sábado, 4 de janeiro de 2020

[Atld] Entrevista com o coordenador nacional do Courage


Todos têm uma mesma identidade fundamental:


pela graça, filhos de Deus


 
Coordenador nacional do apostolado Courage, Maurício Abambres, 49, percorre o Brasil para falar sobre o caminho proposto pela Igreja Católica aos homens e às mulheres que sentem atração pelo mesmo sexo e buscam viver a fé com sinceridade e liberdade. 
Em entrevista ao O SÃO PAULO, o assessor jurídico do Tribunal de Justiça de São Paulo partiu de sua própria história de vida para explicar como é realizado o acompanhamento pastoral das pessoas com tendências homossexuais, assim como os desafios que existem dentro e fora da Igreja em relação a esse tema. Confira a entrevista. 
O SÃO PAULO – DESDE QUANDO VOCÊ PERCEBEU QUE TEM ATRAÇÃO PELO MESMO SEXO? 
Maurício Abambres – Para entender melhor minha caminhada, é preciso explicar um pouco da minha origem. Eu venho de uma família em que não havia uma referência masculina, digamos, saudável. Eu não conheci meu pai e meu avô era alcoólatra. 
Eu nunca me identifiquei muito com aquilo que era comum nos meninos da minha idade, como jogar bola, e sempre admirava os rapazes, desejava ser como eles, mas, para mim, era um mistério como os homens agiam. Ao mesmo tempo, tinha maior facilidade para ter amizade com as meninas, embora eu nunca tenha tido interesse pelas brincadeiras das meninas, me vestir ou me portar como elas. Apenas tinha uma afinidade maior. Sobretudo a partir da adolescência, a minha busca pela figura masculina foi ficando “sexualizada”.
VOCÊ JÁ FREQUENTAVA A IGREJA? 
Minha família sempre foi dos chamados “católicos de IBGE”, nunca viveram a religiosidade, de fato. Com 16 anos, eu me aproximei da Igreja por causa de um amigo que começou a ter uma prática religiosa mais intensa. Então, comecei a participar da Renovação Carismática Católica (RCC). 
Com 19 anos, conheci um monge beneditino que me perguntou se eu não queria seguir a vida monástica, e acabei ingressando no mosteiro, onde fiquei por quatro anos. Foi uma experiência muito boa e séria. Não tive problemas em relação à vivência da castidade, embora minha tendência persistisse e sempre fui transparente com o meu diretor espiritual a esse respeito, buscando seguir o caminho proposto. 
E POR QUE VOCÊ DEIXOU A VIDA MONÁSTICA? 
Deixei o mosteiro por outras razões relacionadas à vida comunitária com as quais não me identificava. Voltei a trabalhar e a participar do grupo da Igreja do qual fazia parte antes. Só que lá não havia muita abertura para tratar dessas questões. Só me diziam para viver a castidade segundo a Doutrina da Igreja, sem, de fato, responder às inúmeras dúvidas e questões que tinha dentro de mim. Não me via em um casamento e construindo uma família, tampouco como um religioso ou sacerdote. Perguntava-me qual seria o meu lugar na Igreja e no mundo. 
Ao mesmo tempo, trabalhava com um rapaz que vivia uma vida assumidamente gay, e isso me despertou uma curiosidade por esse universo. Com 27 anos, cansado de não ter respostas e um acolhimento, abandonei a vida da Igreja. De certa forma, encontrei um acolhimento no outro grupo. Com isso, passei a viver um estilo de vida gay até por volta dos 40 anos. Nesse período, tive relacionamentos estáveis, uma vida promíscua, usei drogas etc. Mesmo assim, nunca critiquei a Igreja. Procurei outras formas de viver a religiosidade em diferentes tradições religiosas. Nada disso, porém, me satisfazia realmente do ponto de vista da fé.  
