sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

[Esp] A vitória sobre si mesmo - a mortificação (V)

Quando se fala de mortificação, muitos reagem mal, dizendo: "Ah, isso é coisa de gente medieval, hoje é suficiente o amor! Jesus já sofreu o suficiente por mim?" Ora, se não fosse necessária a mortificação, São Paulo não teria dito o seguinte: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne, por seu corpo que é a Igreja" (Cl 1, 24). Carregar a própria cruz inclui mortificar-se todos os dias, e a mortificação exterior, a seguir explicada, dá continuidade a nossos textos sobre mortificação, extraídos do livro A vida espiritual reduzida a três princípios, um clássico de autoria do Padre Maurício Meschler, S.J., que nos ajudará a entender e a praticar a vitória sobre nós mesmos.





DA MORTIFICAÇÃO EXTERIOR



1. A mortificação exterior consiste em empregarmos nossas forças morais para manter na ordem e obediência os sentidos e faculdades do corpo, a fim de nos servirmos deles segundo a razão e a consciência.

2. De um modo geral, o fim deste tipo de mortificação é nos preservar dos desvios e abusos, sempre possíveis, no emprego dos sentidos, e dispor os mesmos à prática do bem. Em outros termos, consiste em cercear tudo o que constituir perigo ou incentivo repreensível e cuja mira seja somente a satisfação própria. Abnegarmo-nos, acostumar o corpo ao que lhe parece desagradável e penoso é pratica de extrema importância. Descendo a minúcias: é necessário reprimir a curiosidade dos olhos, não lhes permitindo que tudo vejam ou leiam, mormente sem ver risco de sensualidade. Tampouco não devemos consentir em requintes no que concerne ao paladar, mas nos contentar de todo e qualquer alimento, não ultrapassar a quantidade determinada e usar de grande reserva relativamente às bebi­das. Quanto ao tato, cumpre habituarmo-nos a um trabalho sério, a um sono moderado, a suportar a fadiga e as in­tempéries das estações. Um excelente modo de disciplinar os sentidos, e isento de qualquer perigo, é observar o decoro em conformidade com a nossa condição e vocação.

3. A prática da penitência exterior requer grande prudência e moderação; não nos esqueçamos de que ela tem por fim auxiliar a natureza e nunca a prejudicar. Esse princípio nos deve servir de norma. É de grande utilidade não continuar as mesmas penitências, por um tempo pro­longado; será bom variá-las. Uma privação imposta passageiramente não acarreta, em geral, dano algum. Importa ater-lhe cada qual a um regime que não enfraque­ça as forças físicas ou intelectuais, mormente se se tratar de pessoas jovens. Pouco, porém, fielmente; dizia um santo, a propósito dessa espécie de mortificação. 

4. O primeiro motivo que nos induz a nos mortificarmos é a condição atual de nosso corpo e o seu pendor para o mal.

Conforme a doutrina cristã, após a queda primitiva, tornou-se ele uma potência do mal, um instrumento de pecado. A Sagrada Escritura denomina-o simplesmente um “corpo de pecado” (Rom. VI, 6), “uma lei de pecado” (Rom VIII, 23) e ajunta que a carne combate contra o espírito (Gal. V,17). Eis por que S. Paulo castiga o corpo (Cor. IX, 27) e apresenta a penitência própria como testemunho de sua missão apostólica. A concupiscência, que constitui pecado, reside propriamente na alma; mas esta forma com o corpo um único e mesmo ser, e, consequência dessa estreita união, o que se passa nos sentidos repercute no espírito e se torna pecado, pelo consentimento da vontade.

Quem ignora a perturbação e o dano que pode causar um olhar imprudente? É pelos sentidos que a maior parte das tentações se introduz na alma. Discipliná-los equivale a desarmar o demônio e furtar-se o homem à tentação. A penitência tem por alvo tirar ao corpo, não somente uma passividade ou excitabilidade demasiadas relativamente as impressões dos sentidos, mas, também, comunicar-lhe, de outro lado, facilidade, agilidade, disposição e perseverança para operar o bem, subtraindo-o à morosidade e indecisão, à timidez, à indolência, e o mobiliza na consecução dos bons propósitos. O melhor meio de conseguir esses resultados é a mortificação dos sentidos. Até o espírito tira proveito da penitência imposta ao corpo. O tratamento pouco lisonjeiro que ele deve infligir à carne lembra-lhe constantemente a própria fraqueza e inclinação ao mal. Perde assim o orgulho, causa funesta de todas as faltas, e evita as ocasiões de pecado. Adquire força contra a sensualidade, assim como o fervor, o ânimo, a alegria, o gosto da oração. Pela prática da penitência exterior que consiste, em suma, na mortificação corporal, o espírito reanima-se e, como águia, renova sua juventude. Das profundezas da terra eleva-se ele às alturas da pátria celestial.

