terça-feira, 16 de junho de 2015

[Esp] Posso me santificar tendo atração pelo mesmo sexo?

[Muitas pessoas com atração pelo mesmo sexo se perguntam: como posso me santificar tendo AMS? É impossível, isso não está nos planos de Deus, tenho de eliminar essa atração de qualquer maneira, ou nunca me salvarei. Ou então afirmam a si mesmos que já estão condenados, e que de nada adiantam os esforços para não praticar os atos decorrentes dessa inclinação desordenada. Nada é mais falso do que pensar dessa maneira.

Seremos perfeitos apenas no céu. Deus não prometeu a ninguém estar livres das cruzes desta terra, das imperfeições, das más inclinações. O que ele nos pede, e para isso nos dá sua graça, é que batalhemos contra nossas más tendências constantemente, sejam elas quais forem, até o dia de nossas mortes e comparecimento perante Ele. São Paulo, como ele mesmo descreve, pediu a Deus para tirar um espinho de sua carne, mas Deus não o fez. “Demais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.” (II Cor 12, 7-9).

O seguinte texto, de um santo padre jesuíta do século XVIII, mostra como a santidade é possível e fácil para todos, com atração pelo mesmo sexo ou não, se não complicarmos o verdadeiro trabalho de santificação de nossas almas. Nunca ouviu falar de santos que tivessem atração pelo mesmo sexo? Ora, há fatos que ficam no passado da vida dos santos e não são publicamente revelados. Não há limites para o poder de Deus, e dizer que a atração pelo mesmo sexo é empecilho seria limitar o divino poder. Sejamos santos como o Pai é santo!]



Como a santidade se tornaria fácil,

se fosse considerada deste ponto de vista



Se a obra da nossa santificação nos oferece dificuldades tão insuperáveis na aparência, é porque não temos dela uma idéia exata. De fato, a santidade se reduz toda a uma só coisa – a fidelidade à vontade de Deus. Ora, essa fidelidade está ao alcance de todos, tanto na sua prática ativa como no seu exercício passivo.

A prática ativa da fidelidade consiste no cumprimento das obrigações que nos são impostas, quer pelas leis gerais de Deus e da Igreja, quer pelo estado particular que abraçamos. E o exercício passivo consiste na aceitação amorosa de tudo o que Deus nos envia a cada instante.

Destas duas partes da santidade, qual é a que está acima das nossas forças? Não é a fidelidade ativa, pois as obrigações que ela nos impõe cessam de ser obrigações desde que o seu cumprimento excede realmente as nossas forças. O estado de saúde em que vos encontrais não vos permite ir assistir à Missa? Não estais obrigados a ouvi-la. E o mesmo se diga de todas as obrigações positivas, isto é, daquelas que nos prescrevem o cumprimento de algum ato. Só as que nos proíbem de fazer coisas que são más em si mesmas é que não sofrem exceção alguma, pois nunca é permitido fazer o mal.

Haverá, portanto, coisa mais fácil e mais razoável? Que desculpa é que poderemos alegar? Ora, é precisamente isso o que Deus exige da alma, no trabalho de sua santificação. Exige-o aos grandes e aos pequenos, aos fortes e aos fracos: numa palavra, a todos, em todo o tempo e em todo o lugar. Por conseguinte, é muito verdade que não exige da nossa parte senão o que é possível e fácil, pois basta possuir esse fundo tão simples para chegar a uma santidade muito elevada.

Se para além dos mandamentos nos aponta os conselhos como alvo mais perfeito para o qual havemos de tender, tem, contudo, o cuidado de acomodar a prática desses conselhos à nossa situação e ao nosso caráter. Como sinal principal da nossa vocação para os seguir, dá-nos os auxílios da graça que nos facilitam a sua prática. Nem chama a ninguém senão na medida das suas forças e no sentido das suas aptidões. Mais uma vez ainda: poderia imaginar-se alguma coisa mais razoável?

