segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

[Esp] A castidade é possível? - parte I

Livre tradução de "Is chastity possible?", de T. G. Morrow, presente no site do Courage. Como se trata de um texto longo, será publicado em duas partes.




Para responder nossa questão, precisamos considerar três perguntas: o que é a castidade exatamente? Que comportamento está implicado na castidade cristã? E, como alguém vive a castidade?

O que é a castidade?

O que é a castidade? Acompanhando Tomás de Aquino e Aristóteles, nós podemos definir a castidade como a moderação habitual do apetite sexual conforme à reta razão. Note-se que não é somente a moderação do comportamento, mas dos mais simples desejos que levam ao comportamento sexual. Note-se, também, que a norma é a “reta” razão, i. e., a razão em conformidade com a Lei Eterna de Deus e não, meramente, uma razão mundana, que vê como “razoável” qualquer sexo que evita gravidez indesejada ou doenças.

O que é um comportamento casto?

Então, para que tipo de comportamento nos chama a castidade cristã? Em primeiro lugar, observamos as palavras de Jesus no Evangelho: “Porque é o interior do coração dos homens o lugar de onde procedem os maus pensamentos: devassidões, roubos, assassinatos, adultérios, cobiças, perversidades, fraudes, desonestidade, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem.” (Marcos 7, 21-23; ver também Mateus 15, 19s). Acrescenta ainda São Paulo: “... sabei-o bem que ninguém que seja indulgente com a fornicação, com a impureza ou com a promiscuidade... pode herdar o Reino de Deus” (Carta aos Efésios 5, 3-7; ver também Carta aos Gálatas 5, 19-21). [Fornicação é qualquer relação sexual voluntária entre uma pessoa não-casada e outra pessoa não-casada do sexo oposto].

Então, a Escritura é bem clara a respeito do sexo extraconjugal. Alguns buscam racionalizar seu caminho a esse respeito, mas isto acaba sendo uma recusa do ensinamento de Cristo e de Sua Igreja. A recusa de um ensinamento bíblico é muito pior do que o pecado sexual cometido sem ter sido por fraqueza. O que dizer sobre a ignorância invencível? Que verdadeiro cristão poderia sem culpa desconhecer o código moral da Bíblia?

A Igreja Católica dá precisão a este tema bíblico: “O uso da função sexual tem sua verdadeiro sentido e retidão moral somente em um verdadeiro matrimônio”. (Declaração sobre a Ética Sexual, Congregação para a Doutrina da Fé, 1975, § 5*). No mesmo documento, § 10, nós encontramos o seguinte: “A ordem moral da sexualidade envolve valores da vida humana tão elevados que toda violação direta desta ordem é objetivamente grave”. Considerando este e outros ensinamentos da Igreja, é possível para nós concluir que qualquer excitação ou ato sexual voluntário fora de uma união conjugal normal (sem contracepção), entre um homem e uma mulher, é gravemente pecaminoso. Isto incluiria masturbação, fornicação, estímulos sexuais extraconjugais, adultério, atos homossexuais, e até mesmo pensamentos lascivos (Mateus 5, 28). Para nosso mundo sobrecarregado de sexualidade isto pode parecer ultrajante, mas os ensinamentos morais de Cristo sempre foram uma pedra de tropeço para o mundo. O mundo não tem lugar para a cruz.

Por que essas coisas são erradas? Em resumo, porque (1) o sexo é um símbolo do amor marital com recíproco compromisso (e os estímulos sexuais preliminares são uma preparação para o sexo) e (2) o sexo pode gerar filhos, que deveriam ser concebidos e criados dentro da estável comunidade de amor do matrimônio.

*Mais precisamente: Cf. Persona Humana, Declaração sobre algumas questões de Ética Sexual, 29 de dezembro de 1975, final do § 5. Disponível em inglês e em italiano no site do Vaticano .

Como viver a castidade?

Como alguém vive a castidade? Como alguém desenvolve a virtude da castidade de modo que habitualmente viva a castidade sem qualquer dificuldade, ou, como Tomás de Aquino formulou, “com alegria, com facilidade e com prontidão”?

Como um fruto do Espírito Santo, a castidade não é, certamente, algo que se possa alcançar sem considerável esforço e oração. Os frutos de uma árvore aparecem por último e assim é com os frutos do Espírito Santo: eles requerem um bom plano de cultivo por meio da graça de Deus. Assim, para começar a viver a castidade no nosso mundo, requer-se uma vida espiritual forte. Para qualquer um que espera alcançar essa virtude, parece essencial ter quinze minutos de meditação diária (o terço ou a meditação dos Evangelhos), mais ir à missa frequentemente e receber os sacramentos.

Mas existe algum método de que se possa valer para usar com mais eficácia a graça recebida das práticas espirituais a fim de crescer na castidade?

Sim, existem. Deve-se começar observando com Aristóteles e Tomás de Aquino (Suma Teológica I, q.83, a.3) que o apetite sexual escuta não apenas a razão, mas também os sentidos e a imaginação. Então, primeiramente, deve-se ter cuidado com o que se vê ou assiste. Assistir filmes ou vídeos de sexo explícito, ou pornografia, ou dar atenção a pessoas do sexo oposto vestidas de modo provocante é venenoso para aquele que busca a castidade. O pior de tudo é fazer uso de materiais pornográficos, uma vez que a pornografia apresenta o sexo como algo meramente recreativo, como também apresenta homens e mulheres como meros objetos de prazer. Ambas as coisas são mentiras terríveis.

A imaginação é outra área potencialmente perigosa. Quando alguém fica cônscio de um pensamento impuro, deve imediatamente tentar abafar esse pensamento com outro mais vivo, como um jogo de bola, um bonito pôr-do-sol, entre outros. Ademais, deve-se seguir o conselho de São João Vianney de fazer o sinal da cruz para afastar a tentação e, como Santa Catarina de Siena, dizer repetidamente o nome de Jesus no coração (modo como ela repeliu uma série de tentações torpes). Um pensamento impuro inesperado não é pecaminoso, porém, uma vez que a pessoa deseja a sua continuação, o pecado entra e, como Jesus disse, pode-se pecar seriamente no coração.

Ademais, uma vez que existam vozes [interiormente] competindo pelo controle do apetite sexual, a razão lidar com o apetite “despoticamente”, dizendo simplesmente “não” ao apelo do apetite, não funcionará. Se funcionar, isso reprimirá o apetite no inconsciente, onde estará à espera de uma chance para explodir (Papa João Paulo II, em Love and Responsibility, Ignatius Press, p. 198). No momento de fraqueza, o apetite explodirá de fato com um acesso de atividade sexual. Isto é verificado em pessoas que se contém por semanas seguidas, mas que, então, vão para a farra e repetem esse ciclo de novo e de novo.

O intelecto deve agir “politicamente” com o apetite, reforçando os valores que serão ganhos por meio de uma vida de castidade, para compensar o valor do prazer sexual que é sacrificado.

Fonte: http://www.couragerc.net/chastity.html.

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