quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

[Esp] A importância da Quaresma e o que fazer durante esse tempo


COMO SANTIFICAR A QUARESMA





A Quaresma é tempo de santificação, e devemos tomar tomar resoluções firmes e objetivas de como santificar esse tempo. Mas quais resoluções tomar? Nada melhor do que resolvermos resguardar melhor o nosso coração e os nossos sentidos do pecado e da distração, bem como tratarmos, durante esse tempo, da reforma do defeito que mais nos importa corrigir. Como diz São Paulo: Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação (II Cor 6, 2).

Devemos, nessa época, nos transportar em pensamento ao deserto, onde Jesus passou quarenta dias e quarenta noites. Contemplemos Nosso Senhor humilhado diante da majestade de Deus seu Pai, prostrado de joelhos, muitas vezes até com o rosto em terra, derretendo-se, ora em adorações, louvores, ações de graças, ora em súplicas para obter de seu Pai misericórdia em favor de nós, pobres pecadores. Ele juntava a essas súplicas, ainda, feitas com lágrimas nos olhos, uma incomparável mortificação, visto que durante esses quarenta dias não bebe nem come, não tem outra cama senão as pedras e a terra nua, não tem outro teto senão o céu. Tributemos a Jesus no deserto toda a nossa adoração e admiração, todo o nosso reconhecimento e amor.

Santidade do tempo quaresmal

Nosso Senhor nos ensina com o seu próprio exemplo. Ainda que a sua vida tenha sido sempre eminentemente santa, ela dá a ela, durante esses quarenta dias, um caráter exterior de santidade inteiramente especial. De que forma?

Tempo de recolhimento: Ele passa esses dias no retiro, ou seja, ele quer que nós passemos também esses dias com um santo recolhimento de espírito, condição necessária para ouvir a Deus no íntimo do coração, estuda-lo e conhece-lo, ama-lo e goza-lo. Ao mesmo tempo, devemos ter um espírito de reflexão, condição não menos necessária para conhecermos a nós mesmos e nos emendarmos.

Tempo de oração: Jesus passa esse tempo em oração para nos dizer que sejamos mais fiéis e exatos em nossos exercícios de piedade, para que rezemos mais e com mais fervor.

Tempo de mortificação: Nosso Senhor se sujeita, durante esse tempo, à mortificação mais rigorosa para nos dar a entender que é preciso, durante a Quaresma, conceder menos à sensualidade, ao gosto, ao prazer, aceitar as privações impostas pela Igreja e fazer verdadeira penitência.

É dessa forma que Jesus, com seu exemplo, nos ensina a santidade do tempo quaresmal. Esse ensino é confirmado pelo da Igreja. Qual não seria a razão de haver pregações mais frequentes, exercícios religiosos mais multiplicados? Para que são essas privações prescritas, senão para nos dizer que devemos santificar esses dias pela penitência? Abençoada seja a Igreja por esse ensino! No decurso de nossa vida esquecemos tão facilmente a penitência! Temos grande necessidade de sermos chamados cada ano a fazê-la, pois a penitência nos é indispensável, seja para expiar os nossos pecados passados, seja para evitar as recaídas a que a nossa fragilidade nos arrastaria infalivelmente.

A todos esses ensinos sobre a obrigação de passar santamente a Quaresma é acrescida uma razão poderosa, tirada dos santos mistérios da Paixão e da Ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo, aos quais a Quaresma serve de preparação. Porque o fruto desses mistérios deve ser morrermos para nós mesmos, e nascermos para uma vida nova toda em Deus e para Deus. Ora, esses mistérios não produzirão esses frutos em nós mesmos senão santificando verdadeiramente a Quaresma. Receberemos a plenitude das graças dos mistérios da Paixão e da Ressurreição se chegarmos bem dispostos ao fim da Quaresma. No entanto, sucederá o contrário se tivermos a desgraça de passar esses dias tão santos na distração, na irreflexão e na tibieza. Compreendamos, dessa forma, a santidade desse tempo e a necessidade de o passar melhor que os outros tempos do ano.

