domingo, 26 de março de 2017

[Esp] A vitória sobre si mesmo - a mortificação (VI)

A Quaresma é o tempo por excelência para exercermos a mortificação e a penitência. Mas muitas vezes achamos que essa deve ser exercida através de, apenas, castigos corporais, jejuns, e nos esquecemos que a mortificação interna também é necessária. A mortificação interior, a seguir explicada, dá continuidade a nossos textos sobre mortificação, extraídos do livro A vida espiritual reduzida a três princípios, um clássico de autoria do Padre Maurício Meschler, S.J., que nos ajudará a entender e a praticar a vitória sobre nós mesmos.





DA MORTIFICAÇÃO INTERIOR



1. A mortificação interior tem por objetivo introduzir a disciplina e a ordem nas faculdades da alma, com o intento de afastá-las do mal e torná-las aptas para o bem.

Por essas faculdades entendemos a inteligência, a vontade, a imaginação e a faculdade apetitivo-sensitiva.

2. A importância da mortificação inte­rior ressalta primeiramente da sua comparação com a penitência exterior. Esta é apenas um meio, uma condição, um fruto daquela. A primeira constitui propriamente o princípio e o fim da segunda, comunicando-lhe seu valor moral.

Abstraindo da mortificação interior, a outra é falha de consistência e se reduz, quando muito, à religiosidade de um fa­quir, um modo de adestramento aplicável aos animais. Em dadas ocasiões, a mor­tificação exterior pode suprir-se pela interior, mediante o retiro, o recolhimento de espírito e o desapego do coração. Enfim, a penitência exterior deve, necessariamente, restringir-se a certos limites; é variável quanto ao lugar, à duração e à medida; a interior, ao contrário, é ilimitada, de continua aplicação, e pode ser praticada sempre e em toda a parte. Em segundo lugar, podemos aquilatar a importância da mortificação interior, pela intima relação que ela tem com a moralidade e o exercício da virtude.

Tanto a ordem como a desordem moral, a culpa, como o mérito, têm o respectivo princípio no nosso interior.

Todo o valor moral de nossa vida, as­sim como a responsabilidade de nossos atos, se acham em nós mesmos, no co­nhecimento que temos das coisas e na li­berdade própria. Segundo o testemunho do divino Salvador é no coração que se gera o pecado. «No coração originam-se os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, às fraudes, os falsos testemunhos, as blasfêmias. São essas coisas que tornam o homem impuro, porque a boca fala da abundância do coração» (Mat. XV,18).

Ora, a penitência interior possui todas as condições e características de uma pu­ra e sólida virtude. Sólido é tudo o que procede de Deus, de um motivo sobrenatural, de uma vontade reta e sincera, de um princípio firme e verdadeiro e não da paixão, de um simples impulso na­tural; é ainda tudo o que custa, que é árduo, que pesa. Prosseguir, não obstante, é sinal certo de que não procuramos a satisfação próprio mas reagimos contra a natureza. Sólido, enfim, é tudo o que nos faz progredir, isto é, que tende a suprimir os obstáculos que em nós se opõem as comunicações da graça. Essas qualidades, próprias da verdadeira virtude, só se encontram na mortificação interior. Por isso os santos e os mestres da vida espiritual a consideraram sempre como a pedra de toque da perfeição e da santidade. Esse é também o juízo do Mestre infalível, o divino Salvador. Sem embar­go de uma justiça aparente, os Fariseus eram, a seu ver, sepulcros caiados que, sob exterioridade enganosa, ocultavam a corrupção e a morte (Mat.XXIII,27).

