segunda-feira, 12 de novembro de 2018

[QSH] Davi e Jônatas: amantes ou amigos?


O Movimento Gay, sem conhecer profundamente a Bíblia, tenta impor uma visão distorcida da amizade entre o Rei Davi e Jônatas, filho do Rei Saul. Fazendo uma abordagem rasa da Sagrada Escritura, interpretam textos fora de sua conotação histórica e cultural. Estão eles certos? Com certeza não. Davi e Jônatas foram grandes amigos, e exemplo para qualquer amizade moderna, sem nenhuma conotação sexual em seu relacionamento. O Dr. Robert Gagnon, autor do livro The Bible and Homosexual Practice (A Bíblia e a prática homossexual), mostra, com profundidade, o erro daqueles que querem deturpar a Sagrada Escritura.
A seguir, um artigo do Dr. Gagnon sobre o assunto (a página do autor pode ser encontrada aqui).

DAVI E JÔNATAS




Knust [autora que interpreta de forma heterodoxa a Sagrada Escritura] comete um erro comum a pessoas que não estão familiarizadas com antigas convenções do Oriente Próximo quando ela discute o relacionamento de Davi e Jônatas. Ela confunde a linguagem não-erótica de parentesco com a linguagem erótica do amor.
Todas as expressões que ela toma como eróticas na narrativa de Davi e Jônatas têm fortes paralelismos do Antigo Testamento e do antigo Oriente Próximo com relações não-sexuais entre parentes próximos do mesmo sexo. O narrador da Narrativa da Sucessão (1 Samuel 16, 14 até 2 Sm 5, 10) legitima a sucessão do rei Saul por Davi mostrando que Davi foi aceito por Jônatas na casa de seu pai como irmão mais velho, não como amante de Jônatas (ver A Bíblia e a Prática Homossexual, 146-54). Por exemplo:
Compare “a alma de Jônatas estava ligada à alma de Davi, e Jônatas o amava como sua própria alma” (1 Sam 18, 1; cf. 20, 17) com “a alma de [Jacó] está ligada a alma [de seu filho Benjamim] ”(Gênesis 44, 31) e “Ame o seu próximo como a si mesmo ”(Levítico 19, 18); compare-o também com a linguagem dos tratados de aliança, tais como "Você deve amá-lo como a si mesmo" (endereçado aos vassalos do rei assírio Assurbanipal) e a referência em 1 Reis 5, 1 ao rei Hirão de Tiro como "amante de Davi". "
Compare Jônatas “afeiçoou-se” a David (1 Sam 19, 1) com (1) “O rei [Saul] afeiçoou-se com você [David], e todos os seus servos te amam; agora então, torne-se o genro do rei ”(1 Sm 18, 22); com (2) “Todos os que amam Joab e estão com Davi sigam a Joab” (2Sm 20, 11); e com (3) a referência a Deus “deleitando-se” em Davi (2 Sm 15, 26; 22, 20).
Quando Davi teve que fugir de Saul, Davi e Jônatas tiveram uma reunião de despedida, na qual Davi “se curvou três vezes [a Jônatas], e eles se beijaram e choraram um ao outro” (1 Samuel 20: 41-42). Esta é uma cena erótica? Não é provável. Apenas três das vinte e sete ocorrências do verbo hebraico “beijar” têm uma dimensão erótica. A maioria refere-se a beijar entre um pai e um filho ou entre irmãos.
Num ponto da narrativa, Saul ataca seu filho Jônatas: “Você é filho de uma mulher rebelde e perversa! Não sei eu que você escolheu o filho de Jessé para sua própria vergonha e para a vergonha da nudez de sua mãe?” (1 Samuel 20, 30-34). Esta observação implica que Davi e Jônatas estavam em um relacionamento erótico? Não, Saul aqui simplesmente responsabiliza Jônatas por envergonhar a mãe que o gerou ao concordar com a reivindicação de Davi sobre o trono de Saul (cf. 2 Samuel 19, 5-6).
Quando David soube das mortes de Saul e Jônatas, ele declara sobre Jônatas: “Tu foste muito querido para mim; o teu amor para mim foi mais maravilhoso para mim do que o amor das mulheres” (2 Samuel 1, 26). O verbo hebraico para "era muito caro" é usado em sentido sexual no Antigo Testamento apenas em duas das vinte e seis ocorrências. Uma forma relacionada é usada apenas três versículos antes, quando Davi se refere a Saul como “adorável” - dificilmente em um sentido erótico. Jônatas dando seu lugar como herdeiro real e arriscando sua vida por Davi superou tudo o que Davi conhecia de um relacionamento erótico comprometido com uma mulher. Davi não está se referindo ao amor erótico por parte de Jônatas. Como Provérbios 18,24 declara em um contexto não erótico: “Há um amante / amigo que fica mais perto do que um irmão”.
A disposição dos narradores em falar da vigorosa vida heterossexual de Davi (por exemplo, sua cobiça por Betsabé) põe em evidência seu completo silêncio sobre qualquer atividade sexual entre Davi e Jônatas. Interpretações homossexuais entendem mal as implicações políticas da Narrativa da Sucessão em 1 Sam 16, 14 - 2 Sm 5, 10. Jônatas entregando seu manto, armadura, espada, arco e cinto a Davi foi um ato de investidura política (1 Sam 18, 4) que transferiu o cargo de herdeiro aparente.
A questão de enfatizar a relação próxima entre David e Jônatas foi estabelecer o fato de que Davi não era um usurpador rebelde ao trono de Saul. Ele foi suficientemente adotado por Jônatas na "casa" (família, dinastia) de seu pai. Ele se tornou o amado irmão mais velho de Jônatas. Nem os narradores da Narrativa de Sucessão nem o(s) autor(es) da História Deuteronomista mostram preocupação com o escândalo homossexual. A razão para isso é que, no contexto das antigas convenções do Oriente Próximo, nada na narrativa levantou suspeitas sobre um relacionamento homossexual.