Meios de santificar a Quaresma




Primeiro: Devemos cuidar de aperfeiçoar as nossas obras costumeiras, e isso porque nisso consiste toda a santidade, ou seja, que devemos, durante esses santos dias, fazer melhor as nossas orações e os nossos exercícios espirituais, empregar melhor o nosso tempo, vigiar melhor as nossas palavras, dar a cada uma das nossas obras uma perfeição maior, e oferece-las a Deus unidas à penitência de Jesus no deserto, em expiação dos nossos pecados e dos pecados de toda a Terra.

Segundo: Devemos guardar o jejum e a abstinência que a Igreja prescreve, e se não podemos ou estamos dispensados deles, devemos supri-los com a mortificação interior, fazendo jejuar a vontade por espírito de obediência e condescendência, freando nosso gênio por uma brandura constante, nossa língua pelo silêncio ou pela discrição nas palavras, nossa boca pela privação de certos deleites de nenhum modo necessários, nossos olhos pela retenção das vistas (evitando a curiosidade), todo o nosso corpo pela modéstia de nosso porte e de nosso andar, todo o nosso interior pela supressão dos pensamentos inúteis, dos devaneios, dos desejos infinitos pelos quais o coração se deixa levar se não se contém. Essas mortificações não fazem mal nem à cabeça nem ao corpo. Fazem, na verdade, um grande bem à alma.

Terceiro: Devemos aceitar, de boa vontade, as tribulações que Deus nos envia, tais como as enfermidades, tolerar os gênios das pessoas, seus defeitos e suas vontades contrárias à nossa.

Quarto: Finalmente, devemos nos fixar em um defeito particular, cuja reforma perseguiremos durante toda a Quaresma. É este, diz São João Crisóstomo, o melhor de todos os jejuns, porque os seus frutos duram não só todo o ano, mas até na eternidade.

Estamos nós bem resolvidos a abraçar esses diversos gêneros de mortificação? Peçamos ao Divino Espírito de iluminar nossas inteligências e tomarmos nossas resoluções de Quaresma o quanto antes. Façamos boas leituras, meditemos na Paixão do Senhor e roguemos à Mãe de Misericórdia, Maria Santíssima, o ânimo para nos decidirmos e prosseguirmos em nossos bons objetivos.



(adaptado da meditação para o sábado depois das Cinzas, do livro Meditações para todos os dias do ano, do Pe. M. Hamon)

domingo, 31 de janeiro de 2016

[FH] Educar o instinto sexual

Muitos se deixam dominar pelo instinto sexual por julgá-lo irresistível ou porque desconhecem a força da própria vontade. Outros, pela persuasão errônea de que a resistência pode acarretar enfermidades ou que seguir tal instinto é prova de virilidade. Muitíssimos, porque esperam encontrar nesta satisfação a felicidade a que todos almejamos. Há também aqueles que maldizem o instinto sexual, esquecendo que ele é bom e que Deus o criou com uma finalidade própria. Não aceitam que o pecado original tornou esse instinto desregrado, e que devemos, pela graça e pelo esforço, colocá-lo em seu devido lugar. Mas como fazer isso? O Padre Narciso Irala nos ensina.




REMÉDIOS PARA A CURA


1º. Antes de tudo, se dominavam idéias errôneas neste ponto, é preciso corrigi-las lendo algum livro de educação sexual sadio e aprovado pela Igreja.

2º - Para fazer contrapeso ao influxo inconsciente da afetividade do deleite, procuraremos arraigar afetividades e tendências contrárias, acostumando o corpo ao trabalho, à vida dura, a à mortificação e à dor (dignificadas pela fé) e afastando-o da comodidade e do prazer. Os esportes sadios e varonis ajudam bastante.

Um jovem de família rica confessou-me que lhe parecia impossível a castidade quando vivia em sua casa rodeado de comodidades e de presentes. Quando esteve em um campo de concentração com muitas privações e trabalhos nunca teve tentação carnal.

3º - Devemos evitar pessoas, objetos, leituras, conversas e espetáculos que tragam associações de imagens ou tendências menos puras.  Querer a castidade com esses incitamentos é pretender caminhar sem cair por terrenos inclinados e escorregadios. É preciso evitar que se suscitem tais incitamentos por objetos proibidos.

