quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Atração pelo mesmo sexo e vocação sacerdotal


Muitas pessoas nos enviam questionamentos relacionados à vocação sacerdotal e qual é a orientação da Igreja para pessoas com AMS (atração pelo mesmo sexo). No intuito de apresentar esclarecimentos nesse sentido, começamos com esta entrevista de Daniel C. Mattson. Dan é católico, tem atração pelo mesmo sexo e é membro de nosso apostolado. Ele é uma das três pessoas que dão seu testemunho de vida em nosso filme Desejo das Colinas Eternas. Também é autor do livro Why I Don't Call Myself Gay: How I Reclaimed My Sexual Reality and Found Peace” (Por que não chamo a mim mesmo de gay: como recuperei minha identidade sexual e encontrei a paz). O seguinte artigo foi traduzido por nossos amigos da página O Catequista, e pode ser encontrado aqui.

PORQUE HOMENS COMO EU


NÃO DEVEM SER PADRES


Por: Daniel C. Mattson

Daniel C. Mattson


Eu sou o tipo de homem que a Igreja Católica diz que não deveria ser um padre. Eu experimento o que o Vaticano chama de “tendências homossexuais arraigadas”, que, segundo a Igreja, me tornam um candidato inadequado ao sacerdócio. (...)
Eu não me ofendo com este ensinamento. Na verdade, eu concordo com isso. Estou convencido de que, se a Igreja tivesse seguido seu próprio conselho em 1961 e 2005, não nos arrependeríamos das manchetes chocantes de hoje: “Vítimas relatam horrores de abuso sexual no seminário chileno”; “Seminaristas hondurenhos alegam má conduta homossexual generalizada”; “Policiais do Vaticano flagram orgias homossexuais movidas a drogas em casa do assessor de cardeal”; “O homem diz que o cardeal McCarrick, seu 'tio Ted,' abusou sexualmente dele”. A maioria dos horríveis abusos detalhados no relatório do Grande Júri da Pensilvânia envolveu rapazes e rapazes adolescentes. Isso não é pedofilia.
O que une todos esses escândalos é a homossexualidade em nossos seminários e no sacerdócio: o resultado da Igreja ignorando suas próprias diretivas claras. Se for séria em acabar com os escândalos sexuais, a Igreja precisa admitir que tem um problema de padres homossexuais e parar de ordenar homens com tendências homossexuais profundas. O primeiro escândalo do "Tio Ted" foi "Tio Ted" se tornando padre.
Eu abordo o assunto com receio. Estou convencido de que a maioria dos padres homossexuais são homens bons e santos. Um exemplo de muitos que conheço é um padre que serve como capelão de hospital. Ele acompanha regularmente as famílias através da dor do trauma físico, da doença e da morte de entes queridos. Ele tem um carisma especial para os homens que morrem com AIDS, o que é certo que vem de seu amor por outros com tendências homossexuais arraigadas como ele. Ele ajudou muitos deles a se reconciliarem com Cristo antes da morte.
Então eu concordo com o aviso do Bispo Barron sobre os perigos de fazer de bodes expiatórios os que, como eu, têm atração por homens. Mas reconhecer o papel avassalador que a homossexualidade desempenhou em muitos de nossos escândalos passados ​​e presentes não é um bode expiatório. É a Igreja confrontando a verdade.
O arcebispo Charles Chaput, comentando o documento de 2005, escreveu: “Embora persistentes tendências homossexuais nunca impeçam a santidade pessoal – homossexuais e heterossexuais têm o mesmo chamado cristão à castidade, de acordo com seu estado de vida – eles tornam a vocação de serviço sacerdotal muito mais difícil”. Pela minha experiência pessoal, acredito que haja muitas razões para que isso aconteça, mas aqui vou me concentrar apenas em duas, diretamente relacionadas à falta de castidade.
A primeira razão é que homens com tendências homossexuais acham particularmente difícil viver as exigências da castidade. A grande maioria dos escândalos na Igreja desde 2002 envolve padres homossexuais que falham profundamente na castidade. Isso não é surpresa para mim. A castidade, estou convencido (e a evidência confirma isso), é muito mais difícil para os homens com uma inclinação homossexual do que para os outros.
Pe. James Lloyd, C.S.P., um padre com PhD em psicologia da NYU, trabalhou com homens homossexuais (incluindo padres) por mais de 30 anos como psicólogo clínico. Sobre o tema dos padres de castidade e homossexuais, ele diz: "Está claro o suficiente, a partir de evidências clínicas, que a energia psíquica necessária para conter impulsos homossexuais é muito maior do que a necessária para o heterossexual desviado".
Como muitos homens atraídos pelo mesmo sexo, às vezes, compulsivamente, me envolvo em comportamento anônimo arriscado com outros homens. Se eu fosse padre, meu pecado teria sido agravado por cometer um horrível abuso contra alguém por quem eu deveria ter sido um pai espiritual. (...)
O segundo problema está diretamente ligado ao primeiro. Se um padre não está cumprindo os ensinamentos da Igreja em sua própria vida, ele não ensinará seus paroquianos a seguir um ensinamento que ele não acredita que se aplica a ele. Assim, um grave problema com os padres homossexuais é o alto número de pessoas que não concordam com o ensinamento da Igreja sobre a moralidade sexual e, secretamente (ou abertamente), minam esse ensinamento, tanto no púlpito quanto no confessionário.
Uma história da minha jornada em castidade é instrutiva. Logo depois de reingressar na Igreja em 2009, eu pequei tendo um encontro sexual anônimo com um homem. Cheio de remorso, fui me confessar no dia seguinte, e chocantemente, o padre (um estranho para mim) me disse que ter sexo com um homem não era pecaminoso. Em vez disso, ele disse para eu arrumar um namorado, dizendo: "a Igreja vai mudar." Mais tarde, quando eu comentei sobre esse padre com aqueles que o conheciam, disseram-me que era amplamente reconhecido que ele era homossexual. Em seu livro de 1991, Gay Priests, o Dr. James Wolf entrevistou 101 padres. Todos eles disseram que discordavam do ensinamento da Igreja sobre moralidade sexual; apenas 9% deles disseram que diriam a um leigo como eu que se abstenha de fazer sexo com um homem. Esses homens nunca deveriam ter sido ordenados.
Eu reconheço prontamente que os sacerdotes que eu descrevo acima não refletem todos os padres homossexuais. O documento do Vaticano de 2005 abre uma exceção para aqueles que podem ter tido uma homossexualidade “transitória” – homens que conseguiram superar as graves feridas das tentações do mesmo sexo por meio de aconselhamento, trabalho duro, oração e autorreflexão honesta e, assim, são bons candidatos para o sacerdócio. No entanto, acho que esses homens são raros.
Como os escândalos sexuais da Igreja são esmagadoramente homossexuais, a Igreja não pode mais arriscar-se a ordenar homens com inclinações homossexuais na esperança de que essas inclinações se revelem transitórias. A Igreja precisa de homens maduros, confiantes em sua identidade e prontos para serem pais espirituais. Eu amo a Igreja, mas não sou o tipo de homem que a Igreja precisa como padre. (...)
Como seria a Igreja Americana hoje se nossos bispos tivessem levado a sério as diretrizes de 1961, 1993 e 2005? Não podemos responder a essa pergunta, mas podemos olhar para o nosso futuro e ouvir as palavras do Papa Francisco sobre admitir homens homossexuais no seminário: “Se você tem a menor dúvida, é melhor não deixá-los entrar”. Oremos para que os bispos aqui na América e em todo o mundo escutem seus sábios conselhos.

