terça-feira, 28 de outubro de 2014

[FH] O desafio de uma vida casta - Sexualidade em uma vida casta e solteira [V]



[Continuamos aqui o assunto abordado no post anterior sobre sobre como vivenciar a própria sexualidade dentro da castidade, a partir de de textos escritos pelo Pe. Benedict J. Groeschel no seu The courage to be chaste (A coragem de ser casto) inédito ainda em português. O post anterior pode ser lido aqui]

Tendências homossexuais

Nós sugerimos já que um bom número de homens e mulheres permanecem solteiros por causa de tendências homossexuais. Uma discussão mais detalhada sobre essa condição é aqui situada. [...]

A confusão presente

No livro eu refrearei o uso da palavra homossexual como um . Apesar de eu conhecer um número de pessoas com essas tendências, eu nunca direi, “Joe é homossexual”. Para mim, Joe é uma pessoa. Mesmo que nós usemos a palavra à mão e digamos “Sam é um alcoólatra”, ou “Maria é uma psicótica”, eu prefiro dizer “este e aquele são pessoas com esta ou aquela tendência”. Deus não criou alcoólatras e psicóticos, eu nunca encontrei ninguém que Ele fez homossexual. Deus criou pessoas.

Eu escuto com frequência pessoas com tendências homossexuais dizerem que “Deus me fez desse jeito, logo deve estar tudo certo”. Eu acredito que isso seja uma racionalização. Pode ser uma racionalização muito compreensível para alguém dividido ao meio por um conflito profundo entre o desejo sexual e a obrigação moral. Por agora pode ser até mesmo uma racionalização perdoável, porém nós não fazemos nenhum favor às pessoas com tendências homossexuais quando damos a elas uma dispensa da lei moral, até porque nós não temos nenhuma autoridade divina para proceder assim. Nós que damos a dispensa podemos nos por em maior risco do que aqueles que desculpamos. Não é trabalho de um médico ou de um clérigo dizer a alguém que o errado está certo, embora isso tenha acontecido várias vezes nas histórias médica e eclesiástica.

O século vinte não descobriu a homossexualidade. Os historiadores do assunto sugerem que ela é um fenômeno humano observado desde a antiguidade clássica. O comportamento homossexual é proibido no Velho e no Novo Testamentos e nos primeiros escritos cristãos. Ele tem sido reconhecido consistentemente como contrário ao código moral do mundo cristão.

Estou convencido de que a pessoa com forte tendência homossexual, mesmo aquela com um estilo de vida homossexual reforçado pelos anos de atividade sexual (se você preferir, com uma identidade homossexual), é vocacionada a uma vida casta. Contudo, isso pode não ser uma expectativa realista até que o indivíduo esteja preparado para responder à graça da conversão moral. Leanne Payne em The Broken Image dá vários exemplos de pessoas profundamente imergidas na homossexualidade que, pelo poder da graça de Deus, vieram a ter vidas cristãs e castas[1]. Minha experiência com cristãos com tendências homossexuais a procura duma saída da sua dificuldade é semelhante à da Doutora Payne.

Homossexualidade – a falsa e a real

É a impressão de muitos psicólogos e psiquiatras que trabalharam durante suas carreiras profissionais prioritariamente com pessoas com tendências homossexuais, inclusive a de Irving Bieber, que muitas dessas pessoas são, na verdade, latentemente heterossexuais[2]. Por causa do medo da própria heterossexualidade desenvolvendo-se de algum trauma de infância, essas pessoas se sentem atraídas por alguém do mesmo sexo, como um substituto de uma pessoa do sexo oposto.

Por exemplo, um jovem pode assustar-se com a agressiva masculinidade dos colegas, ou sente repulsa por ela. Ele fica chocado por ouvi-los falando sobre suas proezas com as garotas. Sente repulsa por essa expressão da masculinidade e rejeita parte da sua própria identidade. Pouco depois ele pode encontrar outro homem que passou pela mesma experiência. Compartilhando a repulsa por essa expressão grosseira de heterossexualidade, eles aceitam uma menos agressiva: o intercâmbio dos atos homossexuais, mais gentil. Isso explica porque os “homossexuais” masculinos são geralmente pessoas gentis e mansas.

Uma garota com tendências homossexuais pode ter passado por um trauma um pouco diferente. Ele pode ter visto a sexualidade masculina como grosseira ou, na melhor das hipóteses, desinteressante. Ele pode, inclusive, ter sido forçada a um ato heterossexual. O aspecto da feminidade que é atrativo aos homens pode ser assustadora ou revoltante para ela. A garota encontra outra que está também assustada com os atos heterossexuais e elas se tornam parceiras, sem o medo e a vergonha que elas vieram a associar ao comportamento heterossexual. Nos dois casos, considero as pessoas heterossexuais latentes, porém assustados, ou “pseudo-homossexuais”.

Outro tipo de pseudo-homossexualidade é bem comum, aquele no qual a pessoa não era amada ou foi amada de um jeito errado durante a infância. Um patológico amor próprio, chamado de “narcisismo”, começa a se desenvolver depois de o pequeno pastor grego apaixonar-se pela própria imagem refletida na água. Crendo que viu um deus, ele pulou na água, afogou-se na posse ilusória do próprio reflexo e, depois, retornou à terra como uma flor. Todos nós temos um toque de narcisismo deixado pela infância, por isso devemos ser simpáticos à situação de alguém que é levado a buscar outra imagem como a sua.

