de qualquer comportamento, seja este homossexual ou não.

Este conceito aponta melhor a indicar o que antes foi assinalado: que há uma certa ambiguidade nos trações atribuídos que configuram as constelações do masculino e feminino.  De pronto, poderia hoje afirmar que uma menina que monte em bicicleta é menos feminina que uma que monte a cavalo ou que outra que joga tênis? Poderia sustentar-se, de acordo com uma escala de masculinidade – que foi rigorosa, objetiva e relativamente consensual -, se um menino de quinze anos, é mais masculino que outro da mesma idade, em função de certos traços em seu modo se de comportar? Em função de que traços?

Não, ao que parece não estão suficientemente estabelecidos – e muito menos, esculpidos – esses traços definidores. Apesar de que se façam atribuições que qualificam a muitos comportamentos a respeito da identidade de gênero. Mas, como os critérios não estão demasiadamente claros – na realidade, quase nunca estiveram – tais qualificações socioculturais podem ser muito injustas e errôneas.

Em contrapartida, também seria injusto sustentar a hipótese contrária, quer dizer, afirmar que o gênero é um conceito muito vago e ambíguo, nenhuma afirmação sobre o masculino e o feminino pode estabelecer-se.

Se nesta etapa de sensibilização, em que se encontra um menina ou uma menina, os pais, tutores, companheiros, professores ou qualquer pessoa que para eles seja relevante, qualificam os traços que permitem diferenciá-los de outros meninos ou meninas como impróprios de seu gênero, começarão a sentir-se mais inseguros de si mesmos, no que respeita a sua identidade de gênero.
Se são marcadas em excesso as diferenças que se dão em seu comportamento, a respeito de seus iguais do mesmo gênero, o que aparecerá neles será uma certa consciência de que são diferentes.

Convém não esquecer o que está arraigado nessa sensibilidade especial – quase suscetividade – que também caracteriza os adolescentes. Em certas ocasiões, essa sensibilidade aumenta até quase um respeito patológico do “que dirão” os demais em relação a seu corpo e sua forma de vestir, etc. Quer dizer, os adolescentes experimentam um grande temor perante a possibilidade de “fazer o ridículo”.

Sobre essa percepção engrandecida do que é aparentemente diferencial em relação com os iguais, surgirão sentimentos de estranhamento e dúvida, que os levará a experimentar-se como diferentes aos demais.

Outras vezes, a percepção dessa diferença está fundamentada não na opinião ou qualificação dos outros, senão na comparação que o jovem estabelece entre certos traços de seu comportamento e os de seus iguais. A essa comparação – quase sempre, muito pouco posta em razão, seguem logo atribuições mal articuladas, mas muito poderosas, contribuem para inferências errôneas acerca de sua própria identidade de gênero. E tudo isto se produz ao acaso e sem que apenas intervenha uma certa pressão social.

Nesta etapa não é tanto que no contexto social se qualifique de “diferentes” seus trações de comportamento. É, simplesmente, o próprio juízo do jovem que comparece como mais intensamente determinante, até o ponto de chegar a confessar-se a si mesmos: “Eu sou diferente”.

Se encerra assim esta primeira etapa de sensibilização que, em ocasiões, pode superar-se espontaneamente, mas que, outras vezes, começa a marcar e teledirigir esse menino ou menina até uma posição na que é muito difícil logo a “autoconstrução” de suas respectivas masculinidade e feminilidade.


[continua...]

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