domingo, 1 de março de 2015

[Esp] A importância da Quaresma e o que fazer durante esse tempo


COMO SANTIFICAR A QUARESMA





A Quaresma é tempo de santificação, e devemos tomar tomar resoluções firmes e objetivas de como santificar esse tempo. Mas quais resoluções tomar? Nada melhor do do que resolvermos resguardar melhor o nosso coração e os nossos sentidos do pecado e da distração, bem como tratarmos, durante esse tempo, da reforma do defeito que mais nos importa corrigir. Como diz São Paulo: Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação (II Cor 6, 2).

Devemos, nessa época, nos transportar em pensamento ao deserto, onde Jesus passou quarenta dias e quarenta noites. Contemplemos Nosso Senhor humilhado diante da majestade de Deus seu Pai, prostrado de joelhos, muitas vezes até com o rosto em terra, derretendo-se, ora em adorações, louvores, ações de graças, ora em súplicas para obter de seu Pai misericórdia em favor de nós, pobres pecadores. Ele juntava a essas súplicas, ainda, feitas com lágrimas nos olhos, uma incomparável mortificação, visto que durante esses quarenta dias não bebe nem come, não tem outra cama senão as pedras e a terra nua, não tem outro teto senão o céu. Tributemos a Jesus no deserto toda a nossa adoração e admiração, todo o nosso reconhecimento e amor.

Santidade do tempo quaresmal

Nosso Senhor nos ensina com o seu próprio exemplo. Ainda que a sua vida tenha sido sempre eminentemente santa, ela dá a ela, durante esses quarenta dias, um caráter exterior de santidade inteiramente especial. De que forma?

Tempo de recolhimento: Ele passa esses dias no retiro, ou seja, ele quer que nós passemos também esses dias com um santo recolhimento de espírito, condição necessária para ouvir a Deus no íntimo do coração, estuda-lo e conhece-lo, ama-lo e goza-lo. Ao mesmo tempo, devemos ter um espírito de reflexão, condição não menos necessária para conhecermos a nós mesmos e nos emendarmos.

Tempo de oração: Jesus passa esse tempo em oração para nos dizer que sejamos mais fiéis e exatos em nossos exercícios de piedade, para que rezemos mais e com mais fervor.

Tempo de mortificação: Nosso Senhor se sujeita, durante esse tempo, à mortificação mais rigorosa para nos dar a entender que é preciso, durante a Quaresma, conceder menos à sensualidade, ao gosto, ao prazer, aceitar as privações impostas pela Igreja e fazer verdadeira penitência.

É dessa forma que Jesus, com seu exemplo, nos ensina a santidade do tempo quaresmal. Esse ensino é confirmado pelo da Igreja. Qual não seria a razão de haver pregações mais frequentes, exercícios religiosos mais multiplicados? Para que são essas privações prescritas, senão para nos dizer que devemos santificar esses dias pela penitência? Abençoada seja a Igreja por esse ensino! No decurso de nossa vida esquecemos tão facilmente a penitência! Temos grande necessidade de sermos chamados cada ano a fazê-la, pois a penitência nos é indispensável, seja para expiar os nossos pecados passados, seja para evitar as recaídas a que a nossa fragilidade nos arrastaria infalivelmente.

A todos esses ensinos sobre a obrigação de passar santamente a Quaresma é acrescida uma razão poderosa, tirada dos santos mistérios da Paixão e da Ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo, aos quais a Quaresma serve de preparação. Porque o fruto desses mistérios deve ser morrermos para nós mesmos, e nascermos para uma vida nova toda em Deus e para Deus. Ora, esses mistérios não produzirão esses frutos em nós mesmos senão santificando verdadeiramente a Quaresma. Receberemos a plenitude das graças dos mistérios da Paixão e da Ressurreição se chegarmos bem dispostos ao fim da Quaresma. No entanto, sucederá o contrário se tivermos a desgraça de passar esses dias tão santos na distração, na irreflexão e na tibieza. Compreendamos, dessa forma, a santidade desse tempo e a necessidade de o passar melhor que os outros tempos do ano.

Meios de santificar a Quaresma




Primeiro: Devemos cuidar de aperfeiçoar as nossas obras costumeiras, e isso porque nisso consiste toda a santidade, ou seja, que devemos, durante esses santos dias, fazer melhor as nossas orações e os nossos exercícios espirituais, empregar melhor o nosso tempo, vigiar melhor as nossas palavras, dar a cada uma das nossas obras uma perfeição maior, e oferece-las a Deus unidas à penitência de Jesus no deserto, em expiação dos nossos pecados e dos pecados de toda a Terra.