3. À pergunta: onde a mortificação deve, mormente, praticar-se? Respondemos: a mortificação deve exercer-se de preferência em tudo o que diz respeito à nossa vocação e constitui estorvo ao perfeito desempenho de nossos deveres de estado; em seguida, nos pontos cuja necessidade se impõe a cada um de nós, segundo as circunstâncias, as dificuldades especiais, os defeitos particulares externos ou internos e, finalmente, naquilo que for exigido ou solicitado por Deus.


sábado, 18 de março de 2017

[FH] A necessidade de um ministério católico para pessoas transexuais


"A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra  conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios. A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual" ou um 'homossexual', sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna." (Carta da Congregação para a Doutrina da Fé, outubro de 1986, assinada por Joseph Ratzinger, atual Papa Emérito Bento XVI)


Padre Philip Bochanski, diretor internacional do Courage



Catholic News Agency, 9 fev. 2017, por Mary Rezac



Walt Heyer recorda-se do momento em que começou a desejar ser menina. Quando ele tinha apenas quatro anos, sua avó o vestiria como uma enquanto cuidava dele. Ela amava vê-lo em vestidos, até chegou a fazer para ele um vestido roxo de chiffon. Mas isso era o segredo dos dois, dizia ela – não conte para a mamãe nem para o papai.

Aos sete anos, Heyer levou o vestido roxo de chiffon para casa e escondeu-o no fundo da gaveta de roupas. Sua mãe logo achou o vestido e interpelou Heyer a respeito dele. Foi quando ele contou aos pais que a vovó o estava vestindo como uma menina fazia tempo. “Você podia lançar uma bomba atômica por conta da briga entre meu pai e minha mãe, entre minha mãe e a mãe dela e entre meu pai e a sogra”, disse.

Os pais de Heyer não tinham o vocabulário nem os recursos para saber lidar com a situação. Seu pai reagiu na base do medo e implementou várias medidas disciplinares duras. Um tio soube da história e começou a assediá-lo, até que abusou sexualmente de Heyer. “Veja, as pessoas com tal pensamento desordenado (disforia de gênero) estão machucadas”, disse Heyer. “O problema é que nós não sabemos o que fazer para ajudá-las.”

O desejo de ser mulher — de ser alguém diferente daquele garotinho abusado e ferido — permaneceu com Heyer até a fase adulta, mesmo depois de casado com uma mulher e com dois filhos. Aos 42 anos, por meio de cirurgia, transicionou para mulher. Pediu aos amigos que começassem a chamá-lo de Laura. “Mas isso começou como uma fantasia e continuou como uma, porque a cirurgia não muda seu corpo para um feminino. Não é mais autêntico do que uma nota falsa de 20 dólares. Você não pode mudar alguém biologicamente masculino em outra pessoa biologicamente feminina.”

Menos de dez anos depois, e após uma experiência de conversão, Heyer arrependeu-se da transição e quis viver como homem novamente. Agora ele mantém um site chamado , no qual centenas de pessoas o contactam todo ano, partilhando suas próprias experiências e arrependimentos com as cirurgias de mudança de sexo. A maioria segue o padrão de sentir-se afirmado por sua mudança de sexo por um tempo para só ter os problemas psicológicos latentes rugindo de volta depois de dez anos, disse Heyer.
Heyer contou sua história numa conversa no mês passado, na conferência do Courage em Phoenix, Estados Unidos, onde dúzias de sacerdotes e ministros de todo país se reuniram para aprender a melhor forma de servir aqueles com atração pelo mesmo sexo. Bem recentemente, o ministério está incluindo conversas e materiais não apenas sobre a atração pelo mesmo sexo, mas também sobre o tema da transexualidade – modo como os defensores do gênero continuam a chamar a atenção na esfera pública.

Como a Igreja pode ajudar os transexuais?

Há poucos ministérios católicos que hoje se dirijam particularmente àqueles que lutam com a transexualidade e a disforia de gênero. Além de um conjunto de ministérios locais, o Courage — a proposta da Igreja às pessoas com atração pelo mesmo sexo — é um dos poucos ministérios a lidar com o tema da transexualidade no âmbito nacional e no internacional. “Até recentemente, o cuidado pastoral de indivíduos que lutam com sua identidade sexual, como homem ou mulher, vem acontecendo mais no âmbito local ou pessoal”, disse um porta-voz da Secretaria de Assuntos Públicos da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos.

