sexta-feira, 24 de outubro de 2014

[QSH] Homossexuais ou pessoas com atração pelo mesmo sexo?



[Muitos nos questionam: “Porque vocês dizem ‘pessoa com atração pelo mesmo sexo’ ao invés de ‘homossexual’?”. Apresentamos a resposta do nosso diretor internacional, Padre Paul N. Check, em uma entrevista ao Jornal ‘Catholic World Report’ em setembro de 2013. O original da entrevista completa pode ser encontrado aqui]

Catholic World Report (CWR): Dentro do Courage vocês fazem uma clara distinção entre a atração pelo mesmo sexo e o estilo de vida gay. Você pode esclarecer a diferença?
Pe. Paul Check, diretor internacional
do Apostolado Courage

Padre Paul Check: A pergunta mais importante já colocada na história da humanidade foi feita por Nosso Senhor, quando disse aos apóstolos: “Quem dizeis que eu sou?”[1]. É uma questão de identidade, porque é a partir de sua compreensão que descobrimos como viver de uma maneira consistente junto à ela. Não vou dizer que é sempre fácil, porque temos a concupiscência, mas a fim de compreendermos a maneira correta de pedir, primeiro temos que responder claramente a questão do ser.

No que diz respeito à pessoa humana, a pergunta ‘Quem sou eu?’ é melhor respondida com a compreensão de que somos filhos de Deus redimidos pelo sangue de Cristo e chamados a ser seus discípulos. Somos convidados a crescer nesta vida de graça e de glória na vida futura. Esta é a base da parte mais importante e essencial da nossa identidade.

Agora, há outras coisas que compõem nossa identidade. A nossa família humana e de onde pertencemos geograficamente. Essas coisas também são importantes, mas não tão importantes como a questão fundamental da nossa identidade: a de sermos filhos de Deus.

Fomos criados como seres sexuais e esta história nos é contada no livro de Gênesis, que não é um livro de ciência, é claro, e não nos diz em termos precisos como o homem veio a ser criado. Porém, diz precisamente quem somos, quem devemos ser e a quem somos destinados a olhar para a compreensão da nossa identidade. Nessa história do Gênesis é claro que Deus, em sua sabedoria, dividiu a raça humana de tal forma que a natureza humana é expressa no masculino e no feminino.

Existe uma questão teológica e antropológica muito rica. Apesar disso, para nossos propósitos aqui, enquanto há a natureza humana, que é sempre expressa muito concretamente em uma pessoa (uma pessoa que é masculina ou feminina) a identidade sexual é também algo essencial para ela. E, a fim de saber quem somos e como a identidade sexual é devidamente expressa, nós voltamos nosso olhar para a história do Gênesis e aprendemos sobre a união do homem com a mulher, a fecundidade de Deus em seu plano, e como seus dons de fecundidade estão associados com a faculdade sexual e são inerentemente ligados à intimidade sexual.

Com esse preâmbulo, a razão pela qual eu penso que a Igreja evita os rótulos de “gay”, “homossexual” e “lésbica” como substantivos é porque em sua sabedoria materna e em sua caridade, seguindo a história de quem o homem é, ela não quer fazer a identidade de alguém entrar em colapso apenas por conta do seu apetite sexual. Isso parece injusto e não caridoso. É preciso um pouco mais de caridade para dizer que uma pessoa tem atração pelo mesmo sexo do que usar rótulos que são muito populares na cultura de hoje.

Ao dizer isto, é claro, eu não estou de forma alguma minimizando a força, a intensidade, a duração ou a frequência dos sentimentos de atração pelo mesmo sexo e quão importante esses sentimentos são para alguém que quer se auto-compreender. Nós só queremos dar à atração pelo mesmo sexo a etiqueta apropriada. Não exagerando-a, mas claramente não diminuindo ninguém a tão pouco.



[Padre Paul N. Check, 'Homosexuality, Identity, and the Grace of Chastity' (Homossexualidade, Identidade, e a Graça da Castidade), entrevista para o jornal 'Catholic World Report' em 03.IX.2013]


[1] Cf. Mt 16,15; Mc 8,29; Lc 9,20.


