terça-feira, 22 de julho de 2014

[Esp] A educação da vontade

Grande mal de nossa época são as vontades tíbias, fracas, pouco propensas a dominarem suas inclinações. Somos educados, desde a mais tenra infância, a lutar por uma vida cômoda, por bens materiais, e não para lutarmos pelo mais importante, que é a salvação de nossa alma. Essa questão, a mais importante de todas, se torna secundária, relegada ao tempo que nos restar de nossos afazeres diários.

Para nós, homens e mulheres com atração pelo mesmo sexo, o desânimo pode se tornar, em nosso combate diário, um grande empecilho em nosso caminho de santificação. Juntado a uma vontade fraca, pouco treinada, fará com que muitos desistam de nossa luta, luta essa que exige constância e fidelidade. O prêmio dessa luta? Não as medalhas e as honras deste mundo, mas o céu dos bem-aventurados.

Monsenhor Tihamer Toth, grande bispo e educador em seu tempo, em um de seus livros, o qual aproveitamos para indicar como leitura espiritual e do qual transcrevemos o capítulo a seguir, dá conselhos importantes sobre como educar essa potência de nossa alma e como fazê-la forte no caminho da santidade.


"Três coisas têm grande influência sobre a vontade: o sentimento, a imaginação e o temperamento. Não somos totalmente senhores deles; o “livre-arbítrio” do homem não é, pois, completo em nós. Você mesmo deve ter notado que um dia se levanta triste e abatido, e que no dia seguinte, pelo contrário, está tão alegre que tem vontade de dançar; e não pode dizer a razão nem do abatimento de ontem, nem da alegria de hoje.

O mesmo ocorre com a imaginação. De repente, e sem causa alguma, as recordações de um acontecimento passado emergem na sua memória, ou então por sob os vincos da sua fronte, ideias absurdas e imagens enganadoras se desenham. De onde vêm? Por que é que se apresentam naquele minuto preciso? Não saberia dizê-lo. E é frequente que a nossa imaginação graceje assim conosco; amiúde nos mostra dificuldades imensas e obstáculos insuperáveis no caminho dos nossos trabalhos, para nos desgostar deles. Se você tem um dente para mandar extrair ou tratar, não é o trabalho do dentista que é o mais doloroso; é a meia hora que passa na sala de espera, deixando livre campo à sua imaginação que mostra, exagerando-o atrozmente, o sofrimento que o aguarda.

Pois bem, meu filho, se não somos totalmente senhores dos nossos sentimentos e da nossa imaginação, cumpre-nos entretanto tentar estender o reino de nossa vontade até a atividade deles; cumpre-nos velar sobre os sentimentos e tomar as rédeas da imaginação. Acordou de mau humor? Não importa! Trate de sorrir e cantar, já estará vitorioso – em parte, ao menos.

Você tem um trabalho de álgebra para fazer. Sua imaginação a pinta sob imagens assustadoras: “Escuta, esse problema é tão difícil que vais suar frio!”. Pois bem, contradiga! Diga-lhe: “Não é verdade! És uma mentirosa, minha querida imaginação! A solução não é tão terrível assim: tu aumentas as dificuldades para que pareçam maiores do que são, pois afronto-as”.

Como vê, a educação da vontade é um trabalho pertinaz, no intuito de sujeitar todas as faculdades intelectuais que nela influem, tais como: a inteligência, o sentimento, a memória, a imaginação, etc. Não basta, portanto, exercitar e fortalecer a vontade, é preciso, sobretudo, esforço para coloca-la, tão completamente quanto possível, a serviço dos fins espirituais mais elevados, isto é, pô-la sem reserva sob o império da alma.

Aquele que quer se tornar um caráter firme deve se exercitar em governar seus sentimentos, na medida em que pode. A causa de muitos pecados, dureza, pensamentos de inveja e maldade, ofensas irrefletidas, brigas – essas sobretudo -, não está numa vontade má, porém numa vontade fraca que ainda não sabe se erguer ante os sentimentos que surgem de imprevisto. Não há necessidade de esforços extraordinários para vencer um pequeno mau humor, por exemplo; e, contudo, quantos preferem sofrê-lo, demasiado preguiçosos que são, a se entregarem a esse pequeno trabalho!

O exercício dos sentimentos é, pois, ao mesmo tempo exercício da vontade. A influência do sentimento sobre a vontade não consiste só em aliciá-la à ação; faz-se sentir até sobre o seu exercício e sobre a sua perseverança. Quem, pois, ousará negar que um benefício brota cem vezes mais do calor do coração, do que do frio lume da razão? E um motivo a mais ainda para educar os sentimentos é que a vontade, operando sem o coração, poderia facilmente se transformar numa máquina de querer, insensível, egoísta e teimosa; o que não faria de você mais que uma vil caricatura do jovem de caráter impecável que quer ser.

