segunda-feira, 3 de abril de 2017

[Esp] AMS e amizade (1ª parte)

[O fundador do Courage, o padre John F. Harvey, escreveu a obra "A homossexualidade e a Igreja Católica. Respostas claras a questões difíceis". Agradecemos a tradução feita por um de nossos caros irmãos, referente à uma de nossas metas, a amizade, do capítulo 6 dessa excelente obra.]




As amizades humanas: benefícios e limites

(1ª parte)


1. Como os escritores de espiritualidade, incluindo-se São Francisco de Sales, descrevem as boas amizades?

Os escritores espirituais aplicam a noção de amizade ao nosso relacionamento com Deus. Na Última Ceia, Jesus diz aos apóstolos que Ele não mais os chamará de servos, mas de amigos (v. Jo 15,15). Ele fala de Sua unidade com Seu Pai Celestial e de nossa unidade com Ele. Além disso, Jesus promete enviar o Espírito Santo para nos fortalecer. Como Trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são todos um numa amizade eterna. Refletindo na verdadeira natureza da amizade em seu clássico Introdução à Vida Devota, São Francisco de Sales escreve: “Quanto mais altas são as virtudes que você divide e troca com as outras pessoas, mais perfeita será a sua amizade. Se as suas trocas mútuas e recíprocas disserem respeito à caridade e à perfeição cristã... como será preciosa essa amizade. Ela será excelente porque ela vem de Deus, excelente porque ela leva a Deus e excelente porque seu vínculo durará eternamente em Deus.” (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XIX).

O entendimento de São Francisco de Sales a respeito das várias formas de amizade é discutido em seis capítulos da Introdução à Vida Devota (Parte III, Capítulos XVII-XXII). São Francisco distingue primeiramente o amor da amizade. Pode acontecer, por exemplo, que uma pessoa ama a outra, mas esta última não corresponde à afeição. Na amizade, o amor é recíproco; além disso, ambas as pessoas reconhecem seu amor mútuo, e elas buscam compartilhar ideias e carinho enquanto se comunicam regularmente entre si.
Ainda, São Francisco acredita que a amizade “é um dos mais perigosos tipos de amor, uma vez que os outros tipos podem existir sem intercomunicação, mas amizade é completamente baseada nisso, e nós mal podemos ver tal comunicação com uma pessoa sem compartilhar das qualidades da outra pessoa.” (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XVII).

2. Existem outros tipos de amizade?

Sim. As amizades diferem de acordo com os tipos de bens que são trocados. Se os bens são falsos e vazios, a amizade é falsa e vazia. Se os bens trocados são verdadeiros, a amizade é verdadeira – e quanto melhores são os bens, melhor é a amizade (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XVII). O casamento é um exemplo de troca de bens. No casamento, “existe uma troca de vida, trabalho, bens, carinho e fidelidade indissolúvel. O casamento é, portanto, uma verdadeira amizade santa.” (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XVII).

Em um nítido contraste, as relações sexuais fora dos limites do casamento são imorais e desumanas. Como São Francisco coloca “A comunicação dos prazeres carnais é uma propensão mútua e uma isca brutal, que entre os homens não merece o nome de amizade mais do que a dos jumentos e cavalos, pela semelhança dos efeitos.” (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XIXI). Em relação às más amizades, ou até mesmo às amizades que podem ser classificadas como perigosas para ambas as partes por conta da imaturidade mútua e vulnerabilidades, o habitualmente gentil São Francisco declara “Cortai, despedaçai, quebrai... é preciso rasga-las e despedaça-las... Não há razão para fazer caso de um amor que é tão contrário ao amor de Deus.” (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XXI). Ele complementa que precisamos não nos enganar em acreditar que podemos lidar com tal situação.

3. Como escolhemos nossos amigos?

São Francisco de Sales repete que uma pessoa deve formar amizades somente com aqueles que podem trocar virtudes com você. Quanto maior as virtudes que alguém pode dividir com o outro, mais perfeita a amizade será. São Francisco chama isso de “amizade espiritual”. Por isso, “... Duas, três ou mais pessoas se comunicam mutuamente as suas devoções, bons desejos e resoluções por amor de Deus, tornando-se um só coração e uma só alma... Todas as outras amizades são como as sombras desta e seus laços são frágeis como vidro, ao passo que estes corações ditosos, unidos por um espírito de devoção, estão presos a uma corrente de ouro.” (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XIX) (Ele deixa claro que ele está se referindo à amizade que uma pessoa escolhe, não do amor da família). São Francisco continua a dizer que amizades baseadas no amor do Cristo são as melhores. Aqui, ele está falando sobre amizades que alguém escolhe para si mesmo, e ele também quer que nós valorizemos as amizades entre membros da família e parentes. São Francisco não para aqui. Referindo-se aos leigos católicos, ele diz que é necessário se unir em uma amizade sagrada. Dessa maneira, ele encoraja a viver vidas em união com Cristo. São Francisco recorda que Jesus mesmo teve amigos especiais como São João Apóstolo, Maria Madalena, Marta, Maria e Lázaro. Entre os santos se encontra muitos exemplos de profundas amizades, tais como Basílio Magno e Gregório Nazianzeno, Francisco de Assis e Clara, e Francisco de Sales e Joana de Chantal. Para aqueles que buscam a Deus, amizades santas são um grande benefício (Introdução à Vida Devota, Parte III, Capítulo XIX). Será necessário mais tarde, no entanto, discutir os limites da amizade.

