terça-feira, 28 de julho de 2015

[QSH] Palavras ofensivas dirigidas às pessoas com atração pelo mesmo sexo: virtude ou falta de caridade?


[Essa é uma questão que toca profundamente a todos os nossos irmãos e irmãs que desenvolveram, por motivos vários e involuntariamente, a atração pelo mesmo sexo (AMS), que em si não é pecado. A AMS é uma propensão objetivamente desordenada como aponta o Catecismo da Igreja Católica. No entanto, como outras propensões ou inclinações, não determina o caráter de uma pessoa, ou seja, é algo que ela possui, mas não algo que ela é. Quantos de nós, homens e mulheres com AMS, se viram, por incompreensão e falta de caridade de nossos parentes, colegas e mesmo amigos, reduzidos a expressões como (e perdoem-nos os leitores por colocar esses termos aqui, mas são mais do que necessários) viado, bicha, efeminado, sapatão, maricas e outros mais. Essas expressões feriram e ferem a todos aqueles que, procurando compreensão de sua tendência, acolhida (e não aceitação de eventuais situações de pecado) dentro da Igreja por parte de seus irmãos católicos, foram designados por tais chamativos. Jesus chamou os fariseus de raça de víboras por ver suas más intenções e sua persistência na maldade. Mas não chamou de prostituta à mulher do poço, à adúltera que iria ser apedrejada ou à própria prostituta arrependida. Por isso, mais do que oportuno é o seguinte texto, extraído da obra – elogiada por santos e papas – Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, do Venerável Padre Afonso Rodrigues, da Companhia de Jesus. Este é um convite à reflexão para que todos os católicos que, muitas vezes, adotam uma misericórdia de aparência, pensem no quanto podem ter contribuído, voluntariamente ou não, para o isolamento de tantos irmãos com atração pelo mesmo sexo que, desejosos de aprender a levar uma vida de santidade e castidade, ansiosos por entender o ensinamento correto sobre a sexualidade e sobre sua condição, acabaram procurando na vida gay a acolhida não oferecida por seus próprios irmãos de fé.]


DEVEMOS TOMAR MUITO CUIDADO

COM AS PALAVRAS PICANTES

QUE POSSAM MOLESTAR OU DESGOSTAR A NOSSOS IRMÃOS



Em primeiro lugar, devemos tomar muito cuidado em dizer palavras picantes. Há algumas palavrinhas que costumam picar e ferir a quem se dizem, porque dissimuladamente fazem sobressair alguma condição, entendimento ou habilidade não tão desenvolvida, ou então alguma outra falta natural ou moral. Essas palavras são muito prejudiciais e muito contrárias à caridade; e algumas vezes se costumam dizer em tom de gracejo ou por brincadeira, e então são piores e mais prejudiciais, e tanto mais quanto com mais graça se dizem, porque ficam mais impressas nos ouvintes, que se lembram mais delas. E o pior é que, algumas vezes, sucede que a pessoa que as diz fica muito contente, parecendo-lhe ter dito algo muito perspicaz e ter mostrado boa inteligência, mas se engana muito; pois nesse seu falar só mostra ter mau entendimento e pior vontade, empregando o entendimento que Deus lhe deu para o servir em dizer ditos sagazes que ofendem e escandalizam a seus irmãos e perturbam a paz e a caridade.

Diz Santo Alberto Magno que, assim como quando uma pessoa tem mau hálito na boca é sinal que tem lá dentro o fígado ou o estômago estragado, assim também quando fala palavras más é sinal de enfermidade que há lá dentro do coração. E que diria São Bernardo do religioso que é mordaz nos gracejos? Se ele, a qualquer gracejo na boca do religioso, chama blasfêmia e sacrilégio, que nome dará aos gracejos que são prejudiciais?