QUANDO CONHECEU O COURAGE? 
Depois de muitos anos, eu voltei a me aproximar da Igreja. Ia à missa, mas não comungava, até porque eu vivia publicamente uma vida gay. Então, tomei coragem e terminei o relacionamento que tinha e procurei um sacerdote para me confessar. Só que, ao mesmo tempo, eu me questionava, pois sabia que teria que seguir os ensinamentos da Igreja, mas não sabia como. Comecei a pesquisar na internet sobre o assunto e encontrei o site do Courage, nos Estados Unidos, escrevi para eles e me informaram que havia um grupo no Brasil. 
No começo, tive receio, pois temia que fosse algo relacionado a grupos que se dizem “inclusivos”, que relativizam a Doutrina e a Moral católica, sendo que eu já sabia o que a Igreja ensinava, e só precisava de ajuda para viver esse ensinamento. Eu tomei coragem e participei do primeiro encontro em 2012 e, a partir daí, comecei a compreender mais o que a Igreja propõe para as pessoas com atração pelo mesmo sexo. Compreendi que vivendo como um leigo solteiro, consciente dessa tendência, eu posso ser útil para a Igreja a partir da vivência das metas indicadas pelo Courage. Depois de um tempo, fui indicado para coordenar o apostolado no Brasil e aqui estou. 
HOJE, COMO VOCÊ ENTENDE A HOMOSSEXUALIDADE? 
Depois de ler, estudar e fazer esse caminho no Courage, olhando para a minha vida e para a de muitos que participam desse apostolado, eu vejo que não é algo que tenha causas completamente definidas. Por isso, a Doutrina da Igreja usa sempre a expressão “inclinação desordenada”, ou seja, uma tendência que está fora da ordem natural. Outra coisa que precisa ficar clara é que a Doutrina católica não considera a atração pelo mesmo sexo um pecado. Uma inclinação desordenada pode levar ao pecado, mas não é um pecado em si. Por exemplo, se uma pessoa que tem a tendência a comer demais e se deixar levar por isso, cometerá o pecado da gula. 
Infelizmente, o mundo moderno reduz a sexualidade à genitalidade, mas é muito mais do que isso. O ser humano se realiza no dom de si a Deus por meio do próximo, e a sexualidade faz parte disso. Penso que a Psicologia poderia estudar essas questões com mais profundidade sem amarras ideológicas. 
COMO VOCÊ COMPREENDE A AFIRMAÇÃO DO PAPA FRANCISCO SOBRE OS HOMOSSEXUAIS, EM 2013?
Naquela ocasião, o Papa Francisco disse: “Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?” Essas frases não podem ser pinçadas do seu contexto. Nós temos que ir além e entender todo o magistério de Francisco, que, por exemplo, na Exortação Apostólica Amoris Laetitia recorda que Deus criou o homem e a mulher para se unirem e reafirma que as uniões entre as pessoas do mesmo sexo não são legítimas, assim como fala do acompanhamento pastoral dessas pessoas. No livro “O nome de Deus é misericórdia”, o mesmo Francisco recorda que “as pessoas não devem ser definidas apenas por suas tendências sexuais”, reforçando o que o então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI, afirmou em uma Carta da Congregação para a Doutrina da Fé em 1986: “A Igreja oferece ao atendimento da pessoa humana aquele contexto de que hoje se sente a exigência extrema, e o faz exatamente quando se recusa a considerar a pessoa meramente como um ‘heterossexual’ ou um ‘homossexual’, sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: serem criaturas e, pela graça, filhos de Deus, herdeiros da vida eterna”. Portanto, o que significa buscar o Senhor? Se eu o busco, quero ouvir o que Ele me fala e, consequentemente, buscar viver o que Ele me pede.

