quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

[Esp] Terceira Meta - Companheirismo - O espelho dos nossos defeitos

 



Cultivarmos um espírito de companheirismo no qual todos possamos partilhar,

uns com os outros, nossos pensamentos e experiências e,

assim, assegurarmos que nenhum de nós

venha a enfrentar sozinho os desafios da homossexualidade

(COMPANHEIRISMO)

  

O espelho dos nossos defeitos

  

A falta de bondade manifesta-se, entre outras coisas – como vimos –, pela reação que os defeitos alheios provocam em nós: umas vezes, de impaciência; outras, de desprezo ou cansaço. E já percebemos que tais reações não são propriamente “provocadas” pelos defeitos dos outros, mas são “ativadas” pelo nosso egoísmo ou pelo nosso orgulho.

Talvez compreendamos melhor o que se passa conosco se percebermos que, devido ao nosso egoísmo e à nossa autossuficiência, a primeira coisa que notamos nos outros é a sombra que os seus defeitos projetam sobre o espelho dos nossos próprios defeitos. Por outras palavras, os defeitos alheios incomodam-nos precisamente porque ferem um defeito nosso. Alguns exemplos podem esclarecer-nos.

Não é raro que um marido se sinta tremendamente aborrecido quando, ao chegar a casa cansado no fim do expediente, a mulher se dedica a martelar-lhe os ouvidos com uma longa cantilena de reclamações e lamentos: o elenco das contrariedades do dia. A reação espontânea do marido é perder o bom humor: “Por que não me deixa em paz? Será que não compreende que tenho direito a um pouco de repouso após um dia de trabalho estafante?”

Aparentemente, este marido tem razão. E certamente a esposa faria bem se guardasse para si as suas queixas e se ocupasse em tornar mais amável o convívio familiar. Mas também é verdade que a reação de impaciência e desgosto do marido não nasceu do amor: a ladainha enfadonha da mulher projetou-lhe uma sombra sobre o seu comodismo, feriu o seu comodismo, e por isso o perturbou. Fosse um homem de coração generoso, e a fraqueza da mulher se projetaria sobre o espelho do amor compreensivo, e nesse caso a reação seria outra.

Poderíamos falar também da impaciência do pai que recebe o boletim do colégio do filho enfeitado de vermelhos. É natural que esse mau desempenho nos estudos preocupe o pai e até que o deixe indignado. É lógico que tenha uma conversa menos suave com o filho. Mas, ao mesmo tempo, seria muito bom que analisasse o seu coração e se perguntasse: estou reagindo só por amor ao filho, pelo seu bem, ou porque me humilha que o meu garoto seja dos últimos da classe, e isso projeta uma sombra no espelho da minha vaidade? Pode muito bem acontecer que o sentimento predominante seja este último, e então a impaciência é a reação de um defeito pessoal atingido.

O mesmo poderíamos dizer quando notamos que possuímos uma grande facilidade para “ver” que os nossos colegas de trabalho são antipáticos, pouco inteligentes, maçantes e desleais…, quando, na realidade, o que “não vemos” é que estamos deixando-nos dominar pela inveja, pois o que nos aborrece é que, apesar de tantos defeitos que enxergamos neles, estão-se saindo melhor do que nós no trabalho e tendo maior sucesso.

Já dizia o Padre Vieira que “os olhos veem pelo coração; e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações” (Sermão da quinta Quarta-feira, 1669).

Quando o coração é limpo e bom, enxerga as coisas limpas e boas do mundo, especialmente as coisas limpas e boas dos outros. Se está manchado, projeta a sua sujidade em tudo.

Se fôssemos mais humildes e esquecidos de nós mesmos, ao percebermos que as fraquezas e os erros dos outros fazem saltar como uma mola os nossos próprios defeitos, começaríamos por tentar limpar esses nossos defeitos.

Veja o que sugeria Santo Agostinho: “Procurai adquirir as virtudes que julgais faltarem aos vossos irmãos, e já não vereis os seus defeitos, porque vós mesmos não os tereis” (Enarrat. in Psalmis, 30, 2, 7).