Essas coisas são muito alheias à vida religiosa e, assim, tudo o que é relativo a isso deve estar muito longe da boca do religioso, por exemplo, tratar os outros por comparações ultrajantes ou apelidos, troçar, satirizar, fazer ou repetir versos engraçados que toquem na falta ou no descuido de alguém, e outras coisas semelhantes; não há razão para que tais coisas sejam permitidas, quer se digam por troça ou por brincadeira, quer se digam a sério. E cada um o julgará por si. Você gostaria que outra pessoa o tratasse por comparações ultrajantes e dirigisse a você alguma ironia, e que todos se rissem do quanto se encaixa em sua condição o que nela se diz? Pois o que você não quer que se use com você, não o utilize com os outros, pois essa é a regra da caridade. Você ficaria tranquilo quando, ao dizer uma palavra menos acertada, logo houvesse quem se prezasse a prestar atenção e dela fizesse um grande discurso, troçando de você? É certo que não. Pois, como é que você quer para os outros o que você não quer para si mesmo, já que você se sentiria e ficaria envergonhado se o fizessem com você? Pois, se só de falar em ironia, troça e comparação ultrajante ofendem e ficam mal na boca de um religioso, o que se dirá para os que as realizam! Por essa razão, temos de evitar isso ao máximo, tais palavras devem estar afastadas de nossa boca, como diz S. Paulo do vício da desonestidade: “A fornicação e todo o tipo de impureza nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a gente santa.” Da mesma maneira temos de considerar esses atos; e assim S. Paulo acrescenta em seguida: “Nem palavras torpes, nem palavras loucas, nem chocarrices [insolências] e graças impertinentes.”  (Ef 5, 3-4). Não condiz com a santidade que professamos, muito menos, citar essas coisas. Admiravelmente diz S. Bernardo: “Se das palavras ociosas havemos de dar conta a Deus no dia do juízo, o que será das que são mais do que ociosas?” Que será daquelas que ferem meus irmãos? Que será daquelas perniciosas?



(Texto extraído e adaptado, em razão da linguagem barroca, do Tratado Quarto – Capítulo X do livro Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, do Venerável Padre Afonso Rodrigues, SJ)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

[Esp] AMS e amizade (2ª parte)

[Continuamos aqui a tradução do capítulo 6 da obra  "A homossexualidade e a Igreja Católica. Respostas claras a questões difíceis" escrita pelo fundador do Courage, o padre John F. Harvey. A 1ª parte pode ser encontrada aqui.]



As amizades humanas:

benefícios e limites

(2ª parte)

6. As pessoas com AMS podem desenvolver amizades com outras pessoas de ambos os sexos e se manterem castas?

Sim. Elas podem desenvolver amizades íntimas e castas com outras pessoas de ambos os sexos. A segunda parte do vídeo Retratos do Courage, intitulada “O Grito dos Fiéis”, mostra que pessoas com AMS podem e devem ter amigos próximos que partilham o objetivo comum da castidade (esse vídeo pode ser solicitado ligando internacionalmente para 1-866-232-4278 ou online no website do Courage International, www.couragerc.net). Nesse vídeo, os membros do Courage podem ser vistos juntos em reuniões, jogos, oração e eventos sociais, demonstrando que que o apoio de outros membros do Courage é, junto com a graça de Deus, um fator importante para viver uma vida casta.

Quando algumas pessoas com AMS podem ser tentadas a formar uma relação próxima muito exagerada com um amigo excluindo todos os outros, elas percebem que terão de pagar um preço muito alto por tal tentativa de intimidade. Como foi apontado pelo Dr. William Consiglio, terapeuta, essas pessoas serão muito melhores se passarem tempo com o grupo.

Então, uma pessoa pode formar amizades próximas com muitos membros do grupo (ou até mesmo fora do grupo) enquanto pratica meditações diárias sobre Jesus. Mas isso significa que alguém não pode dar preferência a um amigo em vez de outro? Não, isso enquanto ela continuar participando do grupo e considerando todas as pessoas do grupo como dignas de seu amor. Quando um membro do Courage forma uma amizade exclusiva com outro membro, no entanto, há o perigo da dependência emocional e da sexualização do relacionamento. Os limites morais, geralmente, são violados.

7. Que tipos de limites são necessários para que alguém com atrações pelo mesmo sexo mantenha uma amizade distante de se tornar sexualizada?

Ao aconselhar pessoas com AMS, eu realcei o valor de expressar afeição de uma maneira casta quando se está na companhia de outras pessoas do mesmo sexo com AMS. Alguém pode observar os mesmos limites de como homens e mulheres heterossexuais fazem ao evitar qualquer ação que diretamente excite diretamente sentimentos de luxúria com ela mesma ou com a outra pessoa. Tal conduta inclui conversas longas ao telefone, troca de carícias, ou uso da Internet para o mesmo propósito. Evitar tais comportamentos pode ser descrito como pôr um limite externo em prática.

Mas há também um limite ou proteção interna encontrada nas emoções e no coração da pessoa. Se a pessoa pratica a oração do coração regularmente, e coloca o amor de Cristo acima de toda e qualquer pessoa, ela terá uma consciência sensível, evitando no geral as ocasiões próximas de pecado. Assim, mantendo a pureza de coração, ela criou um limite dentro de sua consciência. Resumindo, a vida interior de oração é o mais importante limite.

