domingo, 21 de outubro de 2018

[Esp] Meios para manter a castidade (II)


A MORTIFICAÇAO DO CORPO


O segundo meio que Jesus nos propôs no Evangelho é a mortificação: o “jejum”. Com esta palavra os mestres de espiritualidade sempre entenderam a mortificação do corpo e do espírito; a Igreja também; ela, no prefácio da Quaresma, explicando os benéficos efeitos do jejum, diz: “Reprime os vícios, alcança a virtude e torna-se fonte de muitos merecimentos.” Comecemos pela mortificação do corpo.
Os santos de todos os tempos sempre praticaram a mortificação corporal; não só os eremitas ou as ordens penitentes; praticam-na também todas as pessoas que querem viver como bons cristãos. O nosso corpo é como um cavalo desenfreado; ai se não lhe pusermos o freio!... Claro, nas coisas graves devemos ser prudentes e pedir conselho para não prejudicarmos a saúde, como também para não chocarmos a demasiada sensibilidade; por outro lado, porém, não devemos pensar que sejam coisas de antanho. Antes, até acho que são mais necessárias agora, porque os estímulos que aliciam ao mal são maiores. Aqui, contudo, eu vos quero falar da mortificação como meio para conservar a castidade. São Paulo afirmava: “Castigo o meu corpo e o reduzo à escravidão; não suceda que, depois de pregar aos outros, eu mesmo seja reprovado” (I Cor 9, 27). De fato, estas mortificações subjugam a carne e a concupiscência. Querer tratar a carne com delicadeza e pretender que não recalcitre, é tolice. “A carne tem desejos contrários ao espírito e o espírito contrários à carne” (Gl 5, 17). Se um vence, o outro é derrotado, e vice-versa.
Resultado de imagem para mortificação na comidaMortificação do gosto — Tratando da mortificação dos sentidos em particular, devo dizer-vos que a gula ataca a bela virtude com facilidade. As outras faltas de mortificação a desfiguram; esta, porém, a põe em perigo, porque se insinua de maneira fácil e, se não prestarmos atenção, concedemos-lhe muitas satisfações. A ação de comer avilta o homem; apesar disso, muitas vezes, perdemos não pouco tempo falando e pensando em comida; discorremos conosco mesmos se este ou aquele tipo de comida nos fez ou nos fará bem, etc... Não, “não só de pão vive o homem” (Mt 4, 4). Que a nossa mente, portanto, não se ocupe destas coisas, pois não trazem nenhuma beleza à alma, antes, põem em perigo a sua candura.
Quantas penitências praticava São Jerônimo em Belém! Apesar disto, as cenas que vira em Roma ainda lhe afloravam na mente e o perturbavam. Para vencer tais tentações, jejuava semanas a fio. Dubois conta que certo médico, competente e piedoso, costumava dizer: “Eu acredito na castidade dos sacerdotes e fico edificado; mas quando vejo que alguns são assíduos frequentadores de banquetes aos quais se convidam mutuamente, ou são convidados por leigos, maravilho-me como possam manter-se castos.” Portanto, é preciso mortificar-se no comer e no beber. O uso de licores, além de prejudicial à saúde física, é forte estímulo à incontinência. Assim o excesso de vinho. “O vinho leva à luxúria” (Ef 5,18).
Permiti-me agora que vos diga o que penso por experiência: o vício da gula é mais acentuado nas comunidades religiosas do que em casas particulares. O demônio tenta neste ponto para vencer em outros. Sem nos darmos conta da despesa de alimentação, sob o pretexto de nos conservarmos sadios e robustos, comemos mais que o necessário, procuramos coisas especiais e, quando doentes somos incontentáveis. Que tristeza para os superiores ver certos indivíduos muito preocupados com comida e nunca satisfeitos! Quanta “lenha” para o purgatório, ou talvez para o inferno!
