terça-feira, 2 de setembro de 2014

[FH] O desafio de uma vida casta - Sexualidade em uma vida casta e solteira [I]

[Muitos irmãos que lutam contra a atração pelo mesmo sexo (AMS) nos questionam sobre como vivenciar a própria sexualidade dentro da castidade. Muitas vezes, por falta de clareza sobre o assunto, acabam por desistir sob o falso argumento de que a castidade lhe "impede de viver a sexualidade". Diante desse desafio, apresentamos a partir de agora uma série de textos escritos pelo Pe. Benedict J. Groeschel no seu The courage to be chaste (A coragem de ser casto) inédito ainda em português.]

Certo número de psicoterapeutas vêm indicando em anos recentes que um fator comum nas vidas daqueles com sérios problemas de ordem sexual é o irrealismo, uma bem enraizada falta de vontade de aceitar a realidade. A aceitação, ou afirmação, da realidade é o ponto de partida para qualquer luta consigo próprio, e de acordo com Van Kaam, é o começo da mudança terapêutica [1].
Qualquer um com sérios problemas de ordem sexual está sempre esperando irrealisticamente pela Rainha Guenivere ou pelo Sir Galahad, pela donzela perfeita ou pelo cavaleiro branco que vai chegar. Paradoxalmente, uma das formas mais perigosas deste irrealismo é pensar que alguém pode viver sem sexualidade. Esta é a velha heresia do maniqueísmo, ou catarismo, que tempos atrás levou a terríveis excessos sexuais aqueles que procuravam ser absolutamente puros. Esses hereges desorientados são um lembrete de que um dos irrealismos sexuais mais perigosos é a pretensão de que humanos possam ser anjos.
Aceitar e viver com a realidade de que Deus nos fez criaturas corporais não significa que devamos voluntariamente ser indulgentes com o prazer sexual. Isso significa reconhecer que nossa sexualidade será freqüentemente sentida e experimentada de muitas maneiras. Porque a expressão sexual na sua forma máxima está vinculada com emoções delicadas e com a necessidade de intimidade, a pessoa à procura do celibato casto não deve suprimir a delicadeza e a emoção, enquanto procura evitar o comportamento pregenital ou genital. Como em muitas áreas de conquista humana, o avanço é como faca de dois gumes, evita-se, por um lado, um puritanismo irreal e, por outro, uma indulgência com um comportamento inapropriado que se disfarça de virtude. Eu vim a suspeitar tanto da batalha angélica dos anos 1940, como da “terceira via”[2] dos anos 1970, sendo ambas negações da realidade sexual.
O cristão solteiro e casto deverá viver com impulsos e necessidades sexuais, com fantasias e tentações, e talvez, às vezes, com sentimentos de raiva e frustração, porque o chamado de Deus faz impedimento à satisfação dum tão forte impulso. A autopiedade não será de uso algum. Ela se desfará pelo reconhecimento de que todos os seres humanos lidam com impulsos que eles não podem ou não devem satisfazer.
Afinal, quem pode viver com saúde e saciar todo apetite por comida? Quem pode expressar raiva e aborrecimento sem limitação? Quem pode levar uma vida de indulgência a qualquer prazer, sem limite?

Pode alguém ceder sem qualquer freio ao impulso sexual e ser uma pessoa equilibrada? A pessoa casta e solteira deve ser capaz de usar mais restrição e tolerar mais a frustração deste apetite. Ele ou ela devem ser semelhantes a um asceta, que conscientemente modera todos os apetites e restringe substancialmente um em especial, o da sexualidade.
Intimidade e a vida de solteiro