5. Enfim, a mortificação nos é recomendada por todos os santos, até os mais brandos e amoráveis; aliás, eles apenas reproduzem a doutrina do Salvador. Praticavam as austeridades com o rigor que as circunstâncias e as respectivas vocações o permitiam.

Certamente, está na essência do cristianismo dar o maior apreço à mortifica­ção exterior, rejeitá-la é desistir o homem de se tornar espiritual.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

[FH] Como um homossexual pode viver a castidade - Entrevista com Dr. Gerard van den Aardweg

Reapresentamos esta entrevista, muito atual diante dos últimos acontecimentos, do Dr. Gerard J.M. van den Aardweg, holandês, Doutor em Psicologia pela Universidade de Amsterdã.  O referido doutor é especialista em terapia para homossexualidade e conta uma ampla experiência profissional neste campo. Atualmente exerce a psicoterapia em Aerdenhout (Holanda). Ministrou cursos no Brasil e publicou numerosas publicações científicas na Europa e nos Estados Unidos.A entrevista, realizada por Carmen Montón foi publicada em espanhol na "Revista Palabra", da Espanha, nº nº 442-443, abril 2001. Agradecemos ao irmão J.A.S.P. que nos ofereceu generosamente a tradução. Os grifos e negritos são nossos e o original pode ser lido aqui.



Carmen Montón (CM) – Doutor Aardweg. Um de seus livros leva o título “Homossexualidade e Esperança”, o que você pretende indicar com a segunda palavra?

Gerard Van den Aardweg (GVA) – Esperança faz referência a atitude interior de quem lida com sentimentos homossexuais. Geralmente se sentem deprimidos, ainda que o ocultem dizendo da boca para fora: "eu me aceito tal como sou". Felizes, de verdade, nunca o são.

[A palavra] "gay" significa originalmente alegre, animado, porém a palavra perdeu este significado desde que passou a ser usada para o estilo de vida homossexual. Agora a palavra passa a ter o significado de uma alegria afetada, artificial; chega quase ao exibicionismo. Basta olhar como exemplo as Paradas Gays, ou os Jogos Olímpicos de 1999 em Amsterdã para eles. Enquanto que, para os meios de comunicação, são acontecimentos divertidos, aos olhos do público são uma espécie de exibicionismo infantil que dá pena. A alegria do gay é parecida em parte com a do alcoólatra.

SEXUALIDADE NEURÓTICA

GVA – O designer de moda alemão Wolfgang Joop, homossexual, afirmava em tom cínico em uma entrevista à revista Der Spiegel: "Este é um estilo de vida que cria vícios e, também uma espécie de frieza. Como não se está satisfeito aumenta a dose e, em consequência, se multiplicam as frustrações".

Quem se identifica com sua presente natureza homossexual pode sentir um certo alívio, mas desde já se acorrenta à sua sexualidade neurótica. Por isso, o caminho contrário, a busca da verdade sobre si mesmo sem deixar-se arrastar por um derrotismo do "eu sou assim", é um caminho de esperança.

A ideia fica mais clara se considerarmos que os desejos homossexuais tem raízes em depressões que vem da juventude: sentimentos de solidão, complexo de inferioridade com relação a identidade sexual, sentimentos de autodramatização. Todo o contrário à esperança.

Tem de se dissipar toda a nuvem de fatalismo que envolve a homossexualidade: se está nos genes, ou se é uma variante a mais da sexualidade, ou se não se pode mudar. São slogans de propaganda. O convencimento de que não pesa sobre alguém um determinismo hereditário oferece perspectivas de esperança.