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

[FH] O desafio de uma vida casta - Sexualidade em uma vida casta e solteira [IV]



[Continuamos aqui o assunto abordado no post anterior sobre sobre como vivenciar a própria sexualidade dentro da castidade, a partir de de textos escritos pelo Pe. Benedict J. Groeschel no seu The courage to be chaste (A coragem de ser casto) inédito ainda em português. O post anterior pode ser lido aqui]

Atração e paixão

Nós já discutimos relacionamentos baseados em atração não-sexual e aqueles que são apenas secundariamente sexuais. A pessoa solteira deve aceita-los com calma e inteligência. Uma palavra deve ser dita a respeito da paixão – uma forte e emotiva atração. Semelhante atração é baseada na complementaridade, uma dinâmica na qual as forças de uma pessoa respondem às necessidades de outra. A complementaridade pode ser vista como o fundamento mesmo da heterossexualidade, até no âmbito físico, onde as características físicas que faltam a um sexo são muito atrativas para o sexo oposto. Complementaridade em um grau muito mais elevado inclui emoções, traços da personalidade e talentos, e é o fundamento de um bom matrimônio.

Complementaridade opera também  em muitas amizades. Somos parcialmente puxados por outros, porque eles são semelhantes a nós e, também, porque eles têm o que nos falta e precisam do que temos em abundância. Alguns escritores usaram o termo paixão para descrever a forte experiência dessas relações complementares. Eu preferiria restringir o termo para aquela fase da relação, geralmente de vida curta, na qual a outra pessoa é idealizada, tal como no romance, ou na admiração pelo herói, ou num tipo superficial de discipulado.

Paixão, que é complementaridade na sua forma mais elementar, deve se desenvolver numa amizade mais real, que vá além da complementaridade, se é para ela continuar. Meditar sobre o Evangelho levou-me a acreditar que, de certo modo, os primeiros discípulos experimentaram paixão pelo Messias e que sua relação com Ele teve de ser purificada e transformada em algo mais do que admiração pelo herói. Esse crescimento de conscientização foi uma parte necessária da sua preparação, que seria posta à prova máxima da Sexta-Feira Santa.

A pessoa solteira não deve ficar com medo da complementaridade ou da paixão, mesmo os começos da paixão sexual. Porém, para manter uma vida solteira e casta, deve-se ser realista e objetivo a respeito dessas experiências de paixão, em especial se elementos sexuais e românticos estiverem escondidos sob a superfície. Em relações não-sexuais tais como a admiração pelo herói, o perigo pior é aquele de ficar olhando como um bobo. Nas relações sexuais, um grave desajuste de duas personalidades pode tomar o lugar e muito mal pode ser feito. A pessoa solteira deve isto a si própria: reconhecer a paixão e crescer rapidamente para além dela.

A compulsão sexual e a perda do controle

A pessoa solteira deve viver com a possibilidade de compulsões sexuais que estão enraizadas nas forças inconscientes ou que derivam de crises da vida não resolvidas. O controle sexual é, com freqüência, o elo mais fraco na personalidade e sistema de controle de alguém. Quando as coisas vão mal ou quando alguém está sob muita pressão, um comportamento sexual indesejável deve provavelmente acontecer. O medo de perder o controle sexual causa à pessoa, com freqüência, grande problema com ansiedade. Será um grande passo à frente no desenvolvimento da nossa espécie quando formos capazes de avaliar a perda do controle sexual como sintomático de tempos de luta interior, ao invés de sempre condenar isso como uma ação saída dum simples impulso imoral ou, ainda mais perigoso, justificá-lo por uma racionalização desonesta.

A perda do controle sexual leva a um comportamento indesejado que o indivíduo vê como imoral e quer evitar. Isto é um perigo para a pessoa solteira, em especial. Muitos dos mecanismos de controle presentes no casamento não estão disponíveis na vida solteira. Hammarskjöld fez a seguinte observação em Markings:

“Então, mais uma vez, você optou por si mesmo – e abriu a porta para o caos. O caos que você se torna toda a vez que Deus não respousa a mão sobre sua cabeça. Ele, que um dia esteve sob a mão de Deus, perdeu a inocência: apenas sente toda a força explosiva da destruição que é liberada num momento de rendição à tentação. Porém, quando sua intenção está direcionada além e acima, como ele é forte, com a força de Deus que está nele, porque ele está em Deus. Forte e livre, porque seu eu não existe mais”[1]

O medo de perder o controle nos períodos de estresse é um grande argumento para tentar viver uma vida sã e equilibrada, se você é solteiro. Depois nós veremos como os hábitos mentais são necessários para manter o controle sexual e bom equilíbrio geral.

[continua...]


[1] Markings. New York: Alfred A. Knopf, 1966, p.98