4º - Quando aparecerem as tendências más ou pensamentos, resistir logo no primeiro momento “quando ainda são fracas”, contrapondo-lhes outras imagens (sensações conscientes, concentrações voluntárias, atos que ocupem a atenção) e outras tendências, por exemplo, querer evitar o inferno, ganhar o céu, querer dar gosto a Jesus Cristo, salvar almas, etc.

Um jovem muito casto e virtuoso ao encontrar-se com amigas ou parentes, via-se logo perturbado e assaltado por pensamentos impuros sem saber como evita-los. Bastou-nos aconselhar-lhe que associasse conscientemente outras imagens à idéia de mulher, por exemplo, à excelência da mãe que dá filhos para o céu, o Espírito Santo que mora nela pela graça, a sublimidade da Virgem Mãe de Deus etc. [para os homens com AMS vale o mesmo conselho: excelência do pai que dá filhos para o céu, o Espírito Santo que mora nele pela graça, a sublimidade de São José]. Poucos dias depois, voltou para agradecer-nos. Esta nova associação de idéias induzida voluntariamente havia acabado com as outras subconscientes e instintivas e sentia-se agora tranquilo e feliz.

5º - Para resistir melhor, evitemos colocar-nos em estado de inferioridade psíquica (alcoolismo, romantismo afetivo, sonolência, divagação cerebral). Neste estado, ficam soltas a imaginação e a afetividade subconsciente e como que adormecidas a vontade e a razão. Permanece todo o homem entregue à mercê do primeiro impulso. Este brotará fácil e violentamente, sobretudo se se juntou a tudo isso uma posição excessivamente cômoda que, por associação inconsciente do sentido do tato, desperta os baixos instintos. Teremos, ainda assim, poder para resistir e por isso seremos responsáveis pelo ato, mas... o atacante é forte e o defensor não está em guarda.

O Santo Cura de Ars fugia da sensação de comodidade como quem foge do fogo.

6º - Não encaremos esta luta heroica de um modo negativo: “Não se pode fazer isto; é preciso evitar aquilo”, mas sim de forma positiva: como um sacrifício que generosamente oferecemos a nosso Deus Crucificado, para amá-lo, agradá-lo, obedecer-lhe e imitá-lo. Esta luta positiva alegra e anima; a negativa deprime.

7º - Motivemos devidamente e elevemos à sua excelsa dignidade este instinto. Por ele quer Deus fazer depender do homem Seu poder de criar almas imortais e quer que isto se faça na entrega total de um ser para outro ser com o qual se completa e faz feliz por um amor desinteressado. Esta entrega a outra pessoa que vai completa-la e satisfazê-la emocionalmente é uma concretização aqui sobre a terra, da união íntima, espiritual e sublime com o Deus de infinito Amor e com felicidade divina que Ele nos prepara no céu. Por isto deu à união conjugal o caráter sagrado pelo sacramento do Matrimônio. Querer a satisfação sexual, excluído a finalidade dela, é burlar a intenção de Deus, nosso Pai e frustrar Seus planos divinos.

8º - Contra as idéias motoras que impelem à realização do ato, opor o sentimento de que podemos evita-lo, por exemplo: mando a meus pés que não vão àquele lugar, ou a minhas mãos que estejam cruzadas sobre o peito por um tempo determinado, para fortalecer meu caráter, para agradar a Nosso Senhor, para merecer o Céu (não diga “para evitar o pecado” pois tal evocação despertaria as idéias e impulsos que tratamos de dominar). Estes atos assim concretizados sentir-se-ão como possíveis e a vontade poderá querê-los.

9º - Uma vez feito tudo o que podíamos, dada a dificuldade especial desta matéria, resta-nos ainda recorrer a Deus para conseguir forças sobrenaturais pela oração, pela confissão e pela comunhão. Esta graça pedida com humildade, confiança e perseverança nunca nos será negada. A experiência de muitos séculos em todas as raças e homens de toda condição intelectual e social demonstra que estes meios sobrenaturais vencem a dificuldade especial de guardar a castidade.




[extraído do livro Controle Cerebral e Emocional, do Padre Narciso Irala]