quarta-feira, 16 de julho de 2014

[FH] A aceitação da castidade como caminho de felicidade [I]

Parte 1 - a decisão é pela fé, não pelo sentimento

Matias Rimont 

Há mais de vinte anos, o Catecismo da Igreja Católica dá uma diretriz a sacerdotes e leigos sobre o a meta a ser cultivada pelas pessoas com tendências homossexuais. Porém, apesar dos milênios de ensinamento da fé e das décadas de sua aplicação explícita ao caso específico, parece que nós, fiéis, ainda não compreendemos o Catecismo.

Em alguns círculos corre o discurso de que a castidade deve ser abraçada pelos "homossexuais" pois é a única via de eles se sentirem felizes. Aparentemente, este parece ser o ensinamento da Santa Igreja ou, pelo menos, parece um discurso verdadeiro; entretanto, essa aparência de ensino e de verdade é enganosa pois distrai a atenção do ouvinte, da sua mentira que está nela incutida: que a decisão pela castidade deve ser tomada com base em sentimento.

Sentir-se alegre ou triste, irado ou tranqüilo, animado ou cansado, apaixonado ou indiferente, diz sobre o estado da alma: como ela está. Porém, o sentimento não diz quase nada sobre a bondade das coisas. Um homem corrompido pode se alegrar com a trapaça e entristecer-se com a justiça, irar-se contra seus deveres e ficar tranqüilo com a negligência, animar-se para a destruição e estar cansado para construir, apaixonar-se a ponto de trair e ficar indiferente em relação ao sofrimento alheio. Nosso Senhor denunciou muitas vezes que o mal nasce dos corações: "Porque do coração procedem maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias. São estas as coisas que contaminam o homem" (Mt 15,19-20). Por isso precisamos de conversão.

A decisão pela castidade precisa ser, sobretudo, baseada na fé em Deus. Primeiramente, porque não queremos ofender a Deus com nossos pecados. Segundo, porque queremos agradar-Lhe com nossas virtudes e boas obras. A base da nossa decisão deve ser a fé porque falta-nos em algum grau o convencimento da inteligência e da vontade.

Descobrir quais são os males da vivência prática da homossexualidade demanda e exige tempo de estudo, leitura e meditação e também, diria, uma auxílio sobrenatural do Espírito Santo; ainda assim, haverá sempre perguntas por responder, de maneira que uma decisão, que poderia ser tomada com uma boa catequese, retarda-se por anos com uma investigação que poderá nunca chegar a um término. Ademais, contra os esforços da inteligência, estão os prazeres que atraem o consentimento da vontade e muitos esperam, enganados, que só poderão optar eficazmente pela castidade ou quando as práticas homossexuais lhes parecerem repulsivas, ou quando deixarem de sentir qualquer desejo sexual. Essas dificuldades são as que, cabe notar, aparecem no início da vida espiritual e já são muito numerosas. Mais difíceis são o convencimento da inteligência sobre a bondade do plano de Deus para a sexualidade - assunto que já consumiu de homens os estudos duma vida inteira - e a conversão da vontade para que encontre seu prazer e sua satisfação nas coisas espirituais, em Deus.

Então, convém que nossa decisão primeira e fundamentalmente baseie-se na fé, na confiança em Deus. Àquele, porém, que deseja conhecer as razões da Lei de Deus, seus benefícios e contra quais males previne, tenho algumas advertências:
1. Adão e Eva tinham o conhecimento da Lei de Deus infuso nas suas almas. Eles não eram os legisladores, mas sabiam das leis d'Aquele que é o legislador. Conviviam com o próprio Deus e aparentemente sabiam do Seu amor. Porém, o conhecimento de Adão e Eva não os impediu de desconfiar de Deus e pecar por vaidade e desobediência. Também a sabedoria de Salomão, o homem mais sábio, não o conteve de ser seduzido pela luxúria e depois subjugado pela idolatria.