A grande questão enfrentada pela pessoa solteira é a intimidade. Acaso a pessoa solteira deve ser solitária, alguém com emoções reprimidas e sentimentos engarrafados, que se mostra pouco caloroso e afetuoso? Quando a questão é posta desta forma, até o mais sóbrio puritano da primeira metade do século XX responderia: Claro que não.
Ainda assim, permanece a interessante e perturbadora questão: Uma pessoa casta e solteira, religiosa ou leiga, tem de evitar relacionamentos de intimidade e afeto que possam levar a uma expressão sexual? Muitos escritores atuais diriam entusiasticamente que não. Eu estou inclinado a dizer “às vezes sim, às vezes não”. Esta é, admitidamente, uma resposta mais desafiadora e vai aborrecer aqueles que gostam das soluções fáceis, especialmente numa área tão imprecisa como as necessidades psicossexuais. Porém, respostas desafiadoras para questões complexas, são o que torna a vida interessante. Vejamos o que podemos fazer para  esclarecer  esta aparente ambigüiddade.
A necessidade de intimidade e apoio emocional é tão complexo como o impulso sexual é simples. Observações de pássaros e abelhas indicará que a satisfação da necessidade genital é a coisa mais simples do mundo. Mesmo entre os seres humanos, os atos sexuais, assim como as relações sexuais, estão prontamente disponíveis até para os mais imprudentes e desajuizados.
Porém a necessidade de afeto e intimidade pessoal é muito complexa. O bebê aprende a expressar essa necessidade muito cedo. Cientistas do comportamento observaram que distorções na satisfação da necessidade de afeto e amor na infância podem conduzir a um desastre, mais tarde. A criança precisa de todos os tipos de afeto e reforço emocional, se é para ela crescer. As necessidades afetivas dos bebês e crianças são desprovidas duma expressão sexual direta, no sentido adulto do termo.
Na experiência do adolescente, alguns relacionamentos afetivos têm possivelmente tons sexuais. Ele amará seus amigos de  um jeito e suas amigas de  outro jeito. Até mesmo o adolescente, menino, com tendências homossexuais, será capaz de experimentar afeição por mulheres, apesar de ele experimentar pouca ou nenhuma atração sexual por elas. O mesmo é verdadeiro sobre a garota com tendências homossexuais.
Todos os seres humanos razoavelmente equilibrados experimentam atração não-sexual e respostas afetuosas a outros. Membros da família, idosos, crianças, pessoas que não são atraentes sexualmente, amigos todos podem ser objetos da nossa forte necessidade de afeto e resposta. Quando eles respondem calorosamente à nossa necessidade deles, podem nunca suscitar a mínima atração sexual.


Foi uma ilusão de Sigmund Freud uma ilusão que lhe custou muitos dos seus mais devotos discípulos que toda atração é libidinosa e baseada numa necessidade sexual disfarçada. Poucas pessoas nas ciências comportamentais atualmente levam o pansexualismo de Freud a sério, embora muitas, inclusive eu, suspeitam que toda necessidade afetiva, sexual ou não- sexual, desenvolve-se da experiência singular e indiferenciada do bebê.
Embora nós todos tenhamos relações próximas que  são claramente não-sexuais, as mais desafiadoras são as relações afetivas que podem ter alguns elementos sexuais. É óbvio que a pessoa que escolheu ser casta e solteira por qualquer das razões apresentadas no capítulo 2 deve evitar relações próximas que levem à expressão sexual e, eventualmente, à genital. A maioria de nós têm amigos que são ou podem ser atraentes sexualmente para nós. Não exige muita imaginação compreender que, caso a restrição não fosse usada em todos os aspectos da relação, tais amizades poderiam conduzir o desejo à expressão sexual direta.
O exemplo mais óbvio da necessidade da restrição e dos jeitos sutis como ela é observada é a amizade entre casais da mesma idade. Presumivelmente, os parceiros do sexo oposto poderiam facilmente ser atraentes uns para os outros. Em semelhante “amizade de casais”, é  fácil observar que propriedades e restrições sutis são rapidamente empregadas.
O solteiro celibatário está numa situação mais difícil, com respeito a amigos que são sexualmente atraentes. Primeiro de tudo, a vida celibatária pede por mais controle na área sexual do que a vida matrimonial ordinária. Expressões de afeto podem facilmente conduzir à fantasia sexual. Se a pessoa sempre levou uma vida casta, a fantasia sexual é mais forte porque a sexualidade ainda tem uma aura mitológica em torno de si. A abstinência pode acidentalmente alimentar o irrealismo. Isso fez com que muitos religiosos celibatários se afastassem de um amplo campo de relações humanas que poderiam, possivelmente, ter elementos sexuais.
A pessoa solteira à procura de evitar qualquer relação em que a atração sexual possa acontecer será em breve encurralada num beco sem saída. Por outro lado, as pessoas solteiras que se comprometem com relações próximas, expressivas emocionalmente, com amigos sexualmente atraentes, se encontrarão com freqüência a caminho do casamento, ou pelo menos em um caso amoroso. Muitos propositores da “terceira via” para celibatários se encontraram exatamente nessa situação.
Talvez este complexo desafio seja mais simplificado por algumas poucas sugestões práticas. Isto é apropriado de modo especial, uma vez que nós dificilmente encontramos esses problemas teoricamente; nós os confrontamos todos os dias.
1.   A pessoa solteira deve cultivar uma ampla variedade de relações, algumas delas íntimas e afetuosas, obviamente. Elas devem incluir relações com a família e os amigos e, talvez, com algumas poucas pessoas que possam ser sexualmente atraentes. Muitas pessoas sozinhas falham em compreender que as amizades devem ser cuidadas e cultivadas como plantas em um jardim. Se você pensa que você deve ser amado porque você é você, errou de vocação. Você devia ter sido Deus.