“Como a atenção a essa experiência e a compreensão dela estão aumentando, estamos observando maiores esforços, regional e nacionalmente, para responder a ela, de um modo fiel ao entendimento da Igreja a respeito da pessoa humana e do cuidado de Deus para com todos.” Parte do problema é que o tema da transexualidade e da sua aceitação na cultura popular é algo tão novo que os especialistas em saúde mental ainda estão tentando acompanhar a tendência, diz o Dr. Gregory Bottaro, um psicólogo católico integrante do grupo CatholicPsych. “Penso que a profissão da saúde mental ainda não teve tempo suficiente para realmente ficar a par desse assunto, fora os que, na área, só seguem a corrente de tudo o que é popular, no momento”, disse. Mas os profissionais de saúde mental que desejem seguir qualquer tendência atual estão apenas “promovendo a divisão” entre os atuantes católicos e os seculares, acrescentou.

No momento, a maior preocupação com respeito a popularização e normalização da transexualidade é seu efeito sobre as crianças, diz Dr. Bottaro. “No caso das crianças, é realmente importante reconhecer que seu desenvolvimento sexual é bem frágil, e a influência do que é popular sobre a cultura precisa, de fato, ser fortemente filtrada, estudada e compreendida”, disse ele.

“A resposta católica é o retorno à verdadeira antropologia — homem e mulher Ele os criou —  para entender que nossa biologia e nossa psicologia não são coisas separadas e, assim, encorajar o desenvolvimento de um currículo sobre a natureza humana que seja consistente com uma verdadeira antropologia”, disse ele.

E não é apenas a Igreja que está preocupada com os efeitos da transexualidade sobre as crianças. Num artigo intitulado “Gender Ideology Harms Children” (A ideologia do gender é danosa para crianças), a instituição The American College of Pediatricians lista razões específicas por que eles estão preocupados com a popularização e normalização da transexualidade entre as crianças.

“A crença pessoal de que se é algo que na verdade não é, na melhor das hipóteses é sinal de um pensamento confuso. Quando uma criança biologicamente masculina e saudável acredita que é uma menina, ou quando uma criança biologicamente feminina e saudável acredita que é um menino, há um problema psicológico objetivo que está na mente, não no corpo, e que deveria ser tratado como tal. Essas crianças sofrem de disforia de gênero”, disse a instituição nesse artigo. Encorajar uma criança a pensar que “é saudável uma vida de personificação do sexo oposto por meio de medicamentos e cirurgias é um abuso infantil”, eles acrescentam.

“Então, se há anormalidades biológicas (crianças nascidas com genitália ambígua ou com um cromossomo a mais), certamente não são circunstâncias para construir sistemas filosóficos, assim vemos tais circunstâncias como anormalidades e anomalias”, explicou Dr. Bottaro.

Aprendendo a melhor servir as pessoas transexuais

Quando questionada, a Secretaria dos Assuntos Públicos da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos indicou o Courage como exemplo de ministério que provê cuidado pastoral e orientação sobre a transexualidade em âmbito nacional e internacional. Dioceses que têm células do apostolado para acompanhar aqueles que sentem atração pelo mesmo sexo também “estão em boa posição para ajudar pessoas que tenham questões com respeito à identidade sexual”, disse o porta-voz.

Padre Philip Bochanski é o diretor executivo do Courage International. Ele disse que a organização vai continuar a discernir o melhor modo de servir as pessoas transexuais e suas famílias. “Parece haver algumas semelhanças entre a experiência de confusão com respeito à identidade sexual e a experiência da atração pelo mesmo sexo, mas também há muitas diferenças”, disse o padre.

Nesse meio tempo, a proposta do ministério para os pais, chamado Encourage, já está ativamente engajada com pais e famílias que têm um ente querido transexual, diz Padre Bochanski. A meta do Encourage é ajudar pais e familiares daqueles que sentem atração pelo mesmo sexo, ou de pessoas transexuais, a manter os laços familiares fortes enquanto sustentam seu entendimento e ensino da fé. “Os membros do Encourage buscam essas metas pelo empenho em crescer em sua vida de oração; aprender mais sobre o que a Igreja ensina e como apresentar isso de um modo caridoso; e encontrar caminhos para demonstrar amor e apoio, sem condenar seus filhos ou filhas, nem ser condescendente com decisões imorais.”

