quinta-feira, 14 de agosto de 2014

[Esp] Em que consiste a verdadeira felicidade da nossa vida

Atualmente é recorrente o alarido de um discurso que diz que as pessoas homossexuais devem dar vazão aos seus instintos intrinsecamente desordenados (cf. CIC § 2357) e praticar o pecado, alegando que elas têm direito a serem felizes. De fato, a Igreja ensina e sempre ensinou, que todos os homens foram criados por Deus e destinados à felicidade, no entanto, essa felicidade, a verdadeira, só encontramos realmente em Deus e nos relacionando com Ele (cf. CIC § 27).  São Gaspar Bertoni, nos seus escritos, fala sobre essa busca da felicidade, busca essa que está inscrita no coração de cada homem e afirma que, alcançá-la verdadeiramente só é possível vivendo uma vida de virtudes e união com Deus. 



A verdadeira e única alegria do coração é fim e objeto querido e agradável todos igualmente. Aos que vivendo em perfeição seguem Cristo, e àqueles que ainda escravos da vaidade amam o mundo. Com uma única diferença, porém, que onde os primeiros acertam a eleição prudente dos meios, os segundos erram bisonhamente e com grande prejuízo. Qual é, pois, o verdadeiro caminho para atingir a verdadeira alegria?

A felicidade do mundo é coisa vã

Antes, vejamos o caminho dos mundanos. Eu penso que por juízo comum do mundo toda delícia, toda alegria consista naqueles bens seculares já enumerados pelo salmista, isto é, saber falar bem das coisas do século e ter aptidão para conduzi-las; arrebatar ou comprar honrarias, e debaixo de um falso preço enriquecer; gloriar-se nos florescentes anos da própria juventude; estimar a beleza do corpo, orná-lo, enfeitá-lo quase como um templo; ter cheios e abarrotados os celeiros; nutrir gordos e fecundos os rebanhos nos estábulos; as terras, os palácios bem ordenados e bem fornecidos de tudo; nada de prantos, de luto, de gemidos, mas no curso próspero de sua felicidade não ser perturbado por nenhuma adversidade; estas são as alegrias do mundo: "Feliz o povo agraciado com tais bens" (Sl 143, 9 -15).

Mas o Espírito do Profeta sabe quanto seja falsa essa opinião de felicidade e por isso, para desengano de todos, acrescenta logo a sua opinião: "Feliz o povo cujo Deus é o Senhor" (Sl 143,  15). Eis onde está a verdadeira fidelidade, enfim viver segundo Deus. Esta sentença é repetida nas Escrituras.

A verdadeira felicidade consiste na virtude

Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores. Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa lei. Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a lei do Senhor. Felizes os que caminham com pés imaculados no caminho dos mandamentos divinos. Felizes os que confiam em Deus. Feliz o homem que teme o Senhor” (cf. Sl 1, 1; 93, 1; 2,13; 111,1).

E assim não se encontra nas sagradas Escrituras ser chamado de feliz quem é muito rico, quem é resplandecente por nobreza de nascimento ou de amizades, quem é circundado de glória, quem vive em comodidades e delícias; mas antes encontramos chamados de felizes no Evangelho os humildes, os mansos, os que choram, que padecem perseguições por causa da justiça (cf. Mt V, 3, 4, 5, 10). Tanto é verdade que só a vida bem ordenada segundo a lei divina é feliz, e que só a virtude - embora áspera e destituída de alegrias externas e de honras, mas circundada ainda de tribulações - é agradável, contente, alegre.

A verdadeira felicidade consiste no testemunho da consciência tranquila

Se vocês olharem os frutos de algumas árvores, são de cor e aparência indeterminadas; se vocês os provarem são deliciosos ao paladar; porém a raiz da qual provém tanta beleza e doçura jaz debaixo da terra feia aos olhos, muito amarga para o gosto.

Assim - diz São João Crisóstomo - a tristeza de quem vive segundo Deus é para produzir suavíssimos frutos de alegria. Sabem muito bem, por experiência, os que se afligiram por algum tempo para arrepender-se das próprias faltas, e choraram com muitas lágrimas na oração diante de Deus. Purificaram sua consciência; e quem sabe dizer a alegria que daí provém? "Esta é a nossa consolação, o testemunho da boa consciência" (2Cor 1, 12). E em outro lugar a Escritura compara a alegria de uma boa consciência com um "perpétuo festim" (Pr 15, 15).

Da consciência bem limpa surge a boa esperança. E se os que esperam ser herdeiros de muito dinheiro, ou de rica posse, ou de algum principado, são tão alegres na sua esperança: quanto mais não deveria ser a alegria de uma alma que espera com bem fundada confiança a herança de um reino eterno, celeste! Se pois esta alma eleva os olhos para o céu, e a Fé lhe mostra as grandes honras, as sobre humanas riquezas, as puríssimas alegrias daquela pátria feliz, a Esperança logo no seu coração responde: E estes bens são tidos para mim, aliás são meus. Quanto conforto! Quanto júbilo! Quanta exultação!

A verdadeira felicidade perdura também na falta de toda alegria terrena.

Se nós mantivermos bem em ordem nossa vida, gozaremos também uma doce, tranqüila, perpétua alegria, que nem mesmo as tribulações externas no-las poderão tirar, mas que permanecerá sempre igual mesmo na falta de toda alegria terrena. Pois já não são as coisas fora de nós, ou prósperas ou adversas, que nos consolam ou nos afligem, mas sim as internas disposições do espírito.

E como quem tem o corpo enfermo ou febricitante, quer repousem em macios leitos, ou sentem em tronos preciosos, ou passeiem por jardins amenos, ou sentem se em mesas lautas com músicas suaves, daí não tira alegria, mas tristeza; enquanto quem tem saúde dorme feliz mesmo sobre duro colchão, mesmo numa mesa pobre come com sabor e com gosto; assim também é na alma e muito mais; assim se quisesse viver alegre, como se estivesse são, estando doente, não posso: mas posso bem curar a alma a fim de alegrar-me. [...]

Sigamos a virtude, se desejamos ardentemente a verdadeira alegria.

Harmonizemos bem nossa vida, e jamais nos faltará uma sólida, estável alegria, que as adversidades do mundo não nos poderão nem tirar nem diminuir. Limpemos bem a nossa consciência, e com este bom testemunho não só viveremos dias tranquilos, pacíficos, alegres, mas mesmo no terrível momento da morte - no qual a vã alegria do mundo se transforma em luto assustador - não tendo nós que temer, se robustecerá a nossa segurança, a nossa alegria será redobrada. E aos breves e felizes anos passados aqui na terra, se ajuntarão séculos eternos de total alegria na própria satisfação de Deus.


[BERTONI, Gaspar (São). Páginas de Vida Cristã.[S.l]: Estigmatinos, 2005, p. 15-19.]

Um comentário:

  1. Incrível...
    Sei bem o que é buscar essa felicidade, por isso que, mesmo com meu tempo sendo quase todo usado para trabalho e faculdade, não abro mão do pouco tempo que tenho para servir a Deus e me alegrar na presença dele!

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