O homem de reflexão se esforça não só por vencer seus sentimentos tristes e substituí-los por outros mais alegres, mas também por conservar sempre a paz de sua alma.

O corpo e a alma estão estreitamente unidos em nós. Quando se sentir desanimado, quando vir a tristeza invadir a sua alma sem que saiba porque, tente pôr um sorriso nos lábios, esfregue jovialmente as mãos, e verá que a tristeza desaparecerá. Quando sofrer de uma dor física, ocupe sua mente com pensamentos alegres, e esquecerá em parte os sofrimentos.

Mesmo se uma desventura lhe sobrevier, procure tirar dela proveito espiritual. Deficiendo discamos, “Aproveitemos até mesmo as nossas faltas”. Roubaram-lhe a carteira no ônibus? Não se encolerize, mas reflita um pouco: como pôde estar tão distraído que não o notasse, e que precauções tomarás no futuro para que isso não mais lhe aconteça? Alguém pisou no seu pé? Não deixe escapar o “Arre”! furioso que lhe queima os lábios, mas diga baixinho: “Esta pequena dor me vale ao menos um pouco de domínio de mim mesmo”.

Quer, pois, ser um rei onipotente? Domine-se a si mesmo virilmente!

Senhorear sempre os próprios sentimentos e nunca se deixar arrastar por eles é alto grau de perfeição espiritual.

Mas, com isto, viemos ao capítulo mais importante deste livro: os meios de exercitar o caráter."

[TOTH, Tihamer. O Jovem de Caráter. São Paulo; Molokai, 2014]


domingo, 20 de julho de 2014

[Esp] A leitura espiritual e sua importância para a nossa santificação...

[A segunda meta do Apostolado Courage diz: "Dedicar a própria vida à Cristo por meio do serviço ao próximo, da leitura espiritual, da oração, da meditação, da direção espiritual particular, da participação frequente da Missa e do recebimento constante dos sacramentos da Reconciliação e da Santa Eucaristia". Como sabemos que poucas pessoas sabem o que vem a ser uma leitura espiritual e como fazê-la com proveito, publicamos o texto a seguir que fala exatamente do que é, de como fazer leitura espiritual e das vantagens da mesma para a nossa vida de santidade] 


“P
or leitura espiritual entende-se a leitura de livros piedosos feita com o fim de se aprofundar no conhecimento e estima do bem, como na detestação do mal. Não é, pois, a aquisição de novos conhecimentos, e muito menos a satisfação de nossa curiosidade, o que em primeira plana se deve ter em vista na leitura espiritual.

A vantagem da leitura espiritual consiste em:

a) esclarecer o espírito nas coisas da salvação eterna;
b) estimular poderosamente a vontade para o bem;
c) facilitar a prática da meditação.

Diz Santo Isidoro: “Quando oramos, somos nós que falamos com Deus; mas, quando lemos um livro espiritual, então é Deus que fala conosco”. A história dos Santos refere maravilhosos exemplos da eficácia da leitura espiritual. Por exemplo, Santo Agostinho, São Francisco de Assis, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa e outros mais.

Como é que devemos fazer a leitura espiritual?

1 – implorando fervorosamente, antes de começá-la, graças e luzes [do Espírito Santo];
2 – procedendo vagarosa e atentamente na leitura, aplicando à nossa vida o que se leu, como na meditação, e despertando em nós santos afetos e boas resoluções;
3 – depois, gravando na memória os pontos mais notáveis, rendendo graças a Deus e esforçando-nos por executar as boas resoluções.

Diariamente uma leitura espiritual

O que importa não é ler muito, mas ler bem.

Muito de se recomendar é que se tome nota, em caderneta apropriada, dos pensamentos mais notáveis. Dê-se preferência às obras que foram escritas por santos, ou que versem sobre santos. O Santo Cura d’Ars lia todos os dias vidas dos santos; por mais ocupado ou fatigado que estivesse, nunca deixava de fazer esta devota leitura [e assim, atingiu grande santidade]".

[WALLENSTEIN, Antônio, O.F.M. Catecismo da Perfeição Cristã. Petrópolis,RJ: Vozes, 1956. 
texto disponível originalmente aqui. Na Imagem: Rembrandt, Monge franciscano lendo, 1661.]