Vale a pena tentar essa experiência.

Trecho do livro de F.F O homem bom-Reflexões sobre a bondade

 

(o texto original, de autoria do Padre Faus, pode ser encontrado aqui)

 

 


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

[Esp] Segunda Meta - Oração e Dedicação - A Confissão, uma fonte de graça para se ter mais vida

 


Dedicarmos inteiramente nossas vidas a Cristo, por meio do serviço ao próximo,

da leitura espiritual, da oração, da meditação, da direção espiritual individual,

da participação frequente na Santa Missa e do recebimento constante

dos sacramentos da Reconciliação e da Santa Eucaristia

(ORAÇÃO E DEDICAÇÃO)

 

 

A CONFISSÃO: UMA FONTE DE GRAÇA PARA SE TER MAIS VIDA

 

 

Aos católicos que desejam levar a sério a vida espiritual e chegar à maturidade cristã (cf. Ef. 4,13), sempre foi recomendada a prática da Confissão frequente. Agora, o Papa Francisco não se cansa de recomendá-la. 

Não tenhais medo da Confissão! – dizia o Papa em 19 de fevereiro de 2014 -Quando estamos em fila para nos confessarmos, sentimos tudo isto, também a vergonha, mas depois quando termina a Confissão sentimo-nos livres, grandes, bons, perdoados, puros e felizes. Esta é a beleza da Confissão! Gostaria de vos perguntar — mas não o digais em voz alta; cada um responda no seu coração: quando foi a última vez que te confessaste? Cada um pense nisto… Há dois dias, duas semanas, dois anos, vinte anos, quarenta anos? Cada um faça as contas, mas cada um diga: quando foi a última vez que me confessei? E se já passou muito tempo, não perca nem sequer um dia; vai, que o sacerdote será bom contigo. É Jesus que está ali presente, e é mais bondoso que os sacerdotes, Jesus receber-te-á com muito amor. Sê corajoso e vai confessar-te!”

Você sabe que a Confissão é um os sete Sacramentos – o Sacramento da Reconciliação ou da Penitência –, instituído por Jesus Cristo, quando, depois de ressuscitado, apareceu aos Apóstolos reunidos no Cenáculo e lhes disse: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós”. Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: “Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes ão retiros (Jo 20, 21-23). É impressionante. Se Cristo não tivesse dado esse poder aos sacerdotes, nós não nos atreveríamos a pensar que isso fosse possível.

Mas Jesus não quis limitar-se só a facilitar por meio da confissão o perdão dos pecados. Fez muito mais.

 

Um canal de vida divina

 

Para entender isso, você tem que pensar que todos os Sacramentos são fontes de graça, canais por onde Cristo nos concede a vida divina, a graça do Espírito Santo que Ele ganhou para nós na Cruz: Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10). Ele é generoso, não dá a graça com medida (cf. Jo 7,38-39). 

Por esquecerem essa realidade, muitos acham que só deveriam confessar-se quando tem a desgraça de cometer pecados mortais, para ficarem livres deles e poder comungar. Quando não têm consciência de pecado grave, dizem: «Por que confessar-se? Para que a confissão frequente, mensal, ou até semanal?». 

Os que pensam assim ignoram que a Confissão não foi instituída por Cristo somente para perdoar os pecados, mas também para nos unir a Deus com mais amor, para nos fortalecer e para nos fazer amadurecer. Um texto antigo, citado no Catecismo da Igreja Católica (CIC), diz, de maneira muito bonita: «Toda a força da Penitência reside no fato de ela nos reconstituir na graça de Deus e de nos unir a Ele com a máxima amizade» (n. 1468). 

Para compreendermos melhor isso, vamos considerar agora as duas circunstâncias em que os católicos bem formados costumam se confessar. 

A) Recorrem quanto antes à confissão quando têm consciência de estarem em pecado mortal e, portanto, de terem perdido a graça de Deus. E não deixam de confessar-se no tempo da Páscoa, de acordo com o mandamento da Igreja. 