“Como a experiência da atração pelo mesmo sexo, as questões com respeito à identidade sexual têm um profundo impacto não apenas no indivíduo, mas também na sua família como um todo”, ele disse. “Sou grato por que os membros do Encourage e seus capelães têm a oportunidade de dividir sua experiência de falar a verdade na caridade na família com outros pais e cônjuges que se empenham em entender e ajudar seus entes queridos que se identificam como transexuais.”

Heyer disse que, sobretudo, a Igreja deve gentil e firmemente desafiar as pessoas, em vez de confirmá-las na sua disforia de gênero. “Se nós confirmamos as pessoas na mudança de sexo, na verdade estamos desobedecendo a Cristo, pois isso não é o que elas são. Ele as criou homem ou mulher”, disse Heyer.

Ele também disse que os pastores e os ministros precisam, na Igreja, estar melhor informados a respeito das conseqüências físicas e emocionais a longo prazo da cirurgia de mudança de sexo. “Porque nós não estamos falando das conseqüências. Estamos falando apenas do transicionamento, que parece ir muito bem por oito ou dez anos”, ele disse, ponto em que muitas pessoas desejam voltar atrás, para o sexo original. “Então, podemos pegar um par de óculos maior e ver a longo prazo... então podemos ver e enxergar a destruição que acontece e começa a levar à destruição.”

Pastores e psicólogos, trabalhando juntos

Dr. Patrick Lappert, diácono permanente e cirurgião plástico, também falou ao clero e às lideranças no ministério, numa recente conferência do Courage. Na sua fala, ele abordou os fundamentos médicos das cirurgias transexuais, assim como a terminologia usada na discussão sobre o tema. É importante para aqueles no ministério estar bem versado nesse tema, tanto do ponto de vista catequético, quanto do ponto de vista médico e secular, disse Dr. Lappert à reportagem.

“Um dos perigos no assunto é que a ignorância faz as pessoas responderem de formas que não ajudam — às vezes na raiva, às vezes na confusão ou com asco, reações emocionais que não servem ninguém e, certamente, não servem a Igreja”, disse ele. “Esteja tão fluente nesse tema (e nessa terminologia) que nada o surpreenda, tal que você possa servir a pessoa justamente com a verdade e a caridade”, ele aconselha. Também é importante para os padres e os líderes da Igreja ter boas cooperarem com psicólogos e psiquiatras que compartilham da visão antropológica cristã e não encorajariam as pessoas na sua disforia de gênero, disse Dr. Lappert.

Dr. Bottaro disse ter visto uma melhora na cooperação entre pastores e psicólogos que acreditam numa verdadeira antropologia cristã. “Penso que os padres estão se tornando mais e mais conscientes da necessidade disso, quanto mais volátil se torna a situação, mais óbvia e urgente é a necessidade de conhecimento sobre saúde mental sob uma perspectiva católica”, disse.

Ele disse achar que o Courage é um bom ponto de partida para o ministério, pois o apostolado tem “experiência e conhecimento para fazer a ligação.” “Este poderia tornar-se um ministério independente, mas definitivamente ele está relacionado ao que o Courage já está fazendo, então poderia tornar-se um ramo dele ou o apostolado poderia decidir que há muito mais pessoas que sofrem com os efeitos da transexualidade”, disse.

Mas o tema da transexualidade vai além daqueles que lutam com a disforia de gênero, ele acrescenta. É uma questão cultural, até mais do que uma questão psicológica. Ela precisa ser abordada no âmbito da educação, da melhora da vida familiar, do catecismo, tanto quanto precisa ser abordada na base do indivíduo. Ao longo do processo de discernimento e do cuidado pastoral para pessoas com atração pelo mesmo sexo ou com disforia de gênero, o mais importante é recordar o fundamento da identidade de qualquer pessoa, acrescenta Padre Bochanski: “Aquele de sermos criados a imagem e semelhança de Deus Pai e de sermos chamados a compartilhar da graça de Deus, como filhos e filhas d'Ele.”            


Disponível em: http://www.catholicnewsagency.com/news/the-need-for-a-catholic-ministry-to-transgendered-persons-69750/