Fonte: First Things


sábado, 8 de dezembro de 2018

[EnC] "Saindo do armário" no Natal: uma resposta pastoral aos pais

“Saindo do armário” no Natal:
uma resposta pastoral aos pais

pelo Padre Phillip Bochanski


No meio de tantas alegrias que podemos experimentar no tempo natalino, também podemos nos encontrar diante de muitos desafios. Para começar, o tempo natalino é uma época tão sobrecarregada que pode deixar pouquíssimo tempo e energia para o tipo de preparação espiritual que esteja à altura de tal festa. Há tanto a ser feito. Há tantas pessoas a serem visitadas. E, enquanto o último presente é embrulhado e o último prato é preparado, todos começam a chegar. Inclusive os filhos e as filhas voltando para casa para a celebração deste feriado. Tantas novidades, tanto para acompanhar. Até que, em alguns lares – cada vez mais nestes dias, parece – há um anúncio inesperado: “Mamãe, papai... quero que vocês saibam que sou gay.”
Presbíteros, diáconos e ministros pastorais deveriam estar preparados, especialmente neste período do ano, a encontrar pais e mães que acabaram de receber esta notícia de seus filhos e que estão procurando a Igreja para obterem respostas e apoio. Como podemos ajudá-los? Como deveríamos responder?
Primeiro, não há razão para entrar em pânico. Os pais virão até vocês com as emoções alteradas, mas não há motivo para temer ou tentar evitar esta situação. Além disso, também não há motivo para dar uma resposta curta e ambígua que, por mais que venha de um desejo de fazer com que a situação não piore, este desejo poderia ser classificado, por nós, como uma compaixão mal orientada. E com alguma preparação e habilidade para imaginar a situação pela qual alguém está passando, é completamente possível falar com clareza e compaixão – e ser uma ajuda concreta para estes pais e, porventura de forma indireta, aos seus entes queridos que acabaram de “sair do armário”. Para esta finalidade, eu posso oferecer alguns pontos de discussão que poderão servir como base para a construção do diálogo:

“Compreendo o que dizem.
Porém, a verdade é que o seu filho não ‘arruinou o Natal’.”