(fonte: O São Paulo)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

[Esp] Por que falhamos em nossas resoluções?

Resoluções, fracassos e o ano novo



 “Tenha paciência em todas as coisas, mas tenha paciência principalmente com você mesmo. Não perca a coragem por conta de suas próprias imperfeições, mas faça um esforço persistente para remediá-las.” São Francisco de Sales.

Se você for, de alguma forma, parecido comigo, você tem uma relação de amor e ódio com as resoluções de Ano Novo. Ah, você gosta da idéia, lógico. Quem não tem a fantasia de refazer completamente a própria vida por conta de uma única escolha? Mas, como a maioria de nós sabe por experiência própria, não é tão fácil. Não importa o quão forte seja a nossa resolução, nós caímos inevitavelmente.
É lógico que podemos passar alguns dias sem cair na farra, sem ficar assistindo shows da Netflix ou TV, sem comer alimentos gordurosos ou sem negligenciar os exercícios físicos. Talvez, até, durante algumas semanas ou meses. Mas, eventualmente, nós falhamos. Quando isso acontece, você despreza a si mesmo e a sua própria fraqueza. Você renova sua resolução e promete voltar ao caminho correto. E, então, você falha novamente. O desânimo começa. Ele corrói a sua resolução. Você começa a racionalizar sobre as suas falhas, começa a inventar desculpas, e antes que você perceba a sua resolução, que era tão forte há pouco tempo, evapora. Você desiste, e volta para a vida que tinha antes.

Resolução espiritual, fracasso espiritual

A não ser que você tenha uma vontade de ferro e tenha dominado completamente a si mesmo, o padrão descrito provavelmente soa muito familiar.
Mais ainda, esse padrão não se aplica somente às resoluções de Ano Novo. Ele também poderia frequentemente descrever nossas vidas espirituais. Talvez leiamos um bom artigo online sobre a importância da oração ou sobre o perigo de algum pecado. Resolvemos rezar o rosário e ler mais a Sagrada Escritura nos dias futuros, e nossas intenções são simplesmente boas. Mas, não importa o quão duro nós tentemos, parece que não conseguimos mantê-las. A cada fracasso, nossa resolução enfraquece, e antes que percebamos já desistimos de tudo.
O mesmo se aplica, num sentido negativo, ao pecado. Talvez você tenha combatido um pecado habitual por um longo tempo, mesmo até por anos. Você se confessa e resolve, com o auxílio de Deus, agir melhor. Mas, então, você fracassa uma, duas ou mais vezes. Você começa a se tornar amargo, e perde a esperança de superar esse pecado habitual.
Você se sente tremendamente culpado, e se castiga infinitamente. “Sou tão patético, tão fraco. Deus deve me odiar.” É isso que você começa a pensar. Sua vida espiritual se torna dominada pelo medo e pela vergonha. Talvez até você começa a ficar ressentido com Deus, porque Ele não o ajuda mais e porque ele tornou o combate espiritual muito difícil. Os sentimentos de fracasso e de amargura fazem você cair num tipo de depressão espiritual, na qual tudo isso parece não valer a pena. Você desiste completamente de cuidar de sua vida espiritual e o desejo que você teve um dia de agradar a Deus se dissolve por completo.