4. Santo Agostinho também não ensinou sobre a amizade?

Sim. Jesus, em sua natureza humana e divina, buscou amizade com cada pessoa. Santo Agostinho amplia sobre a noção de Deus o laço da amizade humana quando diz, “Feliz o que Vos ama, feliz o que ama o amigo em Vós, e o inimigo por amor de Vós. Só não perde nenhum amigo a quem todos são queridos Naquele que nunca perdemos. E quem é esse, senão nosso Deus.” (Confissões, 4,9, 14).

De acordo com Santo Agostinho, a solução para o problema da amizade humana está na integração do amor do homem com o amor de Deus. Uma pessoa ama o amigo como a imagem de Deus; seu inimigo porque Deus assim ordenou, e porque as almas pecadoras ainda retém a imagem divina, ainda que embaçadas, assim como a capacidade para a graça divina.

Não se deve esquecer de que a bondade com que uma pessoa ama seu amigo vem de Deus e a Ele deve ser referida. As pessoas devem ser amadas em Deus. A pessoa apresenta, como se fosse, seu amigo a Deus. Preenchido com amor, ela exorta seu amigo a amar Deus percebendo que qualquer coisa linda em sua amizade é um presente divino. Por outro lado, a pessoa que abandona Deus em sua busca pelo amor humano irá sofrer a amargura de uma falsa amizade. Deus deve estar nas amizades humanas, ou elas não conterão a felicidade verdadeira (Padre Harvey, Teologia Moral, páginas 36-38).

Desenvolvendo o dom da caridade infundida em nossos corações pelo Espírito Santo, o indivíduo está aberto a amar a bondade divina em suas criaturas. Dessa maneira, a virtude da caridade nos prepara para amizades humanas. De novo, como Santo Agostinho aprendeu por experiência amarga, Deus deve estar nas amizades humanas ou elas não irão conter felicidade verdadeira.

Esse princípio genérico leva a duas perenes conclusões práticas: 1) Uma verdadeira amizade não existe a não ser que Deus seja o elo entre os amigos; e 2) A solução do problema da amizade humana está na integração do amor do homem com o amor de Deus. Longe de opor a amizade humana coma amizade divina, percebe-se que qualquer beleza em sua amizade é um presente de Deus. (Padre Harvey, Teologia Moral, página 37).

No livro Os Quatro Amores, C.S. Lewis faz uma importante distinção entre o puramente afetivo, relações sentimentais e verdadeiras amizades. Uma verdadeira amizade é a comunhão de ideais e carinho no qual duas pessoas compartilham sua busca de um objetivo comum; por exemplo, duas pessoas tem a intenção de defender a vida da criança não nascida. Ao buscar esse objetivo comum, eles descobrem que são amigos. Lewis adiciona que cada um pensa que sabe quando a amizade começou; na verdade, ela começou antes que percebessem. (C.S. Lewis, Os Quatro Amores, páginas 81-83, 87-111).

5. Como deve uma pessoa com atrações pelo mesmo sexo desenvolver boas amizades?

Uma pessoa com AMS precisa colocar Jesus Cristo em primeiro lugar em seus desejos e afeições. Por mais que ela queira intimidade e amizade com outras pessoas, ela percebe que não é possível expressar suas afeições e desejos por atos que são contrários a seu amor por Cristo e ao significado da sexualidade humana, como descrito nos primeiros dois capítulos de Gênesis e em Mateus 19, 3-8. Ela percebe que deve achar maneiras de expressar carinho castamente, ou seja, maneiras nas quais ela tenha controle sobre os desejos ilícitos e impuros, para não tentar outra pessoa com desejos impuros. A castidade é encontrada nas puras afeições do coração, e é nutrida pela oração. Assim, membros do Courage buscam amizades com outras pessoas – incluindo membros do Courage – que compartilham do ensinamento da Igreja sobre os desejos e comportamentos sexuais.