Nas relações mais saudáveis, o narcisismo residual da infância é tacitamente reconhecido e integrado entre os fatores saudáveis dum bom relacionamento, como entre o professor e o aluno. Em casos graves a pessoa infeliz é levada ao longo da vida a se agarrar e adotar alguém que seja a imagem idealizada de si própria. Nunca encontrará essa imagem, posto que não existe ninguém que seja a outra versão de si, e vagará através de várias paixões que terminam em desastre emocional.

[continua...]


[1] PAYNE, Leanne. The broken image. Westchester, Ill: Crossway Books, 1981. Em português existe uma versão publicada sob o título: ‘Imagens partidas. São Paulo: SEPAL, 2001’. A versão em português se encontra infelizmente esgotada.
[2] Irving Bieber, et al. Homosexuality a psychoanalytic study of male homosexuals. New York: Vantage Books (Alfred A Knopf).

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

[QSH] Homossexuais ou pessoas com atração pelo mesmo sexo?



[Muitos nos questionam: “Porque vocês dizem ‘pessoa com atração pelo mesmo sexo’ ao invés de ‘homossexual’?”. Apresentamos a resposta do nosso diretor internacional, Padre Paul N. Check, em uma entrevista ao Jornal ‘Catholic World Report’ em setembro de 2013. O original da entrevista completa pode ser encontrado aqui]

Catholic World Report (CWR): Dentro do Courage vocês fazem uma clara distinção entre a atração pelo mesmo sexo e o estilo de vida gay. Você pode esclarecer a diferença?
Pe. Paul Check, diretor internacional
do Apostolado Courage

Padre Paul Check: A pergunta mais importante já colocada na história da humanidade foi feita por Nosso Senhor, quando disse aos apóstolos: “Quem dizeis que eu sou?”[1]. É uma questão de identidade, porque é a partir de sua compreensão que descobrimos como viver de uma maneira consistente junto à ela. Não vou dizer que é sempre fácil, porque temos a concupiscência, mas a fim de compreendermos a maneira correta de pedir, primeiro temos que responder claramente a questão do ser.

No que diz respeito à pessoa humana, a pergunta ‘Quem sou eu?’ é melhor respondida com a compreensão de que somos filhos de Deus redimidos pelo sangue de Cristo e chamados a ser seus discípulos. Somos convidados a crescer nesta vida de graça e de glória na vida futura. Esta é a base da parte mais importante e essencial da nossa identidade.

Agora, há outras coisas que compõem nossa identidade. A nossa família humana e de onde pertencemos geograficamente. Essas coisas também são importantes, mas não tão importantes como a questão fundamental da nossa identidade: a de sermos filhos de Deus.

Fomos criados como seres sexuais e esta história nos é contada no livro de Gênesis, que não é um livro de ciência, é claro, e não nos diz em termos precisos como o homem veio a ser criado. Porém, diz precisamente quem somos, quem devemos ser e a quem somos destinados a olhar para a compreensão da nossa identidade. Nessa história do Gênesis é claro que Deus, em sua sabedoria, dividiu a raça humana de tal forma que a natureza humana é expressa no masculino e no feminino.

Existe uma questão teológica e antropológica muito rica. Apesar disso, para nossos propósitos aqui, enquanto há a natureza humana, que é sempre expressa muito concretamente em uma pessoa (uma pessoa que é masculina ou feminina) a identidade sexual é também algo essencial para ela. E, a fim de saber quem somos e como a identidade sexual é devidamente expressa, nós voltamos nosso olhar para a história do Gênesis e aprendemos sobre a união do homem com a mulher, a fecundidade de Deus em seu plano, e como seus dons de fecundidade estão associados com a faculdade sexual e são inerentemente ligados à intimidade sexual.

Com esse preâmbulo, a razão pela qual eu penso que a Igreja evita os rótulos de “gay”, “homossexual” e “lésbica” como substantivos é porque em sua sabedoria materna e em sua caridade, seguindo a história de quem o homem é, ela não quer fazer a identidade de alguém entrar em colapso apenas por conta do seu apetite sexual. Isso parece injusto e não caridoso. É preciso um pouco mais de caridade para dizer que uma pessoa tem atração pelo mesmo sexo do que usar rótulos que são muito populares na cultura de hoje.

Ao dizer isto, é claro, eu não estou de forma alguma minimizando a força, a intensidade, a duração ou a frequência dos sentimentos de atração pelo mesmo sexo e quão importante esses sentimentos são para alguém que quer se auto-compreender. Nós só queremos dar à atração pelo mesmo sexo a etiqueta apropriada. Não exagerando-a, mas claramente não diminuindo ninguém a tão pouco.



[Padre Paul N. Check, 'Homosexuality, Identity, and the Grace of Chastity' (Homossexualidade, Identidade, e a Graça da Castidade), entrevista para o jornal 'Catholic World Report' em 03.IX.2013]


[1] Cf. Mt 16,15; Mc 8,29; Lc 9,20.