Ó vós todos que tendeis à perfeição e vos sentis tentados de desânimo à vista do que ledes nas vidas dos santos e do que certos livros de piedade vos prescrevem; ó almas que vos afligis a vós mesmas com as idéias terríveis que tendes da perfeição; é para vossa consolação que Deus quer que eu escreva estas palavras.

Aprendei, pois, o que pareceis ignorar. Esse Deus de bondade tornou fáceis de adquirir todas as coisas necessárias e comuns na ordem natural, como o ar, a água e a terra. Nada mais necessário do que a respiração, o sono e o alimento; mas nada também mais fácil. O amor e a fidelidade não são menos necessários na ordem sobrenatural; por isso a dificuldade em os alcançar não deve ser tão grande como no-la representamos.

Reparai na vossa vida. De que é que se compõe? De uma série de ações de bem pouca monta. Ora, dessas coisas de tão mesquinha importância é que Deus se digna contentar-se. Essa é a parte que toca à alma no trabalho da perfeição. E para que não pudéssemos ter disso dúvida, quis explicar-no-lo bem claramente: “Temei a Deus e observai os seus mandamentos; isso é convosco”. Quer dizer: eis tudo o que o homem deve fazer pela sua parte, eis em que consiste a sua fidelidade ativa. Cumpra o homem o que lhe toca, e Deus fará o resto. A graça divina reserva para si mesma a realização de maravilhas que ultrapassam toda a inteligência do homem. Porque nem os ouvidos ouviram, nem os olhos viram, nem o coração sentiu o que Deus concebe na sua idéia, resolve na sua vontade e executa pelo seu poder, nas almas que a Ele se abandonam.

A parte passiva da santidade é ainda muito mais fácil, pois não consiste senão em aceitar o que na grande maioria dos casos não se pode evitar; e em sofrer com amor, isto é, com suavidade e consolação, o que tantas vezes se suporta com aborrecimento e desgosto.

Mais uma vez ainda: eis a santidade toda inteira. Eis o grão de mostarda, cujos frutos não recolhemos porque não sabemos reconhece-lo na sua insignificância. Eis a dracma do Evangelho, o tesouro que não encontramos porque o supomos muito afastado para o ir buscar.

Nem me pergunteis qual é o segredo de encontrar este tesouro. Porque verdadeiramente não há segredo. Este tesouro está em toda a parte, e a todos se oferece em todo o lugar e em todo o tempo. As criaturas amigas e inimigas dão-no-lo a mãos cheias e fazem-no correr pelas faculdades do nosso corpo e alma, até ao mais fundo do nosso coração. Basta abrir a boca, e ficará repleta.

A ação divina inunda o universo, penetra todas as criaturas, sobrenada acima de todas, está em toda a parte onde elas estão; adianta-se a elas, acompanha-as, segue-as; não temos senão que nos deixar levar pelas suas ondas.

Prouvera a Deus que os reis e seus ministros, os príncipes da Igreja e do mundo, os sacerdotes, os soldados, os patrões e os operários, numa palavra, todos os homens, conhecessem quanto é fácil atingir uma santidade eminente. Para eles não se trata senão de cumprir os simples deveres do cristianismo e do seu estado, e abraçar com submissão as cruzes que lhe estão inerentes, e submeter-se com fé e amor à vontade da Providência, em tudo o que se lhes apresenta para fazer ou sofrer, sem mesmo o buscarem.

Esta espiritualidade foi a que santificou os profetas, muito antes de que houvesse tantas regras e tantos mestres. É a espiritualidade de todas as idades e de todos os estados, que certamente não podem ser santificados de maneira mais elevada, mais extraordinária e mais ao nosso alcance, do que realizando simplesmente o que Deus, soberano diretor das almas, lhes dá em cada momento a fazer ou sofrer.


(extraído do Capítulo III do livro "O abandono à Providência Divina", do Padre Jean Pierre de Caussade, S.J.)

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