terça-feira, 24 de setembro de 2013

[FH] O processo de autoidentificação homossexual [IV]

[Continuamos com a série de textos do Dr. Aquilino Polaino-Lorente, sobre o processo de autoidentificação homossexual. Muitos irmãos e irmãs que lutam contra a atração pelo mesmo sexo (AMS) encontrarão aqui elementos que conectarão com a própria experiência de vida. Os que não enfrentam tal batalha, terão oportunidade para conhecer melhor um pouco do drama que enfrenta uma pessoa que luta contra AMS e como ajudá-la. Veja a parte anterior aqui]. 


Terceira etapa: o apelido assinado pelos companheiros

Esta etapa é de vital importância, por quanto nela acontece a configuração do apelido assinado pelas pessoas da mesma idade. O cenário natural costuma ser a sala de aula do colégio onde freqüenta.

Costuma bastar com que outro companheiro – provavelmente muito “gracioso” e que costuma estar mais “adiantadinho” nesta matéria-, comente com outro: “Parece uma menina: cruza sempre as pernas; os tios se escarrapacham-se e abrem as pernas. Este não joga bola nunca, é como as meninas”. Com isto tem começado a funcionar o apelido assinado pelos companheiros que, com toda probabilidade, é o que mais importa ao menino.

A notícia se espalha e sem ser conscientes das conseqüências que geram estas qualificações, talvez outro companheiro em um momento em que se aborrece com ele o alfinete: Menina...!, que é uma menina”.

Perante uma desqualificação como esta,qual é a conduta a seguir? O que se espera culturalmente que faça um varão? No que se refere a nossa cultura, o comum é que defenda sua virilidade e busque brigar com quem assim o ofendeu.

Se o ofendido se cala, se opta por não responder o insulto, o juízo social que dele farão seus companheiros – e que, de alguma forma, ficará arquivado na cabeça de todos eles – é que se parece mais com uma menina do que com um menino.

Ao não se defender, confirma, de certo modo, a respeito de seus acusadores que efetivamente seu comportamento se assemelha mais ao das meninas que ao dos meninos. O que se espera de um menino, nestas circunstâncias, é que se enrole a golpes com seus ofensores, pouco importa que sejam um ou mais. Mas como não se lançou na briga, a configuração social – neste caso escolar – do apelido que se há feito, adquire uma maior densidade e, o que é pior, se estende a toda a sala, quer dizer, se generaliza entre seus iguais.

O que acontecerá se ao final de dois meses toda a classe o chamar de “Manolita”? Ele brigará e declarará guerra agora a seus trinta companheiros, quando antes o fez com somente um deles? Não; simplesmente aguentará.

Mas ele mesmo de dá conta de que seu modo de responder não é o apropriado ou o usual entre os homens. O que com ele acrescenta é uma nova diferença – por outra parte, muito significativa – às diferenças que, provisoriamente, havia já antes experimentado. É aqui a conseqüência falta de um engano pesado, que não deveria se admitir em nenhum caso e que, no entanto, todavia se tolera em alguns contextos escolares.   

Quarta etapa: o conflito familiar sobre o modo de se conduzir

Nesta situação de confusão incipiente da identidade de gênero, suponhamos que um dia conte à sua mãe o que se passou no colégio. É muito possível que sua mãe vá ao colégio e fale com o tutor. É possível que a mãe não o aconselhe a resolver em socos. Este último será o conselho que seu pai dê a ele, apenas seja informado por sua mulher do que se passou.

Mas quando o pai sugere essa estratégia para solucionar o problema, o menino recorda que isso já pensou o desestimulou. Ele não vão de herói pela vida, ademais de temer enfrentar toso os seus companheiros. Se o pai observa que seu filho não fez o que o aconselhou, ao final de dois meses, continuam o chamando de “Manolita” no colégio, o pai começará a se angustiar muito mais que a mãe.

Um dia, o pai perguntará a seu filho: Não amassou a cara do companheiro que te insulta, te chamando de “Manolita”? Se o filho nega que tenha feito, é bastante provável que o pai o alfinete: “Que te digam isso que está bem empregado, porque és uma marica”.

Junto ao apelido dos companheiros, produziu-se uma nova situação, esta última muito mais grave. Se trata da emergência do apelido de homossexual no contexto familiar – ainda que só seja designativo -, o que pode se entender pelo menino como uma prova, por parte do padre – a pessoa que mais importa ao menino -, que certifica e serve de verificação ao apelido ocasional que foi qualificado pelos companheiros.

Logo, o rumor e os falatórios farão o que falta para estender, intensificar e/ou assentar, quase de modo definitivo, esse apelido. Como o menino não lutou contra o apelido – código de conduta usual no contexto cultural -, é lógico que alguns infiram que ele está comportando de acordo com o que o apelido significa. 
[continua...]

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