sexta-feira, 4 de novembro de 2016

[Esp] A vitória sobre si mesmo - a mortificação (I)



Nossa primeira meta, a castidade, não se consegue ou vive da noite para o dia. A castidade é um dom de Deus, mas também uma virtude a ser conquistada. Ela é fruto da temperança, e apenas na generosidade do combate diário contra as tentações e também na vivência plena da caridade é que poderemos alcança-la. Mas que meios utilizar? Um deles é algo que soa de maneira estranha aos ouvidos modernos, afeitos que estamos ao conforto: a mortificação. Iniciamos aqui a publicação de uma série de textos extraídos do livro A vida espiritual reduzida a três princípios, um clássico de autoria do Padre Maurício Meschler, S.J., que nos ajudarão a entender e a praticar a vitória sobre nós mesmos.


EM QUE CONSISTE

A VITÓRIA SOBRE SI MESMO



 

A vitória sobre si mesmo denomina-se também mortificação. É o que assusta desde logo. Ora, a pior das coisas é as­sustar-se alguém sem saber por quê, e o melhor meio de readquirir a tranqüilidade é verificar ser a imaginação a única causa de nossos terrores. O mesmo se dá com essa virtude: basta vê-la de perto, para com ela nos reconciliarmos.

1. Que é, pois, a mortificação? É a compressão moral, o esforço a que cum­pre recorrermos, se quisermos viver segundo a razão, a consciência e a fé; é a energia de que precisamos, para proceder em conformidade com o dever, a fim de sermos o que devemos e queremos ser: criaturas racionais, capazes de compreender nossa dignidade de homens. A necessidade de empregarmos a compressão, para atingir esse fim, é uma das consequências do pecado original; e continua atestação da queda primitiva. Antes, não era questão nem de dificuldades nem de sofrimento. Depois, as coisas mudaram. E, em razão da violência que devemos exercer contra nós mesmos, esse trabalho pessoal toma diferentes denominações: vitória ou domínio sobre si mesmo, re­núncia, mortificação, ódio de si próprio, ­outras tantas denominações que designam uma coisa única e que estão de acordo com a linguagem da Sagrada Escritura. Despertam a idéia de combate, de privação voluntária, de esforço contínuo; e esse pensamento não deixa de causar, ao espírito, certo mal-estar. A dificuldade não provém somente da coisa, em si mesma, a qual, na essência, devemos desejar e apreciar, mas sobretudo de nossa natureza, atualmente enfraquecida e que importa corrigir.

2. Qual é, propriamente, o objeto desse combate? Que inimigo devemos atacar e vencer? Desde já podemos afirmar que não é a nossa natureza. Não a criamos e não é propriedade nossa: pertence a Deus que dela nos deu o uso, mas não o direito de arruiná-la. Nossas faculdades naturais não podem constituir, tampouco, o objeto da mortificação. Delas temos necessidade para viver e operar. É do nosso maior interesse mantê-las efetivas e perfeitas. Serão porventura as paixões a mira desse combate? Também não, porquanto, consideradas em si mesmas, elas são boas, ou, pelo menos, indiferentes, e constituem o apanágio indispensável de nossa natureza: somente o abuso as torna nocivas. Em si, nenhuma dessas causas constitui, pois, o objetivo da mortificação: o que devemos combater é unicamente a desordem, o desregramento que nelas possam existir.


Ora, desregrado, desordenado, é tudo o que vai de encontro ao nosso fim, que nos faz desviar dele, nos põe em risco de perdê-lo ou de nada lhe aproveita. Logo, é desordem todo e qualquer pecado; desordem, o perigo a que nos expomos, sem necessidade; desordem, as inutilidades que não encontram justificativa diante da razão, da consciência e da fé. Tal é o objeto da mortificação, e o único propriamente dito. Eis o que importa combater e dominar se quisermos viver de vida racional e pura.

3. O escopo da mortificação está, pois, nitidamente definido. Não é dificultar a natureza e muito menos oprimi-la, prejudicá-la e arruiná-la; ao contrário, é ajudá-la, guiar-lhe os passos, melhorá-la e dar-lhe força, vontade e perseverança pa­ra o bem. É reconduzi-la, tanto quanto possível, à pureza, a justiça, a santidade de origem; finalmente, é torná-la cada vez mais apta para utilizar suas faculdades, empregando-as no serviço de Deus e do próximo.

O constrangimento, a violência, o mal-estar, inerentes a mortificação, não podem ser o alvo que visamos. Não nasceu o homem para sofrer, mas para gozar, na alma e no corpo; foi o pecado a causa única da mutação que sobreveio. O sofrimento é, pois, uma circunstância acidental; não constitui um fim, porém, o simples meio de alcançar a vitória e a paz. Aliás, a sensação penosa vai-se atenuando na razão direta da energia e perseverança desenvolvidas durante o combate.

4. Para melhor compreendemos a importância da mortificação, faz mister con­siderar o lugar que ela ocupa na hierarquia das virtudes e a qual delas se acha mais intimamente ligada. A falar a verda­de, ela intervém em todos os casos onde for preciso recorrer à força e à energia. Não obstante, aproxima-se sobretu­do das virtudes de temperança e de for­taleza: da primeira quando se trata de reprimir as desordens de qualquer paixão; da segunda, se for necessário empregar o valor e a perseverança num empreendimento de difícil execução.

Eis, pois, o que é a vitória sobre si mes­mo. Dadas as circunstâncias, é ela o que há de mais simples e natural. Demanda, ape­nas, que sejamos o que devemos e queremos ser, porquanto exige que nos demos ao trabalho de viver como criaturas racionais, em nobre integridade digna de cristãos.



S. Inácio diz, excelentemente, no livro dos Exercícios, que o resultado da mortificação deve ser um absoluto domínio sobre nós mesmos a tal ponto que nunca nos deixemos arrastar por uma paixão desregrada. Ligar-lhe outra importância, que não esta, é fantasia e só serve para fazê-la cair em descrédito. É das idéias falsas e errôneas que se origina, em grande parte, a aversão essa virtude.

A mortificação nos aparece como esse “leão postado no caminho” (Prov. 26, 13) de que falam as Sagradas Escrituras. Consideramo-la como instrumento de suplício destinado a torturar e imolar a nobre natureza humana que Deus criou para seu serviço. Nada disso. Importa, pois, formar idéias exatas, a esse respeito. É a resposta para dirimir quaisquer dificuldades.


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