SOBRE A ORIGEM

CM –Então, a homossexualidade não é hereditária.

GVA – Não. Inclusive a ideia de que haja fatores hereditários que simplesmente predisponham à inclinação homossexual é puramente especulativa.

CM – Há situações familiares ou hábitos educativos que favorecem a tendência homossexual?

GVA – Claro. Nas crianças, a conhecida relação com uma mãe superprotetora, dominante; ou com um pai psicologicamente distante, ou demasiado crítico, ou pouco viril, ou que não o dá atenção em favor de seus irmãos.

Para que a filha ou o filho se identifiquem com seu próprio sexo também pode ser ruim que o pai ou mãe não se sintam à vontade com sua condição masculina ou feminina. Os pais tratam a filha como se fosse um filho, ou vice-versa, de modo que sejam ou se sintam desaprovados ou não desejados como o que são na realidade.

A família é importante, mas muitas vezes o são todavia mais os contatos com companheiros do mesmo sexo. A maioria dos homossexuais dizem ter se sentido excluídos em sua infância ou juventude por seus companheiros, na hora de julgar ou de realizar atividades. Ao menos, assim o sentem: é um complexo de marginalização, de não haver sido aceitos.

TRANSTORNO PSICOLÓGICO

CM – A Associação Americana de Psiquiatria (APA) excluiu em 1973 a homossexualidade da lista de transtornos e passou a chamá-la de condição. Quais foram as consequências de tal medida?

GVA – Exatamente as que pretendiam quem impôs essa mudança na APA. Era um grupo de homossexuais militantes. A mudança foi feita inclusive contra a opinião dos psiquiatras. Uma votação que se realizou imediatamente depois demonstrou que 70% dos profissionais seguiam considerando a homossexualidade como um transtorno. Mas a campanha e as intimidações instrumentalizaram o Conselho de direção. Foi uma decisão antidemocrática e anticientífica.

A partir de então as universidades não se atrevem a pensar de outro modo e as terapias são um tabu. O que a psiquiatria americana pensava era então normal no mundo, e na atualidade quase o mesmo.

Desde aquele momento a homossexualidade se politizou. Hoje em dia, os governos promovem sua inclusão nas aulas de educação sexual nos colégios. A epidemia de AIDS poderia ter sido controlada em grande parte do Ocidente, se continuassem a considerar a promiscuidade entre homossexuais como algo patológico.

FELICIDADE FALSA

CM –  É verdade que a felicidade de um par homossexual é igual a de um homem com uma mulher?

GVA – Um mexicano me contou que em uma novela de seus país aparecem pares heterossexuais com problemas, infiéis e separados. No meio desse caos, há uma espécie de oásis: um par de homossexuais carinhosos, a quem todo mundo vem pedir conselho.

A realidade é exatamente a contrária. Os pares de homossexuais se rompem com muita frequência. Uma investigação alemã mostra que 60% dessas relações duram um ano, e apenas 7% superam os cinco anos. Isto também o reconhecem os defensores dos direitos homossexuais.

A imagem do par de homossexuais felizes, como espelho do matrimônio, é uma mentira com fins propagandísticos. Suas relações e contatos são neuróticos. Entre eles não são exceção a infidelidade, o ciúme, a solidão e a depressão.

Para ter uma ideia melhor, em vez de olharmos para os meios de comunicação servem autobiografias de homossexuais e romances escritos por eles, aonde se vê que suas vidas estão longe de uma situação ideal.

INICIATIVAS DE AJUDA

CM  – Existem lobbies homossexuais. Há por acaso também grupos que se unam para ajudar-se a viver honestamente ou para superá-la?

GVA –Existem pequenos grupos de homossexuais cristãos que se ajudam a não praticar sua homossexualidade. Em toda a América há experiências muito esperançosas.

Para católicos, o Padre John Harvey fundou o grupo Courage. Não buscam a terapia, senão viver conforme a doutrina da Igreja. Vale a pena seguir esta iniciativa, que tem 20 anos de iniciativa. Como a homossexualidade é um problema psíquico e moral, qualquer apoio espiritual significa melhora na condição básica de toda a homossexualidade.

VIVER A CASTIDADE

CM – Como um homossexual pode viver a castidade?