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Não é possível “arruinar” a celebração da Natividade de Nosso Senhor a menos que esqueçamos do que se trata tal celebração: a Encarnação do Filho de Deus. O ponto central do Natal é a realidade de que Deus, em Seu grande amor para com os seres humanos, deixou de lado a Sua Glória e Majestade para assumir a natureza humana. Não se trata de um teatro: quando o Verbo fez-se Carne, Ele comprometeu-se, de forma irrevogável, a tomar parte na completude da experiência com a exceção do pecado: todos os nossos pesos, os nossos aborrecimentos, as nossas emoções, os nossos desejos, as nossas alegrias e as nossas tristezas. Ele tornou-Se um membro de uma família humana concreta e amou a Sua família e os Seus amigos com um coração humano concreto que sentiu, verdadeiramente, a dor diante da rejeição, humilhação e perda. A Encarnação, no fim das contas, significa que não importam a tristeza e a surpresa que estamos experimentando. Jesus Cristo não as ignora e deseja passar por elas conosco. Desta perspectiva, não há melhor época do que o Natal para se passar por algo deste tipo.

“Concordo com o fato de que vocês estejam magoados. Porém, vamos tentar compreender esta dor e ver o que podemos fazer com ela.”

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A novidade de que um filho ou uma filha está experimentando atrações pelo mesmo sexo e se identifica como LGBT virá, certamente, como uma grande surpresa para os pais. Todos os planos que eles tiveram para seus filhos, as ideias sobre o que os próximos anos poderiam trazer, até mesmo as pretensões básicas que estavam fazendo sobre o que se passava na cabeça dos seus filhos – sentimentos e vida interior – tudo isto ficou abalado por tal novidade. É importante que os pais reconheçam de onde vem a dor e se eles estarão preparados para entregá-la a Deus. Assim, a Natividade possibilita uma atmosfera na qual é possível abordar, de forma suave, o assunto. Em cada vez que a história da Natividade se repete, José e Maria pensavam que tudo estava resolvido até que uma mudança nos planos foi anunciada de forma brusca. “Maria está grávida! Temos que fugir para Belém! Não há lugar na hospedaria! Temos que fugir para o Egito!” A Sagrada Família dá forma à docilidade e a paz interior que vem da aceitação que, enquanto as circunstâncias inesperadas podem, por vezes, contrariar nossos planos e pretensões, Deus também tem planos para as nossas vidas e as vidas dos nossos entes queridos. A tentação que surge, quando a vida parece estar fora de controle, é apoiar-se no poder que pensamos que temos e impor o nosso próprio jeito de resolver as coisas. No entanto, Deus nos convida a entregarmos, sem reservas, o controle para Ele e confiar que Ele realizará Seus planos para nós e nossas famílias.

“Não, acho que não tenho o artigo/livro/blog/vídeo que convencerá seu filho.”

Todos os bons pais querem o mesmo: saber se seus filhos estão felizes e seguros. Quando eles percebem uma ameaça à felicidade e segurança (física, emocional e espiritual) de seus filhos, os bons pais têm, com toda certeza, o instinto de consertar a situação, resolver o problema, curar a ferida. E, enquanto isto funciona muito bem com os acidentes típicos de parque de diversão, tal mentalidade própria de uma sala de emergências não costuma funcionar numa situação similar à “saída do armário” de um filho. A realidade da atração pelo mesmo sexo é profunda e, muitas vezes, complicada. Pois envolve uma parte profunda da perceção que uma pessoa tem de si mesma e dos relacionamentos. Ou seja, não se trata de um simples problema que pode ser “consertado”. De fato, há muitos recursos bons que poderiam ser de ajuda para os pais e, às vezes, até para o filho ou a filha que se identifica como LGBT. Tais recursos serviriam para uma compreensão mais profunda do ensinamento da Igreja e a experiência da atração pelo mesmo sexo – este site [www.couragebrasil.com] poderia ser um começo; o documentário intitulado Desejo das Colinas Eternas; o livro de Dan Mattson intitulado Por que eu não me defino como homossexual; e muitos outros. No entanto, este não é o momento apropriado para os pais encherem os braços dos seus filhos com todos estes materiais (seja nos correios ou como um presente de Natal) na esperança de começar a falar com eles sobre isto. Ao fazer isto, há um risco de se alienar o filho por causa da externalização daquilo que é uma situação bastante pessoal. E, ao acontecer isto, pode-se perder a oportunidade para fazer a coisa mais importante: escutar.