2.   Ao menos um amigo íntimo, preferencialmente alguns poucos, são necessários na vida de cada um. Se você quer estar em paz e ser castamente solteiro, é sábio formar amizades com pessoas que não são sexualmente atraentes para você. De outro modo, a vida fica muito conflituosa. Amizades íntimas com pessoas sexualmente atraentes levam geralmente a alguma expressão sexual ou conflito.
3.   A amizade mais poderosa pode ser formada com o companheiro do caminho interior”. Esta relação, tão bem descrita por Morton Kelsey, é de particular importância para a pessoa casta e solteira [3]. O que é mais compromissório do que se encontrar com outros na jornada espiritual, que Santo Agostinho chama de a jornada mais longa, a corrida até o Sinai interior?
Verdadeiros companheiros espirituais devem sempre aceitar que Deus tem o apelo primordial ao nosso amor. Estas amizades pela sua natureza mesma não devem ser exclusivas nem manipuladoras. Deve-se ter vários companheiros espirituais, se possível. Se acontecer  de alguém ter atração sexual, a amizade não precisa ser terminada, mas a honestidade e a retidão de intenção (propriamente chamado de pureza de coração) devem ser preservadas sempre. Quando a companhia espiritual conduz à relação sexual fora do casamento, os envolvidos podem ferir-se a si mesmos e a outros, pois serão capazes de reforçar os mecanismos de negação e a racionalização um do outro. Essas amizades podem sobreviver, embora o aspecto espiritual diminuir. Se, porém, a pessoa decidiu ser celibatária antes, um profundo conflito será gerado e alguém sairá machucado, definitivamente.
[continua…]



[1] VAN KAAM, Adrian. The Art of Existential Counseling. Denville, N.J.: Dimension Books, 1966, capítulo III.
[2] Para aqueles não-familiarizados com a expressão, a “terceira via” é uma expressão que define a teoria de que aquelas pessoas que tem votos de castidade podiam se envolver em relações profundamente emocionais com o sexo oposto sem perigo real para seu voto. Como poderão ver no texto a seguir a teoria da “terceira via” é bastante prejudicial e falha, enquanto que a tradição ascética da Igreja é benéfica e realmente integradora.
[3] Cf. KELSEY, Morton T. Companions on the Inner Way. New York: Crossroad, 1983. O companheiro do caminho interior Segundo Kelsey é aquela pessoa que, como você está empenhada decididamente numa mesma escalada espiritual  rumo a Deus. O que poderíamos chamar de amigo espiritual".