Segundo: Devemos guardar o jejum e a abstinência que a Igreja prescreve, e se não podemos ou estamos dispensados deles, devemos supri-los com a mortificação interior, fazendo jejuar a vontade por espírito de obediência e condescendência, freando nosso gênio por uma brandura constante, nossa língua pelo silêncio ou pela discrição nas palavras, nossa boca pela privação de certos deleites de nenhum modo necessários, nossos olhos pela retenção das vistas (evitando a curiosidade), todo o nosso corpo pela modéstia de nosso porte e de nosso andar, todo o nosso interior pela supressão dos pensamentos inúteis, dos devaneios, dos desejos infinitos pelos quais o coração se deixa levar se não se contém. Essas mortificações não fazem mal nem à cabeça nem ao corpo. Fazem, na verdade, um grande bem à alma.

Terceiro: Devemos aceitar, de boa vontade, as tribulações que Deus nos envia, tais como as enfermidades, tolerar os gênios das pessoas, seus defeitos e suas vontades contrárias à nossa.

Quarto: Finalmente, devemos nos fixar em um defeito particular, cuja reforma perseguiremos durante toda a Quaresma. É este, diz São João Crisóstomo, o melhor de todos os jejuns, porque os seus frutos duram não só todo o ano, mas até na eternidade.

Estamos nós bem resolvidos a abraçar esses diversos gêneros de mortificação? Peçamos ao Divino Espírito de iluminar nossas inteligências e tomarmos nossas resoluções de Quaresma o quanto antes. Façamos boas leituras, meditemos na Paixão do Senhor e roguemos à Mãe de Misericórdia, Maria Santíssima, o ânimo para nos decidirmos e prosseguirmos em nossos bons objetivos.



(adaptado da meditação para o sábado depois das Cinzas, do livro Meditações para todos os dias do ano, do Pe. M. Hamon)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

[Esp] Por que falhamos em nossas resoluções?

resoluções, fracassos e o ano novo



 “Tenha paciência em todas as coisas, mas tenha paciência principalmente com você mesmo. Não perca a coragem por conta de suas próprias imperfeições, mas faça um esforço persistente para remediá-las.” São Francisco de Sales.

Se você for, de alguma forma, parecido comigo, você tem uma relação de amor e ódio com as resoluções de Ano Novo. Ah, você gosta da idéia, lógico. Quem não tem a fantasia de refazer completamente a própria vida por conta de uma única escolha? Mas, como a maioria de nós sabe por experiência própria, não é tão fácil. Não importa o quão forte seja a nossa resolução, nós caímos inevitavelmente.
É lógico que podemos passar alguns dias sem cair na farra, sem ficar assistindo shows da Netflix ou TV, sem comer alimentos gordurosos ou sem negligenciar os exercícios físicos. Talvez, até, durante algumas semanas ou meses. Mas, eventualmente, nós falhamos. Quando isso acontece, você despreza a si mesmo e a sua própria fraqueza. Você renova sua resolução e promete voltar ao caminho correto. E, então, você falha novamente. O desânimo começa. Ele corrói a sua resolução. Você começa a racionalizar sobre as suas falhas, começa a inventar desculpas, e antes que você perceba a sua resolução, que era tão forte há pouco tempo, evapora. Você desiste, e volta para a vida que tinha antes.

Resolução espiritual, fracasso espiritual

A não ser que você tenha uma vontade de ferro e tenha dominado completamente a si mesmo, o padrão descrito provavelmente soa muito familiar.
Mais ainda, esse padrão não se aplica somente às resoluções de Ano Novo. Ele também poderia frequentemente descrever nossas vidas espirituais. Talvez leiamos um bom artigo online sobre a importância da oração ou sobre o perigo de algum pecado. Resolvemos rezar o rosário e ler mais a Sagrada Escritura nos dias futuros, e nossas intenções são simplesmente boas. Mas, não importa o quão duro nós tentemos, parece que não conseguimos mantê-las. A cada fracasso, nossa resolução enfraquece, e antes que percebamos já desistimos de tudo.
O mesmo se aplica, num sentido negativo, ao pecado. Talvez você tenha combatido um pecado habitual por um longo tempo, mesmo até por anos. Você se confessa e resolve, com o auxílio de Deus, agir melhor. Mas, então, você fracassa uma, duas ou mais vezes. Você começa a se tornar amargo, e perde a esperança de superar esse pecado habitual.
Você se sente tremendamente culpado, e se castiga infinitamente. “Sou tão patético, tão fraco. Deus deve me odiar.” É isso que você começa a pensar. Sua vida espiritual se torna dominada pelo medo e pela vergonha. Talvez até você começa a ficar ressentido com Deus, porque Ele não o ajuda mais e porque ele tornou o combate espiritual muito difícil. Os sentimentos de fracasso e de amargura fazem você cair num tipo de depressão espiritual, na qual tudo isso parece não valer a pena. Você desiste completamente de cuidar de sua vida espiritual e o desejo que você teve um dia de agradar a Deus se dissolve por completo.