Comer para viver e cumprir as próprias obrigações, não viver para comer. Não digo que se deva deixar o necessário, isso não, mas é preciso praticar muitas pequenas mortificações, como: contentar-se com o que oferecem, não fazer cara feia diante de comida não bem preparada, não comer com avidez, nem mais que o necessário etc.; estas são renúncias que passam desapercebidas, mas agradam muito a Nosso Senhor, ajudam-nos a santificar a ação de comer e a conservar-nos castos. Não poucos, por excesso de vinho, arruinaram-se espiritualmente. Felizes os missionários que não o têm, ou têm pouco! Quero que useis dele o menos possível. Tomai-o, sim, mas com moderação. Estas mortificações não prejudicam, antes, favorecem a saúde. O nosso corpo se manterá sadio na medida em que formos sóbrios. Alguns eremitas, apesar da penitência que praticavam, viveram cem anos e ainda mais!
Imagem relacionadaMortificação dos olhos — Por amor à castidade devemos mortificar também os olhos: “a soberba dos olhos” (1 Jo 2, 16). Quantos perigos, especialmente hoje, inclusive para vós nas missões, se não soubermos mortificar os olhos! Jó fizera um pacto com os seus olhos de não pensar em nenhuma mulher, nem mesmo virgem (Cf. Jó 31, 1). Notai o que diz: “Fiz um pacto com os meus olhos para não pensar” Eis aí a intrínseca relação dos olhos com a mente! É verdade que os olhos não pensam, mas são a porta da imaginação, são as janelas por onde penetra o pensamento. É preciso pactuar com o porteiro, para que não deixe entrar. Quem abre a porta ao ladrão, depois não se queixe de tê-lo em casa. Direis: “Afinal de contas, o que é dar uma olhada?!” Acontece que dos olhos ao pensamento, do pensamento ao desejo, do desejo à ação, a passagem é muito fácil e rápida. Se quisermos gozar de tranquilidade interior, devemos mortificar os olhos.
Não digo que devamos nos enclausurar entre quatro paredes, ou caminhar de olhos fechados... Quero que sejais desembaraçados, mas também modestos e mortificados. Não queirais ver tudo, não sejais curiosos, pois acontece com frequência que, entre mil coisas inócuas, amoita-se uma perigosa. Andando pela cidade, não é preciso olhar tudo: cartazes, revistas, etc. É uma curiosidade morbosa. Como fica mal ver certos padres postados diante das bancas de revistas e jornais! Dizem: “é só para dar uma olhadela!” Não, não fica bem; não fica bem para leigos, muito menos para sacerdotes. Às vezes, por causa de um olhar momentâneo, temos que aturar tentações pelo resto da vida. A Condessa Radicati, cega há vinte anos, dizia-me: “Não me compadeça; sou feliz porque tenho um perigo a menos de pecar.” Esta mortificação é muito importante, pois, do contrário, não é preciso que o demônio nos tente, nós mesmos nos tentamos.
Devemos mortificar os olhos sobretudo perante pessoas de outro sexo; com todas, sem exceção de virtude ou de parentesco. Todavia, entendamos bem: não se pode e não se deve evitar as mulheres, que são criaturas como nós; e nas missões, como já vos disse, deveis trabalhar juntos. Não gostaria que, por medo de ver uma freira, cometêsseis exageros. De São Luís narra-se o seguinte: apesar de permanecer longo tempo a serviço da rainha da Espanha como pajem, não sabia se era bonita ou feia; conta-se também que era muito reservado em olhar para sua própria mãe. São exemplos que não podeis seguir à risca, porém não devem ser ridicularizados. O que deveis fazer é isto: não fixar no rosto, mas olhar com simplicidade, com indiferença, como fazem as pessoas de olhos modestos. Ver sem olhar, olhar sem fixar.
Os antigos, para não ver, fechavam-se numa gruta do deserto; nós ao invés devemos conviver com o povo; porém, cumpre-nos mortificar os olhos. Recordo-me da grande impressão que me fazia o Padre Francésia, no Oratório de Dom Bosco: recebia e acompanhava a mãe, mas conservando sempre os olhos baixos. Nós, perante tal atitude, dizíamos: ‘’Que exagero!” Agora, porém, não falo mais assim, e lembro o fato em sua honra.