Se, no entanto, uma pessoa carece de limites em sua consciência, ela está mais próxima de violar os limites externos, muitas vezes racionalizando que ela pode lidar com uma ocasião de pecado, e mais ainda, de que não pode cair contra pureza. Essa é a minha experiência como diretor espiritual de que uma consciência honesta, que reconhece a própria vulnerabilidade de fantasiar e cobiçar, é a guardiã da pureza de coração.

Há outra consideração a qual pode ajudar uma pessoa com AMS que tende a ser superdependente de outra pessoa, chegando ao ponto de fazer da outra pessoa um ídolo. Toda a sua vida emocional é centrada naquela pessoa. Embora a outra pessoa possa não sentir uma dependência recíproca, ele ou ela devem se retirar de relacionamentos íntimos com indivíduos superdependentes.

Nas suas Confissões, o jovem bispo Agostinho descreve sua própria superdependência no passado de um rapaz o qual ele havia convertido ao maniqueísmo. O rapaz, no entanto, retornou à fé cristã, mas morreu logo depois. Agostinho mergulhou em uma depressão muito profunda. Ele ainda não era convertido. Tudo parecia trevas ao seu redor por algum tempo, mas ele se recuperou e mais tarde recebeu a graça da conversão. Descrevendo o estado de sua alma, Agostinho medita “Ó loucura que não sabe amar homens como homens” (Confissões, 4, 7, 1). Agostinho acertou o alvo. Nenhuma pessoa, por mais que seja santa, pode satisfazer os profundos anseios do coração humano; somente Deus o pode fazer. “Tu nos fizeste para Ti, ó Senhor, e nosso coração nunca está em repouso enquanto não repousar em Ti” (Confissões, 1, 1, 1).

São Francisco de Sales adiciona que em toda amizade humana há algo faltando, porque os nossos corações são feitos para a união com Jesus Cristo.

8. Qual o papel da amizade nas vidas dos membros do Courage?

Um dos membros do Courage escreveu um texto chamado de “Os Três Pilares do Courage”. A importância da amizade aparece em muitos lugares do texto, e eu gostaria de compartilha-lo aqui:

Os Três Pilares do Courage

Eu penso nisso como os três pilares do Courage – o grupo de apoio, a sólida espiritualidade Católica e a camaradagem. No grupo nós nos recordamos das Cinco Metas, especialmente nosso foco desenvolver vidas de castidade interior (Meta Primeira). No meu grupo de apoio do Courage padres atenciosos ouvem com compaixão, e gentilmente, porém firmemente, nos instruem na verdade completa dos ensinamentos da Igreja. Eles trazem remédio para nossas almas nos dando a verdade com amor e paciência. No grupo do Courage eu também encontrei apoio e encorajamento moral de irmãos e irmãs em Cristo que compartilham das minhas lutas e tentações. Tem sido de grande conforto ser ouvido e entendido por aqueles que “estiveram lá” e sabem como é andar nesse caminho. Algumas vezes quedas podem acontecer. Mas, se reconhecermos uma queda pelo que ela é, nós chamamos o pecado pelo seu nome, vamos nos confessar e continuamos a viver. Nós tomamos medidas para evitar ocasiões futuras de pecado, e prestamos contas a nosso confessor/diretor espiritual.

O segundo pilar do Courage é o encorajamento de se aprofundar em nossa espiritualidade católica e vivê-la. Aqueles de nós com atrações pelo mesmo sexo e desejo pela castidade sabemos que precisamos da graça para atingir essa meta, e somente encontramos essa graça nas riquezas espirituais de nossa Igreja Católica – através da liturgia e recepção da Santa Eucaristia, através da confissão, adoração, do Rosário, através da oração individual e em grupo, leitura da Escritura, meditação e direção espiritual. Nós aprendemos nos apresentar para Deus com uma honestidade absoluta sobre nossas fraquezas emocionais e tentações, e nossa fome por amor - e lá, diante do Santíssimo Sacramento, nós recebemos amor, paz, aceitação e cura.

O terceiro pilar do Courage é a camaradagem. Sou afortunado por viver em uma parte do país onde membros se encontram regularmente para um convívio, seja para comermos alguma coisa, ir ao retiro juntos, ir ao cinema, ou somente para tomar uma xícara de café. Nós também estamos aprendendo a nos envolver em atividades sociais e espirituais fora do Courage como uma parte da grande Igreja.

Esses três pilares – o grupo de apoio, nossa espiritualidade Católica e a boa camaradagem – todos são auxílios para os membros de Courage, não importa qual seja nosso estado na vida, ajudando-nos a viver vidas plenas de santidade e alegria, em comunhão um com o outro e com o grande corpo de Cristo.