“Sei que é complicado. Mas vamos tentar nos colocar no lugar
do seu filho/filha e entender o que é, para ele, esta experiência”


Muitas vezes os pais não consideram que, apesar deles estarem descobrindo esta notícia surpreendente, os seus filhos já estavam vivendo com estas atrações por bastante tempo – muitas vezes, desde a adolescência ou a infância. As atrações pelo mesmo sexo não procedem de Deus, mas elas também não procedem do nada. E, muitas vezes, as pessoas que experimentam a atração pelo mesmo sexo carregam outros fardos: questões relacionadas à autoimagem, de ser amado e aceito, de ajustar-se e fazer parte. É significante, penso, que celebramos o Nascimento de Cristo como um acontecimento no meio do Inverno e no meio da Noite. É quando nossas vidas aparentam estar extremamente escuras, frias e desoladas que Cristo entra trazendo Luz e Amor. Podemos auxiliar os pais partilhando o amor de Cristo encorajando-os a escutar, com paciência, às histórias que seus filhos e filhas têm para contar e fazer-lhes, com delicadeza, algumas questões do tipo: “Você é feliz? O que te faz feliz? O que você procura? Você está encontrando o que procura? Como posso te ajudar?”. Se os pais esperam manter uma influência na vida piedosa dos seus filhos, a comunicação compassiva é essencial desde o começo.  

“Faça tudo o que for possível para preservar a Fé neste momento.
Haverá tempo para partilhar nos dias vindouros.”

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Uma das coisas que mais preocupam os pais piedosos é que, em muitos casos, o filho ou filha que se identifica como LGBT pode sentir-se hostil com relação à Igreja e seus ensinamentos e podem ter começado ou ameaçado começar a abandonar a prática da Fé. De fato, tal situação pode fazer com que os pais sintam que eles falharam na transmissão da Fé. Por isso, há o instinto em reforçá-la de forma rápida e vigorosa. No entanto, o período que vem imediatamente depois que um filho ou filha “sai do armário” não é, geralmente, o melhor momento para discutir os ensinamentos da Igreja acerca da homossexualidade e da castidade de forma detalhada. É suficiente, em muitos casos, dizer o que qualquer pai de um adolescente teve, em algum momento, que dizer: “Eu te amo muito e acho que você está fazendo uma escolha equivocada”. (Estamos nos referindo à escolha de buscar relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, que envolvem atos pecaminosos. A experiência das atrações pelo mesmo sexo não é uma escolha consciente e não é, em si mesma, um pecado). Um pai não está traindo a Fé se ele não está citando o Catecismo em qualquer oportunidade – de qualquer forma, o filho/filha, geralmente, já sabe do ensinamento. Abordar a situação desde uma postura de escuta atenta, em vez de uma postura magisterial, mantém e constrói a confiança e o respeito mútuos e assenta o fundamento para diálogos mais específicos no futuro.
Este diálogo inicial com os pais é apenas o começo do cuidado pastoral que eles precisam e merecem. Aqui, o ministro pastoral entra numa relação de acompanhamento que requer um compromisso para fazer-se disponível aos pais no tempo que virá, o que poderá trazer, muitas vezes, novas questões e novas dores. Um grupo de suporte como o Apostolado EnCourage é um recurso excelente para oferecer aos pais; num grupo deste apostolado, os pais receberão apoio e conselhos de outros pais que estão no caminho há mais tempo. O mais importante de tudo: é necessário ensinar os pais a fazer oração – para além das orações vocais, é necessário ensiná-los a fazer reflexões reais (oração mental) sobre os eventos de cada dia, o que permitirá que eles reconheçam a Presença de Deus, mesmo no meio das situações mais caóticas. Desta forma, eles começarão a entregar-se, os seus filhos e todas as suas preocupações à Providência Divina. A Encarnação nos ensina que nenhum detalhe da nossa vida diária escapa da atenção e do cuidado do Deus Todo Poderoso. Ele Se fez fraco para poder nos fortalecer. E é numa profunda relação com Ele que encontramos cura e transformação para nós e para aqueles que amamos.


O Padre Philip Bochanski, um presbítero da Arquidiocese de Filadélfia, assumiu o papel de diretor executivo do Apostolado Courage em Janeiro de 2017, seguido de seu mandato como diretor associado do Apostolado. Anteriormente, o Pe. Bochanski atuou como capelão da célula do Courage em Filadélfia.

O original da matéria pode ser encontrado aqui.