domingo, 11 de novembro de 2018

[Esp] Meios para manter a castidade (III)


A MORTIFICAÇÃO INTERNA 




MORTIFICAÇAO DOS SENTIDOS INTERNOS
A Imaginação é uma inimiga terrível da castidade. É preciso ter o cuidado de mortificá-la, para que não esvoace livremente. Sois jovens; e a vossa fantasia, em alguns mais em outros menos, trabalha. Assemelha-se a um vulcão. Se não a enchemos de coisas boas, expele bobagens. Tratemos de afastar prontamente qualquer pensamento ou imaginação que possa, de qualquer forma, ferir a bela virtude. Uma imaginação ardente e não domada pode ocasionar a ruína da castidade. Este é um ponto de máxima importância.
Mas, para conseguir isto, é mister mortificar os ouvidos, evitando a demasiada curiosidade, a avidez de notícias. Mortificar a língua, evitando palavras grosseiras, ambíguas, palavras que podem ter mau significado. Mortificar a curiosidade de ler. Há indivíduos que devoram qualquer pedaço de jornal que lhes caia às mãos. Coisa boba e prejudicial! Depois, evitar as leituras frívolas, leituras sem nenhuma finalidade, inclusive romances bons, que Santa Teresa tanto se arrependia de ter lido. Às vezes basta a leitura de um livro para desconcertar a cabeça.
Vivamos de coisas sérias; é com a seriedade que domamos a imaginação. Eu nunca tive tempo de ler romances. Li apenas um no tempo da minha mocidade, durante as férias. Foram meus irmãos estudantes que mo ofereceram: “Beatriz Cenci”, de Guerrazzi. Quando retornei ao Oratório disse-o a Dom Bosco (eu lhe contava tudo); ele me passou uma raspança das boas: “Queres esquentar a cabeça com romances?” — disse-me com seriedade. Dispomos de tão pouco tempo, e o espaço da cabeça é tão limitado... Por isso, cumpre-nos ocupa-lo bem. Tampouco devemos perder-nos atrás de certos poetas, embora não sejam muito maus. Conheço pessoas que eram inocentes e se arruinaram com tais leituras. Portanto, não ameis muito os poetas pagãos; estudai-os em razão da língua e do estilo, mas com sentimentos cristãos, como já explicamos. Certos versos de Horácio são muito lindos, mas é preciso cristianizá-los. Leiamos, ao invés, a Sagrada Escritura. É um assunto sobre o qual insisto muito e nunca insistirei demasiadamente. A palavra de Deus é imaculada; ela purifica e virginiza os nossos corações e as nossas mentes.
Mortifiquemos também a memória. Certas coisas da vida, certas misérias e circunstâncias é preciso esquecê-las. Pensemos em santificar as nossas obrigações atuais. Deus e eu, nada mais!

