domingo, 27 de novembro de 2016

[Esp] Primeiro Domingo do Advento

O santo tempo em que entramos é consagrado, segundo os desígnios da Igreja, a fazer-nos meditar as três grandes vindas do Salvador à terra: a primeira na humildade do presépio, para nos salvar; a segunda no esplendor da glória, no último dia, para nos julgar; a terceira ao âmago dos nossos corações pela sua graça, para nos santificar. Depois dessas três considerações tomaremos a resolução: 1 – de entrar em uma nova vida de contemplação e de oração, própria do tempo do Advento; 2 – de ter um especial cuidado na perfeição de cada uma das nossas ações comuns, o que será o melhor modo de santificar este tempo. O nosso ramalhete espiritual será a palavra de S. Paulo: Eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação (II Cor. 6, 2).




Adoremos o Espírito de Deus inspirando à Igreja a instituição do Advento para nos preparar para a festa do Natal, de que todo este tempo é como que a vigília, diz S. Carlos; vigília, observa este santo Cardeal, que não deve parecer muito longa a quem aprecia a excelência da festa para que nos prepara. É com este intuito que a Santa Igreja invoca o céu, dizendo: Enviai, Senhor, a vossa graça a fim de dispor os nossos corações; e que nos diz na seguinte epístola de S. Paulo: É já a hora de vos levantardes do sono, porque está perto o nascimento do Salvador (Rom. 13, 11). É com este mesmo intuito que ela substitui as vestiduras de festa pelas de penitência, as suas orações ordinárias por orações especiais e mais longas; e que, onde pode, chama para os seus púlpitos pregadores extraordinários, que mais facilmente movam os corações. Entremos de todo o nosso coração no espírito da Igreja durante este santo tempo.


Primeiro ponto


Para que meditar de um modo especial,

durante o Advento, o mistério de um Deus encarnado?




É da parte da Igreja uma profunda sabedoria não nos conduzir de repente ao presépio de Belém, mas nos mostrar de alguma maneira com o dedo um mês antes, para nos dizer: Preparai-vos a sairdes ao encontro do Divino Menino (Is. 11, 3). Refleti seriamente neste grande mistério que, depois de estar estado oculto nove meses no seio de Maria, vai oferecer-se à devoção do mundo no dia de Natal. Preparai-lhe no vosso coração, pela meditação, uma fé mais viva nas suas perfeições, uma profunda devoção para com a sua majestade abatida, um amor reconhecido para com a sua caridade de tão alto descida tão baixo, uma verdadeira humildade para louvar as suas humilhações, uma brandura de caráter e de palavras em relação com a sua incomparável benignidade, um espírito de penitência e de contemplação, que não contraste com a austeridade do presépio e com as santas ocupações do Divino Menino. Se não preparardes assim os vossos corações por uma séria meditação do mistério do Verbo Encarnado, perdereis as graças anexas a esta solenidade. Evitemos semelhante desgraça, começando desde hoje a nos ocupar deste mistério e entrando em nova vida.

Segundo ponto


Para que meditar de um modo especial,

durante o Advento, a vinda do Senhor para nos julgar?




Sem dúvida, devemos nos lembrar todos os dias da nossa vida deste grande juízo que há de terminar o mundo, e dizer conosco a cada ação: Depois disto o juízo (Hb 9, 27). Todavia a Igreja, julgando este pensamento eminentemente útil para nos incutir os sentimentos de fervor próprios do santo tempo do Advento, convida-nos a meditar nele com a narração do juízo final, que nos faz ler no Evangelho. É dever nosso nos conformar com a sua intenção, crer com viva fé neste grande dia, tão consolador para os bons, que nele receberão a recompensa das suas virtudes, tão terrível para os pecadores, que nele receberão o castigo dos seus erros; e ouvir, como S. Jerônimo, a voz da trombeta que a ele nos chamará. Tomara que esta voz retumbe no fundo do nosso coração durante todo este santo tempo para nos fazer tremer diante só da aparência do mal, e nos ensinar a praticar tudo o que é bem.

Terceiro ponto


Porque meditar de um modo especial, durante o tempo do Advento,

a vinda do Salvador aos nossos corações pela sua graça?




É porque esta vinda é o meio especial pelo qual se comunicam à alma as graças do mistério do Natal. Jesus Cristo, nesta grande festa, não nasce corporalmente como em Belém, mas nasce espiritualmente pela sua graça nas almas bem dispostas. Vive nelas pelo seu espírito, e pelos sentimentos que nos inspira, pela sua humildade, sua mansidão, sua caridade, e por todas as virtudes que nos comunica. Ó vida de Jesus em nós, quão necessária sois para nós! Só vós, ó meu Deus, podeis restituir à nossa alma desfigurada pelo pecado a sua primeira beleza; só vós sois a nossa salvação, a nossa força, a nossa consolação; sem vós, a nossa pobre alma perece como a planta sem água. Nós somos enfermos que não podemos ser curados senão por vós; homens caídos que não podemos ser levantados senão por vós. Mostrai-nos os vossos divinos atrativos, que enlevam as almas; e cativados dos vossos encantos, recobraremos a flor perdida da nossa inocência. Obtemos este nascimento e esta vida da graça em nós: 1º - à força de orações fervorosas, inspiradas pelo sentimento da necessidade que dela temos; 2º - à força de vigilância para ouvir a graça que não pede senão para falar-nos; 3º - à força de generosidade para lhe obedecer, e de abandono simples e cheio de amor ao seu procedimento. São estas as nossas disposições?


(extraído das Meditações para todos os dias do ano, do Padre M. Hamon)


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