9. Você pode resumir tudo o que foi dito sobre amizades castas, especialmente para pessoas com AMS?

Usando citações de santos e estudiosos, eu revi o grande benefício das amizades castas. Também apontei as diferenças entre limites externos ou limitações e a necessidade de limites internos. Ambos são importantes, mas o interior é mais necessário porque vem da parte mais profunda da pessoa – o que os autores bíblicos definem como o coração. O coração é verdadeiramente o compromisso total da vontade por uma meta particular, por exemplo, em ser totalmente casto em nossos pensamentos e ações. Isso é possível somente pela graça de Deus. Nas palavras de Santo Agostinho, castidade é um presente de Deus que depende da oração.

Para manter amizades castas uma pessoa deve admitir totalmente suas próprias vulnerabilidades e não fingir que pode lidar com a situação, a qual é geralmente uma ocasião próxima de pecado. A humildade – a admissão amorosa das próprias limitações – ajuda a preservar a castidade.

A próxima observação é feita principalmente para pessoas com AMS. Recentemente, um conselheiro renomado de uma universidade Católica me disse que pessoas com AMS cometem um erro quando limitam suas amizades próximas a outras pessoas com AMS. Tenho percebido esse fenômeno tanto entre os homens como entre as mulheres. O conselheiro recomendou que homens com AMS também formem amizades castas com homens heterossexuais, e que mulheres com AMS façam isso também com mulheres heterossexuais. Esse é um bom conselho.

Quase no fim da primeira conferência do Courage, feita em Riverdale, Nova Iorque, em 1989, Dra. Maria Valdes fez uma observação de que homens com AMS devem cultivar amizades com homens heterossexuais tanto quanto com outras pessoas com AMS. No período de perguntas e respostas depois de sua apresentação, Dra. Valdes recebeu uma objeção de um dos homens, que disse “Estou com medo de formar uma amizade íntima com um homem heterossexual, porque ele pode me rejeitar como um rapaz gay”. Ela respondeu: “Esse é o problema... Você assume que todas as pessoas heterossexuais irão te rejeitar. Depois de um, dois, três strikes – você está fora.” Isso é uma suposição falsa. Muitas pessoas com AMS tem aprendido o valor de amizades próximas com homens e mulheres heterossexuais. Aqueles que não agem assim restringem desnecessariamente suas escolhas de formar amizades castas, e frequentemente se tornam dependentes em excesso de outra pessoa com AMS.

Durante os últimos vinte e quatro anos conheci muitas pessoas superdependentes e tentei ajudá-las. Geralmente a pessoa superdependente é a mais jovens, à procura de um pai; às vezes a outra pessoa não sabe o que fazer. Ela tenta evitar o jovem, mas sem sucesso porque o jovem a persegue. Eu persuadi um jovem nessa situação a procurar um psicólogo clínico. O homem mais velho manteve sua distância e sabiamente decidiu romper a relação.

Cada um de nós precisa reconhecer que as amizades humanas nos ajudam a encontrar paz de coração neste mundo, desde que nós as tragamos para nosso relacionamento pessoal com Cristo. A pessoa superdependente necessita, acima de tudo, de um relacionamento com Cristo para combater as buscas fantasiosas pela pessoa perfeita.

A pessoa que busca a pureza de coração não terá espaço para uma atitude casuística, por assim dizer, “Quão longe eu deverei ir antes que eu vá muito longe e ceda à luxúria?” Outra forma casuística é atribuir as falhas de alguém à fraqueza da vontade. Santo Agostinho responde a isso afirmando que não é a fraqueza de vontade, mas uma vontade dividida, por assim dizer, que é a fonte de nossa dificuldade. Como uma faculdade espiritual, a vontade tem sua unidade própria e, assim, não pode estar dividida. A vontade, no entanto, é pega entre um desejo ilícito (luxúria) e um bom desejo (castidade). Enquanto a pessoa somente quer parcialmente a castidade, ela não vai a lugar nenhum. Tão logo ela queira completamente a castidade – e rejeite completamente a luxúria – vai se tornar unificada, e pode agir pela castidade. A graça para fazê-lo vem do Espírito Santo. Assim, existe apenas uma vontade unificada ou uma vontade dividida.

Quando trata sobre a amizade, São Francisco de Sales exorta seus leitores a serem rigorosamente honestos consigo mesmos, evitando a miríade de racionalizações do maligno. Quero reiterar que o limite mais importante é a determinação de como uma pessoa praticará a castidade, a qual se deve ter como um dom precioso.

Podemos ter a esperança de que, através da prática da castidade e do cultivo das boas amizades, seja possível vir a abraçar mais completamente a castidade interior, ou castidade do coração, através da amizade profunda com Cristo.