terça-feira, 1 de julho de 2014

[Atld] O mau-caratismo da mídia brasileira: o documento da Igreja que revê posição quanto aos homossexuais

O Jornal "O Globo" noticiou aqui, no dia 26 de junho, que "Vaticano divulga documento que revê posição quantos aos homossexuais". Com esta chamada equivocada, o veículo de informação induz seus leitores a pensar por antecipação que, de fato, o Papa Francisco, ou algum dos dicastérios, elaborou de próprio punho um documento que instrui uma posição diversa daquela apresentada no Catecismo da Igreja Católica, de 1992, e na Carta aos Bispos Sobre o Cuidado Pastoral de Pessoas Homossexuais, 1986.

Trata-se, na verdade, de uma pesquisa de opinião entre os "católicos" - guardadas as devidas ressalvas - que servirá como documento de discussão para o próximo Sínodo, disponível aqui. Não se trata, então, de um documento do Magistério, que determina o ensino sobre a fé e a moral. Seu peso não é o de uma encíclica, de um documento pastoral contendo o ensinamento da Igreja, mas sim de um relatório de pesquisa, de mera opinião do povo. Os bispos a ouvirão, ponderarão tudo sob a ótica do depositum fidei transmitido desde os Apóstolos, e dali poderá ou não sair algum documento que, ainda assim, não poderá estar - nem ser entendido - em contradição com o ensino da fé e da moral de sempre.

A notícia induz a um erro pior com respeito ao tema "casamento gay". O jornal recorda as palavras do Santo Padre quando ele esteve no Brasil, por ocasião da JMJ. Quando o evento acabou e ele retornava ao Vaticano, o Papa Francisco falou aos entrevistadores que "Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?". Comentamos tal fato, na época, nesta postagem, e divulgando este outro artigo. Estas palavras, a despeito de todos os esclarecimentos posteriores, espalharam confusão evidentemente, tanto que vários "católicos" falam nas paróquias, ambientes de trabalho, mídias e redes sociais, de rever a posição da Igreja sobre a união civil gay.  Porém, mais uma vez, é preciso enfatizar que uma coisa é a opinião de alguns católicos consultados dentro de uma pesquisa, outra coisa é o Magistério da Igreja. Esta distinção, ao bem da verdade, não devia ser necessária, pois todo cristão católico deve se submeter ao Magistério e, por uma questão de lógica: se crê, aceita; se não aceita, não crê. Não faz sentido que o crente professe com a boca a adesão à verdade revelada por Nosso Senhor, e transmitida pelos Apóstolos e seus sucessores, enquanto, simultaneamente, alimente o protesto em seu coração e queira inventar sua própria verdade à moda do momento. Ou crê numa fé revelada por Deus e que vem do Outro que é a Verdade, ou não é crente, mas alguém que segue as próprias idéias e a própria imaginação que vem de si próprio. Faz-se mister lembrar a esses que a fé é dom de Deus, logo vem de fora. A não ser que se julguem ser Deus eles próprios.

Contudo, é verdade que, sobre certos temas, nós católicos não precisamos estar de acordo. Por exemplo, se a homossexualidade é de origem psicológica ou de outra ordem, se é curável ou tratável. Pois tal questão não é objeto de fé, mas de ciência, e sobre ela, não há consenso entre os cientistas. Porém, como o bem do conhecimento é a verdade, que diz sobre uma mesma realidade, então, mesmo discordando sobre o que é objeto aberto a tal, precisamos prosseguir tentando descobrir o que é verdadeiro e o que é falso. Sem a vontade de alcançar o conhecimento da verdade, toda discussão é vã e cai numa mera listagem de opiniões. 

No entanto, no caso da união civil gay, que é assunto de política e moral, não há chances de discordância, pois a posição da Igreja já está definida quanto ao seguinte: as práticas homossexuais são intrinsecamente desordenadas e "não podem ser aprovadas em nenhum caso" (Carta aos Bispos Homosexualitatis problema, 1986, n.3). 
"Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a tradição sempre declarou que 'os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados'. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em nenhum caso podem ser aprovados (nullo in casu possent accipere approbationem)" (Catecismo da Igreja Católica, n.2357)
Logo nem aprovação no âmbito moral, nem aprovação no âmbito político. Ressalvados os direitos que as pessoas com tendências homossexuais têm enquanto pessoas e cidadãos, como qualquer outra pessoa e cidadão, a união civil entre pessoas do mesmo não deve ser aprovada, pois o Estado tem o dever de tutelar a família enquanto composta por homem, mulher e seus filhos, posto que esta é a célula-mãe da sociedade. Como o Magistério da Igreja explica no documento de 1986, qualquer aprovação de algo semelhante à união civil entre pessoas do mesmo sexo abrirá precedentes para outras deformações do casamento e da família (poligamia, pedofilia, bestialidade, incesto, etc).  
"Todavia, a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Quando tal afirmação é aceita e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, ou quando se adota uma legislação civil para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos" (Carta aos bispos Homosexualitatis problema, n.10).
Cabe lembrar que a Congregação para a Doutrina da Fé possui um documento em que fala sobre o assunto, na forma mais abrangente de legislações sobre "direitos homossexuais". O documento está disponível aqui.

Rezemos e ajamos para que mais esta confusão se corrija a tempo, antes de causar mais dano e escândalo entre os fiéis. Contamos com a ajuda dos leitores para a divulgação. Tendo comemorado no domingo passado a Festa de São Pedro e de São Paulo, rezemos para que a fé da Igreja mantenha-se firme e inabalável e os lobos não nos amedrontem, nem dispersem o rebanho do Senhor. 

São Pedro e São Paulo, rogai por nós!    

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