segunda-feira, 16 de julho de 2018

[QSH] Palavras ofensivas dirigidas às pessoas com atração pelo mesmo sexo: virtude ou falta de caridade?


[Essa é uma questão que toca profundamente a todos os nossos irmãos e irmãs que desenvolveram, por motivos vários e involuntariamente, a atração pelo mesmo sexo (AMS), que em si não é pecado. A AMS é uma propensão objetivamente desordenada como aponta o Catecismo da Igreja Católica. No entanto, como outras propensões ou inclinações, não determina o caráter de uma pessoa, ou seja, é algo que ela possui, mas não algo que ela é. Quantos de nós, homens e mulheres com AMS, se viram, por incompreensão e falta de caridade de nossos parentes, colegas e mesmo amigos, reduzidos a expressões como (e perdoem-nos os leitores por colocar esses termos aqui, mas são mais do que necessários) viado, bicha, efeminado, sapatão, maricas e outros mais. Essas expressões feriram e ferem a todos aqueles que, procurando compreensão de sua tendência, acolhida (e não aceitação de eventuais situações de pecado) dentro da Igreja por parte de seus irmãos católicos, foram designados por tais chamativos. Jesus chamou os fariseus de raça de víboras por ver suas más intenções e sua persistência na maldade. Mas não chamou de prostituta à mulher do poço, à adúltera que iria ser apedrejada ou à própria prostituta arrependida. Por isso, mais do que oportuno é o seguinte texto, extraído da obra – elogiada por santos e papas – Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, do Venerável Padre Afonso Rodrigues, da Companhia de Jesus. Este é um convite à reflexão para que todos os católicos que, muitas vezes, adotam uma misericórdia de aparência, pensem no quanto podem ter contribuído, voluntariamente ou não, para o isolamento de tantos irmãos com atração pelo mesmo sexo que, desejosos de aprender a levar uma vida de santidade e castidade, ansiosos por entender o ensinamento correto sobre a sexualidade e sobre sua condição, acabaram procurando na vida gay a acolhida não oferecida por seus próprios irmãos de fé.]


DEVEMOS TOMAR MUITO CUIDADO

COM AS PALAVRAS PICANTES

QUE POSSAM MOLESTAR OU DESGOSTAR A NOSSOS IRMÃOS



Em primeiro lugar, devemos tomar muito cuidado em dizer palavras picantes. Há algumas palavrinhas que costumam picar e ferir a quem se dizem, porque dissimuladamente fazem sobressair alguma condição, entendimento ou habilidade não tão desenvolvida, ou então alguma outra falta natural ou moral. Essas palavras são muito prejudiciais e muito contrárias à caridade; e algumas vezes se costumam dizer em tom de gracejo ou por brincadeira, e então são piores e mais prejudiciais, e tanto mais quanto com mais graça se dizem, porque ficam mais impressas nos ouvintes, que se lembram mais delas. E o pior é que, algumas vezes, sucede que a pessoa que as diz fica muito contente, parecendo-lhe ter dito algo muito perspicaz e ter mostrado boa inteligência, mas se engana muito; pois nesse seu falar só mostra ter mau entendimento e pior vontade, empregando o entendimento que Deus lhe deu para o servir em dizer ditos sagazes que ofendem e escandalizam a seus irmãos e perturbam a paz e a caridade.

Diz Santo Alberto Magno que, assim como quando uma pessoa tem mau hálito na boca é sinal que tem lá dentro o fígado ou o estômago estragado, assim também quando fala palavras más é sinal de enfermidade que há lá dentro do coração. E que diria São Bernardo do religioso que é mordaz nos gracejos? Se ele, a qualquer gracejo na boca do religioso, chama blasfêmia e sacrilégio, que nome dará aos gracejos que são prejudiciais?

Essas coisas são muito alheias à vida religiosa e, assim, tudo o que é relativo a isso deve estar muito longe da boca do religioso, por exemplo, tratar os outros por comparações ultrajantes ou apelidos, troçar, satirizar, fazer ou repetir versos engraçados que toquem na falta ou no descuido de alguém, e outras coisas semelhantes; não há razão para que tais coisas sejam permitidas, quer se digam por troça ou por brincadeira, quer se digam a sério. E cada um o julgará por si. Você gostaria que outra pessoa o tratasse por comparações ultrajantes e dirigisse a você alguma ironia, e que todos se rissem do quanto se encaixa em sua condição o que nela se diz? Pois o que você não quer que se use com você, não o utilize com os outros, pois essa é a regra da caridade. Você ficaria tranquilo quando, ao dizer uma palavra menos acertada, logo houvesse quem se prezasse a prestar atenção e dela fizesse um grande discurso, troçando de você? É certo que não. Pois, como é que você quer para os outros o que você não quer para si mesmo, já que você se sentiria e ficaria envergonhado se o fizessem com você? Pois, se só de falar em ironia, troça e comparação ultrajante ofendem e ficam mal na boca de um religioso, o que se dirá para os que as realizam! Por essa razão, temos de evitar isso ao máximo, tais palavras devem estar afastadas de nossa boca, como diz S. Paulo do vício da desonestidade: “A fornicação e todo o tipo de impureza nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a gente santa.” Da mesma maneira temos de considerar esses atos; e assim S. Paulo acrescenta em seguida: “Nem palavras torpes, nem palavras loucas, nem chocarrices [insolências] e graças impertinentes.”  (Ef 5, 3-4). Não condiz com a santidade que professamos, muito menos, citar essas coisas. Admiravelmente diz S. Bernardo: “Se das palavras ociosas havemos de dar conta a Deus no dia do juízo, o que será das que são mais do que ociosas?” Que será daquelas que ferem meus irmãos? Que será daquelas perniciosas?