O justo cai sete vezes

Alguma coisa do que foi descrito acima soa familiar? Se a resposta for sim, provavelmente você tem uma relação de amor e ódio com a vida espiritual, assim como eu tenho com as resoluções de Ano Novo. Você quer agradar a Deus e ser um bom católico, mas não importa o quanto você tente, parece que caímos constantemente. O que fazer?
A primeira coisa que precisamos fazer é crescer no autoconhecimento. Somos seres decaídos, e embora o nosso orgulho se sinta ferido quando afirmamos isso, somos totalmente impotentes para fazer algo bom por conta própria. Com muita frequência não nos damos conta disso. Olhamos para nossas falhas e ficamos surpresos, como se a perfeição fosse o nosso estado normal de ser, e o pecado fosse uma aberração. Pensamos que podemos superar nossa natureza pecaminosa simplesmente com a força de vontade.
A realidade é exatamente o oposto. O pecado é o nosso estado normal de existência. Não há nenhum pecado, nenhum ato de depravação que não sejamos capazes de cometer. Deveríamos ficar surpreendidos de que não podemos fazer nada de bom, e que, quando fracassamos, nossas quedas não são nem mais frequentes nem mais graves.
Em segundo lugar, devemos abraçar, com humildade, a verdade sobre nós mesmos. Como eu disse um pouco mais acima, temos um pensamento muito elevado sobre nós mesmos e sobre as nossas habilidades. Deus quer nos curar desse orgulho e amor-próprio, e permitindo que nós fracassemos é uma maneira de fazer isso. Se nós não nos dermos conta de nossa completa pobreza, nunca avançaremos na santidade.
Com isso em mente, imagine o quanto isso inflaria os nossos egos se nós fôssemos capazes de nos tornar mestres da vida espiritual durante a noite, e isso com uma simples resolução e por mera força de vontade. Rapidamente, nós nos tornaríamos um baiacu espiritual, por assim dizer, apaixonados pela nossa própria habilidade de fazer o bem. Diríamos, de maneira arrogante, como o fariseu: “Deus, eu te agradeço por não ser como os outros homens...”
Vamos encarar cada queda como uma oportunidade de crescer no conhecimento de nossa própria fraqueza e na humilde dependência que temos de Deus. Vamos agradecer por não termos falhado com mais frequência ou com mais gravidade. Acima de tudo, lembremos que o primeiro passo na vida espiritual é nos darmos conta de nossa completa pobreza espiritual. Como Nosso Senhor disse: “Bem-aventurados os pobres de espírito.”
Em terceiro lugar, temos de rejeitar o desânimo. O desânimo e a desesperança, como eu descrevi acima, são obras do demônio, e estão enraizadas no orgulho. Ambos são mortais para nossas almas. Quando caímos em pecado, devemos nos voltar imediatamente para Deus, com um amor arrependido. Embora possamos sentir que o nosso pecado afastou Deus de nossas pessoas, isso não é verdade. Nunca é cedo demais para se arrepender. Deus está sempre esperando, como o Pai na história do filho pródigo, para correr em nossa direção com os braços abertos e nos abraçar.
Em quarto lugar, devemos nos lembrar que é o amor que restaura a nossa comunhão com Deus. São Maximiliano Kolke ensina: “Um simples ato de amor faz a alma retornar para a vida.” Quando você cair, diga imediatamente a Jesus que você o ama, e então procure agradá-lo com uma ação concreta. Esse ato de amor trará a vida para a sua alma e irá reparar o seu relacionamento com nosso Pai celestial.
Por fim, devemos começar novamente, dia após dia. Tendo a pensar que fazer resoluções para um ano inteiro é um pouco tolo. Vivemos um diz por vez, não um ano por vez. Todos os mestres da vida espiritual nos encorajam a fazer resoluções diárias e exames de consciência diários. Essa abordagem diária nos permite progredir um passo por vez e também nos levantar sempre depois de cada queda. É muito muito mais fácil, também, evitar o desânimo quando não estamos olhando para o passado ou para o futuro distante. Como o Rei Davi disse sabiamente: “Eu pago os meus votos dia após dia.”

Não perca a coragem

Perguntaram, certa vez, a um monge: “O que os monges fazem no mosteiro?” O monge respondeu: “Caímos e levantamos novamente, caímos e levantamos novamente.”

Embora possamos nos iludir de que os santos são aqueles que nunca fracassam, e ansiemos pelo dia em que seremos invencíveis em relação às quedas, isso simplesmente não é a realidade. A única diferença entre os santos e o resto da humanidade é que os santos continuaram se levantando, retornando a Deus com arrependimento até o dia de suas mortes. Cair e levantar novamente – essa é a única receita para a santidade. Aqueles que suportarem com paciência não ficarão sem recompensa, pois, nas palavras de Nosso Senhor, “Aquele que perseverar até o final será salvo.”