MORTIFICAÇÀO DO CORAÇAO
Sim, meus caros sejamos castos de coração! Mas a castidade do coração tem suas grandes inimigas: as amizades exclusivas. Estas, no seio das comunidades, são a ruína da caridade e especialmente da castidade. As simpatias também são perigosas; revelam-se sobretudo quando nos entretemos de preferência mais com uns do que com outros por serem mais simpáticos, por se enquadrarem melhor com o nosso caráter, etc. As simpatias, se não forem trancadas, acabam por degenerar em amizades exclusivas. Não nego que haja amizades santas; estas porém, podemos conhece-las da seguinte maneira: quando duas pessoas se encontram, falam de coisas espirituais, corrigem-se mutuamente; além disso são aprovadas pelos superiores. Os que alimentam amizades exclusivas não se aperfeiçoam; pelo contrário, fazem coisas bem diferentes!...
Fora com estas coisas, que são a peste das comunidades! Amar a todos sem distinção, dispensar a todos o mesmo tratamento, sem fazer preferências. Todos somos feitos à imagem de Deus, formamos todos uma única família, somos todos irmãos. Estas coisas aqui não devem existir, e os superiores não as devem tolerar. Fora! Fora! Ou fora as amizades exclusivas, ou fora os amigos!... E também nada de bilhetinhos... Se é preciso dizer alguma coisa digamo-la a viva voz e em público.
Jamais me cansarei de vos recomendar este cuidado. Examinai-vos constantemente sobre isto. No meu tempo de colégio havia uma verdadeira guerra contra estas fragilidades; por isso, sou eternamente grato. Permito-vos que traveis “amizade exclusiva” somente com Nosso Senhor! Isto vo-lo permito e ordeno. Com Nosso Senhor não há perigo de cometer excessos. “Amando-o, serei casta!” (Santa Inês). Para rompermos tal relação de amizade exclusiva, não digo que nos devamos afastar de vez daquele colega. Sim, podemos permanecer em sua companhia, especialmente se obediência ou a necessidade o exigem, mas tratemo-lo como todos os demais; e se a escolha depender de nós, prefiramos os outros àquele.

MORTIFICAÇÃO DO ESPÍRITO
Mortificar o espírito significa: mortificar o orgulho e a soberba mediante a prática da humildade. A soberba do corpo, ou seja, a impureza, e a soberba do espírito são duas irmãs: uma arrasta necessariamente consigo também a outra, porque Deus humilha na carne quem se exalta no espírito. Quem não é humilde, cedo ou tarde deixará de ser casto.
Tivemos disto um exemplo terrível na França, em meados do século passado, quando certo frade de nome Jacinto, depois de pregar e alcançar grande sucesso nos principais púlpitos da nação, caiu miseravelmente nos laços que lhe armou uma mulher convertida por ele ao catolicismo; e com escândalo geral, apóstata obstinado, tentou reerguer em Paris o extinto galicanismo. Já aludi ao tristemente célebre Rômulo Murri, ex-padre, que causou graves preocupações à Igreja. Soberbo, elegeu-se deputado e acabou... casando-se. Quando há soberba, o desfecho é sempre este. Fato semelhante aconteceu com um certo Ferreri, aqui em Turim: pregava, confessava, era correspondente do jornal “Buona Settimana”; chegou até a concorrer com o Cônego Soldati ao cargo de diretor espiritual do seminário e depois acabou por fugir com uma penitente sua, levando vida secular, pobre, infeliz! Ai de quem não é humilde! “Quem julga estar de pé, cuide de não cair” (1 Cor 10, 12).  
Ouçamos São Bernardo; este santo nos diz que devemos merecer a graça da castidade com a virtude da humildade. São Francisco de Sales: “A castidade sem humildade é vaidade!” Devemos ser humildes; não nos julguemos mais esclarecidos que os outros, que os superiores. Sejamos humildes e desconfiemos de nós mesmos, como se estivéssemos sempre ladeando um precipício. Guiemo-nos por esta máxima: um ato de humildade hoje, para sermos castos amanhã. Humilhemo-nos, humilhemo-nos; e Deus, que concede sua graça aos humildes, nos dará a força de perseverar na castidade.