GVA – Para começar tem que desejá-la, tem que se convencer de que a castidade é um ideal possível e vantajoso. Desgraçadamente, em nada se facilita esse alvo hoje em dia. Faz-se propaganda do impuro. Nas escolas introduzem a todos na prática da impureza; apenas se planta o ideal da castidade.

Os homossexuais e lésbicas com motivações religiosas são, sobre tudo, aqueles que querem viver a castidade. Como? Evitando os contatos, os locais de encontro. Lutando contra a masturbação, não cedendo às fantasias sexuais, vencendo a curiosidade na internet ou nas publicações pornográficas. Buscando ajuda e, no tempo livre, fomentando atividades saudáveis e boas companhias. 

[
Nota do Courage Brasil: O que o Dr. Van den Aardweg está propondo como caminho para que a pessoa com atração pelo mesmo sexo (AMS) viva a castidade não é nada mais do que o que o Courage propõe na suas 5 metas. Se você é um católico que tem essa cruz, entre em contato conosco e venha fazer parte desse caminho que São João Paulo II disse ser um trabalho de Deus]

PAPEL DO SACERDOTE

CM – O que pode significar a ajuda de um sacerdote para um homossexual?

GVA –  Os sacerdotes podem fazer mais do que frequentemente pensam. Por exemplo: explicar o ideal da castidade, frente ao egocêntrico e deprimente efeito da impureza. Também, falar da castidade como condição para uma emotividade madura e um amor verdadeiro, frente à impureza como costume infantilizante, que se encerra no egoísmo e bloqueia o crescimento interior.

O sacerdote pode apoiar com sua compreensão, animando ao afligido e mantendo um contato constante. Os costumes sexuais muito arraigados são como a dependência ao álcool.

O viciado em sexo – tanto homossexual como heterossexual – muitas vezes se deleita no prazer, ainda que queira deixá-lo, e a lamentação sobre seu caso é maior que o esforço por sair da situação. Por isso, é muito necessário aproximar-lhe Deus, para que reflita sobre o que espera dele e sua situação. É necessário ajudá-lo a escutar sua consciência, seus sentimentos mais puros e profundos, e que sejam estes a diretriz para suas próprias decisões.

FIGURA DO PAI

CM – Antes você mencionou o comportamento inadequado dos pais como favorecedor da homossexualidade no filho. Pode um padre fazer-se seu pai para ajudar a corrigir essa inclinação?

GVA – Não só pode, mas eu gostaria de enfatizar a importância de que os homossexuais vejam o sacerdote como pai.

Em termos psicológicos, pai significa proteção, apoio, apreciação, interesse; mas também a fortaleza, a direção, a ousadia de corrigir, exigir. Os homossexuais, homens e mulheres, precisam de uma figura paterna, que muitas vezes faltou em sua juventude. Não um pai para seguir sendo uma criança dependente, mas um pai para ajudá-los a seguir seu caminho, para continuar lutando.

Outro problema com essas pessoas é a sua solidão interior e social. Eles precisam de uma figura paterna para perseverar em uma luta nada fácil. Devemos incentivá-los a serem abertos, para saírem de si mesmos, a não buscar interesse e atenção só para si.

APRENDER A AMAR

CM – Pode-se dizer que o que eles realmente precisam é aprender a amar?

GVA – Certamente. Muitos neuróticos, tanto homo e heterossexuais, são muito egocêntricos. Em uma ocasião, um homossexual casado, com tendências suicidas, concluiu que não queria nada, nem mesmo seus filhos. Interessou-se em pequenas coisas do cotidiano e a mostrá-lo a sua esposa e filhos com detalhes concretos. Depois de alguns meses ele começou a sentir-se menos deprimido e perceber que as suas fantasias sexuais eram menos fortes, mesmo que seu esforço não se dirigisse para si.

Também neste aspecto pode o sacerdote fazer muito pelos homossexuais, ajudando no crescimento das virtudes: amor e preocupação com os outros; sinceridade contra o enganar-se a si, que é geralmente muito forte nas obsessões sexuais; força e coragem para superar a preguiça e covardia. Também é aconselhável fazê-los pensar sobre sua própria missão na vida. Temos que fazer que o desejo de uma vida reta saia do mais profundo da pessoa.