A fim de adquirir este domínio sobre os olhos é mister abster-se, algumas vezes (não digo sempre), de olhar para coisas lícitas. É bem verdade que os santos, perante uma flor, sabiam elevar-se até Deus, mas vez por outra pode-se deixar de olhar. Assim, por exemplo, não se abster somente de olhar para pessoas de outro sexo, mas também fazer o sacrifício de não olhar para um colega se não for necessário. Afinal, sacrificar um olhar não é o fim do mundo! Fazei este esforço. Não quero que vos crieis escrúpulos ou ponhais obrigações onde não for necessário, mas quem sabe ser mortificado em coisas lícitas, saberá vencer-se mais facilmente nas ilícitas. Quando se adquire o hábito da mortificação em coisas inócuas, depois sabe-se frear os olhos com mais presteza perante coisas ilícitas ou perigosas. Nosso Senhor, em paga desta generosidade, nos livrará de perturbações, quando os nossos olhos derem com alguma coisa perigosa. Ele dirá: “Fez o que não era de sua obrigação, por isso eu o ajudo no que é necessário.” Além disso, livramo-nos do vão temor de ter consentido, porque, como poderia cometer o ilícito se habitualmente me privo do que é lícito? Crede-me: quem se habitua a isso não só se defende com mais facilidade, como também receberá grandes consolações de Deus.
Resultado de imagem para mortificação do tatoMortificar o tato — “Nada é tão perigoso como o sentido do tato” — afirma São João Clímaco. O nosso corpo foi santificado no Batismo na Crisma e, para os sacerdotes, no sacramento da Ordem; santificam-no ainda as numerosas comunhões que recebemos. Deus e o Anjo da Guarda estão presentes, mesmo quando estamos a sós ou no escuro. À noite, ao deitar, lembremo-nos da presença do Anjo custódio; não olhemos para os outros, permaneçamos recolhidos, deitemo-nos com modéstia e compostura decente como se devêssemos morrer naquela mesma noite e como gostaríamos ser encontrados depois da morte.
No locutório deve-se tratar as pessoas com delicadeza, não resta dúvida, mas sem expansividade exagerada. No mais das vezes pode-se prescindir dos abraços e beijos. Não digo que seja pecado beijar a mãe, mas procuremos não distribuir beijos com demasiada facilidade... Também nisto há modo e modo; um santo teria certa reserva.
São José Cafasso, acordando-se durante a noite, levantava-se logo e não deitava mais, dizendo: “é sinal de que o corpo repousou suficientemente.” Vós não podeis e não deveis fazer isso; mas, quando custa pegar no sono, rezai, e não deis asas à fantasia. Mais ainda: de manhã, ao ouvirdes o primeiro toque da campainha, deixai prontamente a cama, sem favorecer a preguiça. Quem não se habitua a agir desta forma com certeza não será casto. Os poucos minutos que concedemos à preguiça pertencem ao diabo.
Evitai também o ócio, ocupai-vos sempre. “A ociosidade ensina muita malícia” (Eclo 33, 29). Devemos temer muito por aqueles jovens que não sabem se manter ocupados nem mesmo durante o tempo do recreio. O ócio é pai dos vícios, e o vício da incontinência é o primogênito de todos. Os santos sempre evitaram o ócio e amaram o trabalho, inclusive os que se dedicavam de modo especial à oração. Quando se trabalha, não sobra mais espaço para maus pensamentos. Felizes vós, que vos ocupais com o trabalho manual! Trabalhar, portanto, não só por dever e obediência, por espírito de pobreza, mas também para domar o corpo. Todavia, trabalhar com moleza não subjuga a carne. Da mesma forma no estudo: manter a mente sempre ocupada, aplicar-se de preferência às ciências sagradas. São Jerônimo declara: “Ama o estudo da Sagrada Escritura e não amarás os vícios da carne”.

(A Vida Espiritual, do Beato José Allamano)

[Nota do Courage Brasil: quando é mencionada pessoa de outro sexo, basta adaptar, aos que tem AMS, para pessoa do mesmo sexo]





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