(A Vida Espiritual, do Beato José Allamano)


[Nota do Courage Brasil: quando é mencionada pessoa de outro sexo, basta adaptar, aos que tem AMS, para pessoa do mesmo sexo]
(Adendo: quanto às amizades particulares, o autor está falando das comunidades religiosas. Para as pessoas que vivem no mundo, ouçamos nosso padroeiro, São Francisco de Sales:
Hás de ouvir talvez que não se deve consagrar afeto particular ou amizade a ninguém, porque isto ocupa por demais o coração, distrai o espírito e causa ciúmes; mas é um mau conselho, porque, se muitos autores sábios e santos ensinam que as amizades particulares são muito nocivas aos religiosos, não podemos, no entanto, aplicar o mesmo princípio a pessoas que vivem no século — e há aqui uma grande diferença.
Num mosteiro onde há fervor, todos visam o mesmo fim, que é a perfeição do seu estado, e por isso a manutenção das amizades particulares não pode ser tolerada aí, para precaver que, procurando alguns em particular o que é comum a todos, passem das particularidades aos partidos.
Mas, no mundo, é necessário que aqueles que se entregam à prática da virtude se unam por uma santa amizade, para mutuamente se animarem e conservarem nesses santos exercícios. Na religião os caminhos Deus são fáceis e planos, e os que aí vivem se assemelham a viajantes que caminham numa bela planície, sem necessitar de pedir a mão em auxílio. Mas os que vivem no século, onde há tantas dificuldades a vencer para ir a Deus, se parecem com os viajantes que andam por caminhos difíceis, escabrosos e escorregadiços, precisando sustentar-se uns nos outros para caminhar com mais segurança.
Não, no mundo nem todos têm o mesmo fim e o mesmo espírito, e daí vem a necessidade desses laços particulares que o Espírito Santo forma e conserva nos corações que lhe querem ser fiéis. Concedo que esta particularidade forme um partido, mas é um partido santo, que somente separa o bem do mal, as ovelhas das cabras, as abelhas dos zangões, separação esta que é absolutamente necessária.
Em verdade, não se pode negar que Nosso Senhor amava com um amor mais terno e especial a S. João, a Marta, a Madalena e a Lázaro, seu irmão, pois que o Evangelho o dá a entender claramente. Sabe-se que S. Pedro amava ternamente a S. Marcos e a Santa Petronila, como S. Paulo ao seu querido Timóteo e a Santa Tecla.
S. Gregório Nazianzeno, amigo de São Basílio, fala com muito prazer e ufania de sua íntima amizade, descrevendo-a do modo seguinte: parecia que em nós havia uma só alma, para animar os nossos corpos, e que não se devia mais crer nos que dizem que uma coisa é em si mesma tudo quanto é e não numa outra; estávamos, pois, ambos em um de nós e um no outro, uma única e a mesma vontade nos unia em nossos propósitos de cultivar a virtude, de conformar toda a nossa vida com a esperança do céu, trabalhando ambos unidos como uma só pessoa, para sair, já antes de morrer, desta terra perecedora.
Santo Agostinho testemunha que Santo Ambrósio amava a Santa Mônica unicamente devido às raras virtudes que via nela e que a mesma estimava este santo prelado como um anjo de Deus.
Mas para que deter-te tanto tempo numa coisa tão clara? S. Jerônimo, Santo Agostinho, S. Gregório, S. Bernardo e todos os grandes servos de Deus tiveram amizades particulares, sem dano algum para a sua santidade.
S. Paulo, repreendendo os pagãos pela corrupção de suas vidas, acusa-os de gente sem afeto, isto é, sem amizade de qualidade alguma. Santo Tomás reconhecia, com todos os bons filósofos, que a amizade é uma virtude, e entende a amizade particular, porque diz expressamente que a verdadeira amizade não pode se estender a muitas pessoas.
A perfeição, portanto, não consiste em não ter nenhuma amizade, mas em não ter nenhuma que não seja boa e santa.)