(Texto extraído e adaptado, em razão da linguagem barroca, do Tratado Quarto – Capítulo X do livro Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, do Venerável Padre Afonso Rodrigues, SJ)

segunda-feira, 9 de julho de 2018

[QSH] Pornografia - como as amizades podem ajudar a superá-la



BOAS AMIZADES

ARMA CONTRA A PORNOGRAFIA


A pornografia permeia a vida da sociedade moderna e se tornou, para muitos, um vício. Esse mal, presente na vida de pessoas com atração pelo mesmo sexo ou não, apenas aumenta dois fatores que cada vez mais são consequências de nosso mundo conturbado: a solidão e o isolamento. Na vida de uma pessoa com AMS (e também de qualquer outra), é a "válvula de escape", é o instrumento ilusório de uma suposta intimidade. Quando trilhamos os Doze Passos do Courage, logo no primeiro nos deparamos com nossa incapacidade de superar sozinhos os problemas que nossa inclinação nos traz, entre eles a pornografia. Mas o que fazer? Entre os remédios ou armas que podem por nós serem utilizados estão as boas e castas amizades, objeto de nossa quarta meta: "Ter em mente as seguintes verdades: que as castas amizades não são apenas possíveis, como também necessárias na vivência da castidade cristã e que, no seu cultivo, elas oferecem um mútuo encorajamento". É o que o seguinte texto nos  mostra.


Procurando por relacionamentos: falso x verdadeiro


Acredito que tudo que está relacionado à construção de relacionamentos saudáveis seja parte importante do processo de luta contra a pornografia. A pornografia promete intimidade instantânea com outros, mas não pode cumprir tal promessa. Para não cair em sua armadilha, temos que passar pelo processo, nem sempre fácil e tampouco rápido, de desenvolvimento de relacionamentos reais com outras pessoas.

Se passamos anos lutando para formar amizades, sem sucesso, talvez tenhamos que mudar nossa perspectiva a respeito de relacionamentos, sobretudo com outros cristãos. Em vez de nos vermos como ilhas isoladas, temos que nos dar conta de que devido à obra de Cristo na cruz, já temos uma união com outros cristãos em nível profundo. O elo já existe, como descrito em Efésio 2, 19: “Assim já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo Cristo Jesus, a pedra angular”.

Dar-se conta disto nos dá certa segurança, e mais confiança para nos aproximarmos de outros cristãos. Não mais sentimos a necessidade  de “trabalhar” a amizade; só necessitamos descobrir e desenvolver o elo que já existe em Cristo.

Este conhecimento também pode dar confiança adicional na resolução de conflitos com outros cristãos. Qualquer que seja a crise que surja entre eu e outro cristão, ambos temo recursos divinos e a ação do Espírito Santo para nos ajudar a caminhar em direção a uma cura ou resolução.

Um dos primeiros passos no caminho para relacionamentos saudáveis é levar todas essas lutas ao Senhor em oração: “O Senhor sabe que eu tenho problemas com relacionamentos. Muitas vezes procuro amizades por razões equivocadas, procurando por coisas que nenhuma amizade poderia me dar. Não quero mais seguir por este caminho. Quero formar amizades, não a partir de uma necessidade doentia, mas a partir do meu amor por Ti e de minha relação contigo. Abra meus olhos para os relacionamentos que o Senhor quer me dar. Ajuda-me a reconhecer velhos padrões à medida que surgirem, e ajuda-me a encontrar novas maneiras de me relacionar com outros.”

Algumas vezes Deus tem surpresas para nós com relação a amigos. Foi o que aconteceu com Harry, um homem que vivera na prática homossexual.

Sempre que Harry se dava conta, parecia estar perto de Roger. No estudo bíblico, nos ensaios do coro, no culto dominical, lá estava sempre Roger. Um domingo, após o culto, Roger perguntou se Harry gostaria de almoçar com ele.

“A única razão pela qual disse sim foi porque não consegui encontrar uma desculpa de maneira rápida”, lembra-se Harry.

Roger seria a última pessoa que Harry escolheria como amigo. Grande, lento e tímido, Roger era o gerente de uma fábrica de beneficiamento de milho nas cercanias. Harry havia recentemente deixado para trás a prática homossexual em Chicago, e decidira aceitar o emprego de professor em uma pequena comunidade em Wisconsin. Mesmo que tivesse renovado seu compromisso com Cristo e tivesse esperanças de fazer novas amizades, Roger não era o que ele esperava como amigo.