A pessoa com AMS terá mais dificuldades em praticar a castidade do que uma pessoa heterossexual, por uma simples razão: o heterossexual pode buscar a especial e exclusiva amizade do casamento para completar seu desejo por intimidade sexual com a pessoa do sexo oposto. Mas o homem ou mulher com AMS não têm essa opção porque eles não têm atração física e genital em relação às pessoas do sexo oposto. Eles são obrigados a viver uma vida enraizada na castidade – algo não possível puramente por seus poderes humanos, mas possível pela graça de Deus, como é comprovado por muitas pessoas com AMS que vivem vidas castas.


(continua)

domingo, 26 de março de 2017

[Esp] A vitória sobre si mesmo - a mortificação (VI)

A Quaresma é o tempo por excelência para exercermos a mortificação e a penitência. Mas muitas vezes achamos que essa deve ser exercida através de, apenas, castigos corporais, jejuns, e nos esquecemos que a mortificação interna também é necessária. A mortificação interior, a seguir explicada, dá continuidade a nossos textos sobre mortificação, extraídos do livro A vida espiritual reduzida a três princípios, um clássico de autoria do Padre Maurício Meschler, S.J., que nos ajudará a entender e a praticar a vitória sobre nós mesmos.





DA MORTIFICAÇÃO INTERIOR



1. A mortificação interior tem por objetivo introduzir a disciplina e a ordem nas faculdades da alma, com o intento de afastá-las do mal e torná-las aptas para o bem.

Por essas faculdades entendemos a inteligência, a vontade, a imaginação e a faculdade apetitivo-sensitiva.

2. A importância da mortificação inte­rior ressalta primeiramente da sua comparação com a penitência exterior. Esta é apenas um meio, uma condição, um fruto daquela. A primeira constitui propriamente o princípio e o fim da segunda, comunicando-lhe seu valor moral.

Abstraindo da mortificação interior, a outra é falha de consistência e se reduz, quando muito, à religiosidade de um fa­quir, um modo de adestramento aplicável aos animais. Em dadas ocasiões, a mor­tificação exterior pode suprir-se pela interior, mediante o retiro, o recolhimento de espírito e o desapego do coração. Enfim, a penitência exterior deve, necessariamente, restringir-se a certos limites; é variável quanto ao lugar, à duração e à medida; a interior, ao contrário, é ilimitada, de continua aplicação, e pode ser praticada sempre e em toda a parte. Em segundo lugar, podemos aquilatar a importância da mortificação interior, pela intima relação que ela tem com a moralidade e o exercício da virtude.

Tanto a ordem como a desordem moral, a culpa, como o mérito, têm o respectivo princípio no nosso interior.

Todo o valor moral de nossa vida, as­sim como a responsabilidade de nossos atos, se acham em nós mesmos, no co­nhecimento que temos das coisas e na li­berdade própria. Segundo o testemunho do divino Salvador é no coração que se gera o pecado. «No coração originam-se os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, às fraudes, os falsos testemunhos, as blasfêmias. São essas coisas que tornam o homem impuro, porque a boca fala da abundância do coração» (Mat. XV,18).

Ora, a penitência interior possui todas as condições e características de uma pu­ra e sólida virtude. Sólido é tudo o que procede de Deus, de um motivo sobrenatural, de uma vontade reta e sincera, de um princípio firme e verdadeiro e não da paixão, de um simples impulso na­tural; é ainda tudo o que custa, que é árduo, que pesa. Prosseguir, não obstante, é sinal certo de que não procuramos a satisfação próprio mas reagimos contra a natureza. Sólido, enfim, é tudo o que nos faz progredir, isto é, que tende a suprimir os obstáculos que em nós se opõem as comunicações da graça. Essas qualidades, próprias da verdadeira virtude, só se encontram na mortificação interior. Por isso os santos e os mestres da vida espiritual a consideraram sempre como a pedra de toque da perfeição e da santidade. Esse é também o juízo do Mestre infalível, o divino Salvador. Sem embar­go de uma justiça aparente, os Fariseus eram, a seu ver, sepulcros caiados que, sob exterioridade enganosa, ocultavam a corrupção e a morte (Mat.XXIII,27).

3. À pergunta: onde a mortificação deve, mormente, praticar-se? Respondemos: a mortificação deve exercer-se de preferência em tudo o que diz respeito à nossa vocação e constitui estorvo ao perfeito desempenho de nossos deveres de estado; em seguida, nos pontos cuja necessidade se impõe a cada um de nós, segundo as circunstâncias, as dificuldades especiais, os defeitos particulares externos ou internos e, finalmente, naquilo que for exigido ou solicitado por Deus.