B) Procuram frequentemente e com devoção (uma vez por mês, cada quinze dias, semanalmente), confessar-se dos pecados veniais, daquelas faltas que não nos privam da graça habitual, mas enfraquecem a alma.

 

A confissão dos pecados graves

 

«Aquele que quiser obter a reconciliação com Deus e com a Igreja  – diz o Catecismo – deve confessar ao sacerdote todos os pecados graves que ainda não confessou e de que se lembra, depois de examinar cuidadosamente a sua consciência» (CIC, n. 1493). 

Depois, acrescenta: «A confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua sendo o único meio ordinário de reconciliação com Deus e com a Igreja» (CIC, n. 1497). Esta doutrina faz parte da nossa fé católica. 

Após lembrar isso, volto ao que dizíamos acima. Será que a confissão só «apaga» o pecado… e pronto? E resposta é: Não. Além de conferir o perdão dos pecados e restituir a graça santificante (o «estado de graça»), concede a graça sacramental. 

Em que consiste essa graça sacramental? Fundamentalmente em duas coisas: 

a) Em receber, junto com o perdão, um especial auxílio de Deus para fortalecer a alma na luta contra as tentações e evitar cair de novo nos mesmos pecados; 

b) Mais ainda: Santo Tomás ensina que, depois de uma confissão bem feita o penitente pode sair do confessionário tendo na alma um grau mais elevado de graça, do que aquele que tinha antes de cair no pecado grave. Por isso, como é importante confessar-se com frequência! 

Se você achar que não é bem assim, eu lhe direi que não compreendeu a parábola do filho pródigo. O rapaz abandona o pai, despreza-o, cai na gandaia, esbanja tudo, e acaba na miséria material e espiritual. Feito um farrapo humano, volta tremendo de medo para pedir perdão ao pai, e só espera que lhe permita ficar em casa como o último empregado. 

E o pai, que faz? Radiante de alegria, adianta-se, vai ao encontro do filho que volta, lançou-se-lhe ao pescoço e o cobriu de beijos. A seguir, mandou colocar aquele filho ingrato no lugar de honra da casa: Trazei depressa a melhor veste, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa. Este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado (Lc 15, 17-24). 

Você percebe? Deus não se limita a dizer: «Eu te perdoo, vamos esquecer». Faz muito mais. O filho pecador recebe mais carinho, mais honra e mais bens do que nunca antes tinha tido. O amor de Deus sempre «exagera», e nós somos tão tolos que o desprezamos…, com essa pretensão de que «não preciso me confessar!».

 

A confissão dos pecados veniais

 

«Apesar de não ser estritamente necessária – diz o Catecismo –, a confissão das faltas cotidianas (pecados veniais) é vivamente recomendada pela Igreja». A seguir dá quatro razões: «A confissão regular de nossos pecados veniais nos ajuda a formar a consciência, a lutar contra as nossas más tendências, a deixar-nos curar por Cristo, a progredir na vida do Espírito (na santidade)» (CIC, n. 1458). 

Medite sobre essas palavras. A pessoa que se confessa «regularmente», periodicamente, se recorrer a um confessor que dedique um pouco de tempo à orientação espiritual: 

a) terá uma consciência cada vez melhor formada: saberá distinguir o que é certo e o que é errado, o que é grave e o que é leve, terá segurança nas suas decisões morais, etc. 

b) além disso, será cada vez mais forte para lutar contra suas más inclinações (impaciências, irritações, preguiça, curiosidade sensual, vaidade, críticas, descontrole da gula, inveja, etc.). Muitos cristãos, por não procurarem essa ajuda da confissão frequente, ficam encalhados nas mesmas falhas e não são «curados»por Cristo. 

c) finalmente, a pessoa que pratica a confissão frequente progride no caminho do amor de Deus e do próximo, renova-se constantemente, descobre novas maneiras de fazer o bem.

 

Vale a pena ou não vale?

 

 Adaptação de um trecho do livro de F. Faus, Para estar com Deus, Ed. Cultor de Livros

 

(o artigo original pode ser encontrado aqui)