“Mas, aquele almoço após a igreja abriu meus olhos”, disse Harrry. “Roger era gentil de espírito e tinha uma relação genuína e profunda com Cristo.”

Os dois homens desenvolveram uma sólida amizade. Harry introduziu Roger a C.S. Lewis, George MacDonald e outros autores cristãos. Em contrapartida, Roger acendeu o interesse de Harry por caminhadas em florestas e esportes radicais, como canoagem e “rafting”.

Num dado momento, Harry se sentiu compelido a contar a Roger sobre seu passado na prática homossexual. Cheio de terror, ele vomitou sua história. Quando terminou, Roger olhou em seus olhos com ternura e disse, “já imaginava isto.”

“Meu passado lhe incomoda?”, Harry perguntou.

“Admito que não o entendo”, Roger respondeu. “Mas não tenho que compreender tudo sobre você para ser seu amigo, não é?”

Harry pensou por um momento. “Não, creio que não.”

Ao dar o passo para construir amizades saudáveis, temos que estar abertos para nos relacionarmos com pessoas diferentes do “nosso tipo”. Claro que não vamos procurar por amizades com pessoas que não tenham um mínimo em comum conosco, mas devemos estar abertos a relacionamentos que nos pareçam desconfortáveis à primeira vista. Deus sabe que tipos de relacionamentos são necessários para que nossas melhores qualidades sejam desenvolvidas e que possibilitem o amadurecimento de nossa identidade (...) – e normalmente não são o tipo de relacionamentos que escolheríamos por nós mesmos.

E quando àquelas pessoas que encontramos e gostamos instantaneamente – talvez demais? Deveríamos fugir delas com receio de que poderíamos cair em dependência emocional ou mesmo num relacionamento sexual? Ou ir ao outro extremo, fazendo uma oração rápida (“Fique de olho em mim, Deus”) e se laçando à toda velocidade em frente, cego de excitação por uma nova relação? Infelizmente não há respostas fáceis para este dilema. Se estivermos numa posição muito vulnerável e a outra pessoa não for madura ou estável, normalmente é melhor colocar um freio na amizade por algum tempo. Na maior parte dos casos, o melhor conselho é “prosseguir com cuidado”.

Às vezes iniciamos novas relações com boas intenções, mas ficamos envolvidos em padrões doentios, ainda que nos esforcemos ao máximo. Vivemos num mundo despedaçado e todas as nossas relações em algum grau refletem isto.

Quando entramos numa nova relação, com um homem ou mulher, necessitamos uma mistura de fé e cuidado. Fé, sabendo que Deus está nos revestindo e sustentando, dando-nos sabedoria e graça aos nossos esforços para ter sucesso. E cuidado, estando ciente de que nenhum outro ser humano é completamente “seguro” ou está totalmente restaurado.

Muitas de nossas necessidades mais profundas serão satisfeitas pelo próprio Deus. Talvez tenhamos um amigo que seja um grande companheiro de oração; outro com o qual possamos contar piadas e nos divertir de forma saudável; e outro que necessita de nosso tipo especial de ministério e encorajamento. Nossas vidas são mosaicos de amizades e interesses, não um quebra-cabeças feito de duas peças que se encaixam.

Em última instância, Deus é o doador de todas as boas dádivas – incluindo amigos verdadeiros. “O Senhor me ajudou de verdade nesta área”, diz Rod. “Passei meus anos de adolescência virtualmente sozinho, aterrorizado de que alguém se aproximasse de mim o suficiente para descobrir minhas lutas com a homossexualidade.

“Durante minha juventude, quando comecei a abrir minha vida para outros cristãos, experimentei o que é uma profunda amizade pela primeira vez. Este processo de fazer amigos trouxe bastante cura e satisfação para a minha vida. Mas antes tive que me arriscar em ser aberto com outros, o que era aterrorizador. Agora estou feliz por me ter arriscado.”

Rod lutou muitos anos contra a pornografia homossexual e se deu conta de uma nova vitória na área quando ele começou a preencher sua vida com relações saudáveis com outros homens. A tentação de dar uma olhada em literatura pornográfica gay não desapareceu totalmente, mas à medida que ele enchia sua vida com amizades compensadoras, ele notou que as tentações perderam muito de seu poder e força.

Rod diz que suas amizades masculinas foram um instrumento em sua libertação da homossexualidade. “Eu me dou conta de que, durante todo o tempo que estava me deixando levar pela pornografia e procurando por contatos sexuais, estava na verdade procurando por um amigo. Agora que tenho homens que posso amar de maneira santa e saudável, não estou mais sozinho.”

“Todos nós que passamos pela prática homossexual – mesmo os mais introvertidos – têm grande ânsia por contato com outras pessoas, especialmente outros do nosso mesmo sexo”, adiciona Rod. “Assim a escolha está em como iremos satisfazer estas necessidades de contato com o mesmo sexo: através da lascívia e meios pecaminosos, ou através de amor e amizades saudáveis. Estou muito mais feliz e realizado desde que comecei a procurar satisfazer estas necessidades de uma maneira aprovada por Deus.”


(extraído do livro "Vencendo a pornografia", de Bob Davies)