2. O conhecimento da Lei persuade a inteligência, mas não garante a conquista da vontade. Tanto é assim que a malícia do coração desculpa-se com o recurso da ignorância e, mesmo depois de apresentada à verdade, desvia-se pelas bordas à procura de atenuantes, exceções, ambigüidades suscetíveis de controvérsia. Esta é a luta espiritual desde a Queda: converter-se, abandonar as posturas de desconfiança e protesto contra Deus e, ao invés delas, assumir as atitudes de confiança em Deus e aceitação d'Ele.
Alguns, porém, dirão que não se sentem atraídos pela castidade quando ouvem o discurso sobre o pecado, o sofrimento e a cruz. A situação atual, desculpam-se, exige que a Igreja fale dos muitos proveitos de viver castamente, dentre eles a alegria da presença de Deus, o sentido para a vida e o carinho das amizades dentro da comunidade, das pastorais, dos movimentos. O que dizem tem alguma verdade e a Igreja Católica, de fato, instrui desde sempre a mostrar aos pecadores as vantagens e os benefícios das virtudes, pois, de fato, elas nos beneficiam de muitos modos. Assim, é verdade, a castidade permite o domínio sobre si mesmo, a paz de consciência, a "deserotização" dos interesses e dos pensamentos -- daí mais abertura a ver o mundo em sua beleza própria --, a clareza da visão de si mesmo e dos próprios problemas -- que antes ficavam encobertos pelos vícios --, entre muitos outros. Porém essas razões são dadas em acréscimo e não podem substituir a razão principal: devemos ser castos porque Deus nos ordenou a viver assim. Este é o Sexto Mandamento da Lei Divina, que a Santa Igreja sempre ensinou como "Não pecar contra a castidade".

O perigo de manter-se ensinando a decidir pela castidade com base em sentimentos e vantagens, ignorando a fé e os Mandamentos, é que nós assentemos nossa decisão em bases frágeis. Assim como é provável que larguemos uma fé que não fale à realidade e não mostre benefícios, assim também é provável que, mudando-se os sentimentos e as vantagens, mudemos também nossa decisão - basta que a prática homossexual pareça mais crível, mais prazerosa, mais confortável, mais vantajosa.

Então, se queremos decidir pela castidade, devemos fazê-lo porque cremos em Deus e no Seu amor por nós. Confiar em Deus é imprescindível. Afinal, amando-nos no extremo da cruz, sacrificando a própria vida por nossa salvação, como poderia, depois de pagar tão alto preço, nos propor algo que nos prejudicasse ou pusesse a perder? À luz do amor de Deus, o mandamento de viver castamente devia ser facilmente aceito por nós, não apenas como uma ordem para praticar o bem, mas também como um conselho de alguém que nos ama e está realmente interessado no nosso bem.

Na verdade, a maior dificuldade que nós temos não é entender as razões de Deus, mas sim confiar no Pai. "Por que Ele deixou isto acontecer comigo?", "Ele não vê meu sofrimento?", "Como pode cobrar de mim tantas renúncias e sacrifícios?", "Onde Ele está? Esqueceu-se de mim?"... estas perguntas, que acompanham todo ser humano, ganham para muitos com tendência homossexual o sabor amargo de uma experiência recorrente: a decepção com a paternidade humana e divina, de certa forma. Nem todos nessa situação tiveram mau relacionamento com o pai, porém mesmo eles experimentaram alguma decepção com o masculino. As mulheres não são exceção. Precisamos, então, resolver esta desconfiança (para tanto, sugiro esta leitura). 

Na medida em que crermos e confiarmos em Deus, poderemos, então, frutuosamente buscar as razões da Lei de Deus. Os hábitos da leitura e da meditação serão necessários, certamente. A atitude de confiança se somará à de espera. Deus nos dará a compreensão na medida certa, de acordo com o progresso espiritual, rumo à santidade. Pode ser que este ou aquele ponto fique ainda obscuro, mas, persuadidos do amor de Deus, confiamos e aguardamos que Deus, algum dia, senão aqui então no Céu, revele-nos mais de Si mesmo e dê-nos a conhecer a verdade e a beleza da Sua Lei e das Suas obras. Enquanto aguardamos confiantes, nós nos antecipamos em praticar a Lei e, por isso, vivemos em castidade. 

...continua

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