O justo cai sete vezes

Alguma coisa do que foi descrito acima soa familiar? Se a resposta for sim, provavelmente você tem uma relação de amor e ódio com a vida espiritual, assim como eu tenho com as resoluções de Ano Novo. Você quer agradar a Deus e ser um bom católico, mas não importa o quanto você tente, parece que caímos constantemente. O que fazer?
A primeira coisa que precisamos fazer é crescer no autoconhecimento. Somos seres decaídos, e embora o nosso orgulho se sinta ferido quando afirmamos isso, somos totalmente impotentes para fazer algo bom por conta própria. Com muita frequência não nos damos conta disso. Olhamos para nossas falhas e ficamos surpresos, como se a perfeição fosse o nosso estado normal de ser, e o pecado fosse uma aberração. Pensamos que podemos superar nossa natureza pecaminosa simplesmente com a força de vontade.
A realidade é exatamente o oposto. O pecado é o nosso estado normal de existência. Não há nenhum pecado, nenhum ato de depravação que não sejamos capazes de cometer. Deveríamos ficar surpreendidos de que não podemos fazer nada de bom, e que, quando fracassamos, nossas quedas não são nem mais frequentes nem mais graves.
Em segundo lugar, devemos abraçar, com humildade, a verdade sobre nós mesmos. Como eu disse um pouco mais acima, temos um pensamento muito elevado sobre nós mesmos e sobre as nossas habilidades. Deus quer nos curar desse orgulho e amor-próprio, e permitindo que nós fracassemos é uma maneira de fazer isso. Se nós não nos dermos conta de nossa completa pobreza, nunca avançaremos na santidade.
Com isso em mente, imagine o quanto isso inflaria os nossos egos se nós fôssemos capazes de nos tornar mestres da vida espiritual durante a noite, e isso com uma simples resolução e por mera força de vontade. Rapidamente, nós nos tornaríamos um baiacu espiritual, por assim dizer, apaixonados pela nossa própria habilidade de fazer o bem. Diríamos, de maneira arrogante, como o fariseu: “Deus, eu te agradeço por não ser como os outros homens...”
Vamos encarar cada queda como uma oportunidade de crescer no conhecimento de nossa própria fraqueza e na humilde dependência que temos de Deus. Vamos agradecer por não termos falhado com mais frequência ou com mais gravidade. Acima de tudo, lembremos que o primeiro passo na vida espiritual é nos darmos conta de nossa completa pobreza espiritual. Como Nosso Senhor disse: “Bem-aventurados os pobres de espírito.”
Em terceiro lugar, temos de rejeitar o desânimo. O desânimo e a desesperança, como eu descrevi acima, são obras do demônio, e estão enraizadas no orgulho. Ambos são mortais para nossas almas. Quando caímos em pecado, devemos nos voltar imediatamente para Deus, com um amor arrependido. Embora possamos sentir que o nosso pecado afastou Deus de nossas pessoas, isso não é verdade. Nunca é cedo demais para se arrepender. Deus está sempre esperando, como o Pai na história do filho pródigo, para correr em nossa direção com os braços abertos e nos abraçar.
Em quarto lugar, devemos nos lembrar que é o amor que restaura a nossa comunhão com Deus. São Maximiliano Kolke ensina: “Um simples ato de amor faz a alma retornar para a vida.” Quando você cair, diga imediatamente a Jesus que você o ama, e então procure agradá-lo com uma ação concreta. Esse ato de amor trará a vida para a sua alma e irá reparar o seu relacionamento com nosso Pai celestial.
Por fim, devemos começar novamente, dia após dia. Tendo a pensar que fazer resoluções para um ano inteiro é um pouco tolo. Vivemos um dia por vez, não um ano por vez. Todos os mestres da vida espiritual nos encorajam a fazer resoluções diárias e exames de consciência diários. Essa abordagem diária nos permite progredir um passo por vez e também nos levantar sempre depois de cada queda. É muito, muito mais fácil, também, evitar o desânimo quando não estamos olhando para o passado ou para o futuro distante. Como o Rei Davi disse sabiamente: “Eu pago os meus votos dia após dia.”

Não perca a coragem

Perguntaram, certa vez, a um monge: “O que os monges fazem no mosteiro?” O monge respondeu: “Caímos e levantamos novamente, caímos e levantamos novamente.”

Embora possamos nos iludir de que os santos são aqueles que nunca fracassam, e ansiemos pelo dia em que seremos invencíveis em relação às quedas, isso simplesmente não é a realidade. A única diferença entre os santos e o resto da humanidade é que os santos continuaram se levantando, retornando a Deus com arrependimento até o dia de suas mortes. Cair e levantar novamente – essa é a única receita para a santidade. Aqueles que suportarem com paciência não ficarão sem recompensa, pois, nas palavras de Nosso Senhor, “Aquele que perseverar até o final será salvo.”